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O paletó

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o estado de s. paulo

07/03/2001

 


Não sei dizer exatamente há quanto tempo ele está ali no sofá. No sofá aqui do escritório. Jogado. A palavra é esta mesma. Joguei-o ali. E não foi hoje. Tem pra mais de 15 dias. A Gorete, quando vem para a limpeza - imagino eu - dá uma levantadinha nele, ajeita embaixo e coloca no mesmo lugar. Estava olhando para ele agora. Fiquei com dó do coitado. Confesso que ele já teve dias melhores.

 

É azul, de linho. Tem um forro de seda branco, com listras vermelhas e pretas. Já teve uma calça como companhia. Mas isso faz tempo. Foi no tempo que ele era um terno. Ou melhor, o terno.

 

Em 1991, quando cheguei em Lisboa, um amigo, o Walter Arruda - que me conhecia há muito tempo -, foi logo dizendo:

 

- Portugal é inviável sem um terno. Trouxe terno?

 

- E eu lá tenho terno, Warte?

 

Foi quando comprei aquele que está ali, caído.

 

Comprei na feira de Cascais. Ele estava estendido no chão, aberto. Ia passando com o compadre Sergio Antunes, bati o olho, me lembrei do Warte.

 

Ali, na calçada, em cima de um lençol branco. Meio encardido, devo confessar. O lençol. Fiquei olhando para ele. Tipo amor à primeira vista.

 

Sem encostar, já tinha gostado.

 

Inexperiente, não sabia como é que se comprava um terno no chão numa feira portuguesa. Fui me aproximando dele, olhando em volta, desconfiado. Passei a mão no cotovelo dele. Senti a textura do linho. E a voz da mulher portuguesa atrás de mim:

 

- Tem a cara do sinhoire.

 

Levantei o paletó. Olhei em volta. Experimentei. Mas e a calça? Tinha que experimentar a calça. Como, ali na frente da arena de touros? A mulher me apontou uma kombi. Era lá dentro que experimentava a calça.

 

Foi um exercício dos mais dignos. Eu, lá dentro, recurvado, com a nuca encostada no teto, vendo os vendedores e os compradores lá fora, de cuecas.

 

Os chamados transeuntes e populares olhando pelas janelinhas. Experimente tirar uma calça e colocar a outra, em pé, na parte de trás de uma kombi.

 

Experimente... Enfiar a calça não foi difícil. Mas o zíper fazia a kombi inteira tremer. Apoiava com uma das mãos, puxava com a outra. E para ver se a barra estava boa? Para isso eu tinha que ficar esticadinho. Mas não dava para ficar esticadinho. Com as duas mãos em concha, ia esticando o tecido pela coxa, passava pelo joelho e ia até lá embaixo. Sobrava pano. Comprei.

 

Setecentos e cinqüenta escudos. Uns cinqüenta dólares. Naquele tempo.

 

Passou a ser o meu terno em terras nunca dantes navegadas. Fez o social numa boa, por lá. Quantas e quantas pessoas eu não abracei com ele? Todas elas dando tapinhas nas minhas costas, nele. Andou abraçado com muita gente. Já guardou cinzeiro roubado de restaurante sem reclamar. Companheiro justo quando o sábado chegava.

 

E ele tinha uma primeira finalidade no Estoril. Me acompanhar ao cassino.

 

Diariamente ele, que está agora jogado ali à minha esquerda, recebia as fichas para jogar, no bolso lateral direito. E as que eu ia ganhando, oferecia com um sorriso o bolso esquerdo.

 

Por ali passaram talões de cheques, cartões de crédito, cartões de visita, lenços encharcados de lágrimas, guardanapos com fiapos de carne de borrego.

 

Com esse paletó fiz algumas palestras além-mar. Tirei fotografias e fui padrinho de três ou quatro casamentos. Ele também tem afilhados de batismo e um de crisma.

 

Estou aqui olhando de soslaio para ele e sei o que ele está pensando:

 

- E aquela história da vomitada? Vai contar, não?

 

Tadinho. E não foi só uma vez, não. Uma vez fui eu, mas teve uma espanhola que regurgitou nas costas dele, me pegando desprevenido.

 

Mas não vamos falar nisso. Esses não foram os seus grandes momentos. Tem muita vida dentro daquele paletó.

 

Hoje ele anda meio desmilingüido. O enchimento do lado direito anda meio solto, meio capenga, e não é de hoje. Sei que basta dar um pontinho de linha ali que segura. Mas e o saco pra isso? Todo vez que o visto, tenho que ajeitar - com a mão esquerda - o cidadão lá dentro.

 

Ele já me viu com 80 e com 70 quilos. Na alta, nunca reclamou de não ser abotoado. Na baixa - como agora, abotoa-se todo.

 

Mas posso lhe garantir que é um paletó maduro, viajado e, mais do que tudo, cúmplice de bons e maus momentos.

 

A única coisa que ele reclamava na vida era ser chamado, lá em Portugal, de fato. Em Portugal, terno, de facto, se chama fato.

 

Pois peguei o paletó ontem de manhã e fui para o Palácio dos Bandeirantes.

 

Eu e ele, ali, anônimos, numa fila. Fomos ver o Mário.

 

Dos mários, o melhor.