Não sei dizer exatamente há quanto tempo ele está ali
no sofá. No sofá aqui do escritório. Jogado. A palavra é esta mesma.
Joguei-o ali. E não foi hoje. Tem pra mais de 15 dias. A Gorete, quando
vem para a limpeza - imagino eu - dá uma levantadinha nele, ajeita embaixo
e coloca no mesmo lugar. Estava olhando para ele agora. Fiquei com dó do
coitado. Confesso que ele já teve dias melhores.
É azul, de linho. Tem um forro de seda branco, com
listras vermelhas e pretas. Já teve uma calça como companhia. Mas isso faz
tempo. Foi no tempo que ele era um terno. Ou melhor, o terno.
Em 1991, quando cheguei em Lisboa, um amigo, o Walter
Arruda - que me conhecia há muito tempo -, foi logo dizendo:
- Portugal é inviável sem um terno. Trouxe terno?
- E eu lá tenho terno, Warte?
Foi quando comprei aquele que está ali, caído.
Comprei na feira de Cascais. Ele estava estendido no
chão, aberto. Ia passando com o compadre Sergio Antunes, bati o olho, me
lembrei do Warte.
Ali, na calçada, em cima de um lençol branco. Meio
encardido, devo confessar. O lençol. Fiquei olhando para ele. Tipo amor à
primeira vista.
Sem encostar, já tinha gostado.
Inexperiente, não sabia como é que se comprava um
terno no chão numa feira portuguesa. Fui me aproximando dele, olhando em
volta, desconfiado. Passei a mão no cotovelo dele. Senti a textura do
linho. E a voz da mulher portuguesa atrás de mim:
- Tem a cara do sinhoire.
Levantei o paletó. Olhei em volta. Experimentei. Mas
e a calça? Tinha que experimentar a calça. Como, ali na frente da arena de
touros? A mulher me apontou uma kombi. Era lá dentro que experimentava a
calça.
Foi um exercício dos mais dignos. Eu, lá dentro,
recurvado, com a nuca encostada no teto, vendo os vendedores e os
compradores lá fora, de cuecas.
Os chamados transeuntes e populares olhando pelas
janelinhas. Experimente tirar uma calça e colocar a outra, em pé, na parte
de trás de uma kombi.
Experimente... Enfiar a calça não foi difícil. Mas o
zíper fazia a kombi inteira tremer. Apoiava com uma das mãos, puxava com a
outra. E para ver se a barra estava boa? Para isso eu tinha que ficar
esticadinho. Mas não dava para ficar esticadinho. Com as duas mãos em
concha, ia esticando o tecido pela coxa, passava pelo joelho e ia até lá
embaixo. Sobrava pano. Comprei.
Setecentos e cinqüenta escudos. Uns cinqüenta
dólares. Naquele tempo.
Passou a ser o meu terno em terras nunca dantes
navegadas. Fez o social numa boa, por lá. Quantas e quantas pessoas eu não
abracei com ele? Todas elas dando tapinhas nas minhas costas, nele. Andou
abraçado com muita gente. Já guardou cinzeiro roubado de restaurante sem
reclamar. Companheiro justo quando o sábado chegava.
E ele tinha uma primeira finalidade no Estoril. Me
acompanhar ao cassino.
Diariamente ele, que está agora jogado ali à minha
esquerda, recebia as fichas para jogar, no bolso lateral direito. E as que
eu ia ganhando, oferecia com um sorriso o bolso esquerdo.
Por ali passaram talões de cheques, cartões de
crédito, cartões de visita, lenços encharcados de lágrimas, guardanapos
com fiapos de carne de borrego.
Com esse paletó fiz algumas palestras além-mar. Tirei
fotografias e fui padrinho de três ou quatro casamentos. Ele também tem
afilhados de batismo e um de crisma.
Estou aqui olhando de soslaio para ele e sei o que
ele está pensando:
- E aquela história da vomitada? Vai contar, não?
Tadinho. E não foi só uma vez, não. Uma vez fui eu,
mas teve uma espanhola que regurgitou nas costas dele, me pegando
desprevenido.
Mas não vamos falar nisso. Esses não foram os seus
grandes momentos. Tem muita vida dentro daquele paletó.
Hoje ele anda meio desmilingüido. O enchimento do
lado direito anda meio solto, meio capenga, e não é de hoje. Sei que basta
dar um pontinho de linha ali que segura. Mas e o saco pra isso? Todo vez
que o visto, tenho que ajeitar - com a mão esquerda - o cidadão lá dentro.
Ele já me viu com 80 e com 70 quilos. Na alta, nunca
reclamou de não ser abotoado. Na baixa - como agora, abotoa-se todo.
Mas posso lhe garantir que é um paletó maduro,
viajado e, mais do que tudo, cúmplice de bons e maus momentos.
A única coisa que ele reclamava na vida era ser
chamado, lá em Portugal, de fato. Em Portugal, terno, de facto, se chama
fato.
Pois peguei o paletó ontem de manhã e fui para o
Palácio dos Bandeirantes.
Eu e ele, ali, anônimos, numa fila. Fomos ver o
Mário.
Dos mários, o melhor.