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O neguinho que queria ser branco

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o estado de s. paulo

04/10/2000

 


Seu ídolo era (e é) o Beckenbauer, um alemão, um branco bonito, bem vestido, olhos verdes, cabelo liso encaracolado, futebol estiloso, que disputou três Copas pela Alemanha. Um craque. Duro, sem ginga. Alemão, sabe como é?

Começou mal, o nosso herói. Talvez não soubesse ele que o seu ídolo, no campeonato mundial de 78 (era o capitão), na Argentina, foi proibido de dar entrevistas pela direção da delegação. Seu QI nunca passou dos 12. Só dizia barbaridades. Nunca me esqueci disso, pois em 78 estava na Alemanha.

Acompanhei a Copa de lá. E, cada vez que ele ia falar, os alemães levavam as mãos à cabeça.

Primeiro ele mudou a idade. Surprimiu três anos da sua vida. Era um gato.

Alisou o cabelo, negou a irmã (mulatérrima) que joga búzios e é pobre.

Resolveu ficar rico. Comprou uns ternos bonitos. Nunca caíram muito bem nele. Mas ele insistia. Sua mulher odiava quando ele se sentava no banquinho dos reservas com aquela preciosidade. Puía a bunda. O terno não pode cair bem num sujeito que nasceu Vanderlei da Silva e resolveu ser conhecido como Wanderley Luxemburgo. Ficava esquisito. Eu sei como é isso. Eu também fico esquisito de terno. Isso é coisa de europeu, de país frio, de gente de alma fria.

Quis que o seu time jogasse como os brancos europeus, como os duros e burros alemães. Parece ter ignorado as lições do mestre Oto Glória (brasileiro, pardo como eu. Sim, nós os mineiros somos todos pardos). O que foi que o Oto fez? Foi treinar o Benfica, de Lisboa, e percebeu que todos eram muito duros, muito europeus, ao contrário da crioulada aqui do Brasil. Garrincha, Didi, Pelé, para citar só três. Foi para Moçambique e pegou uns meninos pretinhos, levou para Lisboa. Resultado. O Benfica foi vice-campeão mundial e Portugal terceiro lugar na Copa da Inglaterra, em 66. Ganhou do Brasil de três a um (com Pelé, Garrincha e etecétera), com shows dos crioulos Coluna e Eusébio. Mas parece que o Vanderlei nunca soube disso. Já branco, quis que seu time jogasse como os brancos. Proibiu a ginga, o molejo, o drible desconcertante dos nossos craques mulatos. Criou jogadas ensaiadas, como se brasileiro precisasse disso. Ignorou o futebol que vinha se jogando na África, apesar da Nigéria ser campeã olímpica em 96 (depois de baterem na gente, do branquíssimo Zagallllo). Ainda não tinha descoberto que não tinha mais bobo no mundo do futebol.

E, como branco, começou a agir. Sonegar impostos, ter namoradas (comparsas e cúmplices), a cara dele. Narciso perde. Já notou? E não foi arrumar uma namorada loira oxigenada como fazem os atletas negros. Não, branco alemão gosta é de mulata. É por ali que ele circula. Começou a fazer negócios escusos. Se branco faz, também faço. Mais um pouco e virara um Lalau.

Estouraram os escândalos e ele nem aí. No ar, uma postura malufista, um nariz arrebitado. Nada o abalava. Nada o fazia mudar de opinião. E foi para a Olimpíada achando que ganhava aquilo sozinho. Já era branco suficiente para a empreitada.

No segundo jogo, do lado de lá, 11 pretos retintos! Todos eles com molejo, com ginga, com amor pra dar. E gols pra fazer no nosso branco Luxemburgo.

Meteram três na cara dele! Três negros contra um branco. Depois vieram uns amarelos. Deu pra encarar, raspando, num sofrimento danado.

E, para desgraça dele (e de todos nós) mais 11 negros contra ele. Aliás, para bem da verdade, nove. Foi o bastante. A branca zaga ficou devendo aquele gol.

Na volta, ao chegar no aeroporto, sem terno, com o cabelo já meio pixaim de novo, não parecia o branco que saiu daqui.

Talvez ele tenha percebido que ser negro não é tão ruim assim. Talvez tenha percebido que o mulato Romário, o mulato Rivaldo e o negríssimo Dida talvez pudessem ter ajudado na luta contra as áfricas que nos humilharam.

Talvez agora, desempregado e depois de acertar suas contas com os cofres desse nosso País pardo (e orgulhoso disso), ele envelheça de novo os três anos que sonegou e volte a ser o velho e bom Vanderlei da Silva, pardo.

Talvez ele perca o sonho de tornar-se um Beckenbauer dos trópicos, vista seu calção verde e amarelo e volte a ser - novamente - o melhor técnico do Brasil.

Basta, para isso, escurecer um pouco o coração, clarear as idéias, pagar as contas e depois, com os nossos mulatinhos sob seu comando, voltar a nos trazer as alegrias de um Pelé, um Garrincha, um Didi, um Romário, um Rivaldo, todos estes brasileiros maravilhosos que gostam mesmo é de uma boa cerveja gelada, uma loira quente e uma bola na rede.

Tenho certeza que ele vai voltar. Ele ainda é o melhor técnico do Brasil.

Amulate-se, cara! Você é bom! Esqueça o Beckenbauer, esqueça a Europa.

Comece a olhar mais para a África. Foi de lá que todos nós viemos. Aliás, com muito orgulho.