O pipoqueiro - o que faz e vende pipoca e não
aquele que pipoca - não sabe, mas ele tem uma grande participação na cultura
brasileira. No teatro, por exemplo, o pipoqueiro é fundamental. Não existe sucesso
teatral sem o pipoqueiro.
Não me pergunte como o pipoqueiro sente o cheiro do
sucesso e chega devagarzinho com o seu carrinho todo cheiroso. Mas ele está sempre lá.
É comum entre as pessoas da classe teatral, logo depois de uma estréia, a pergunta:
quantos carrinhos de pipoca? É como as estrelas de um hotel. Cinco pipoqueiros é sucesso
pra mais de ano.
Me lembro de um grande fracasso deste que vos fala.
A peça se chamava Purgatório e estava no Culturinha. No terceiro dia de parca bilheteria
eu e o Roberto Lage, o diretor, vimos o único pipoqueiro se afastando pela Nestor Pestana
antes mesmo do espetáculo começar. Olhando o andar desalentado do profissional do milho,
já sabíamos que a peça não iria emplacar um mês.
Sem a presença dele ali na porta, o teatro
brasileiro não vai pra frente. Quer saber a melhor peça em cartaz na cidade? Pergunte a
um pipoqueiro e não à crítica especializada. Esta, sempre pipoca.
É que outro dia, de madrugada, eu vi não apenas
um, mas dois pipoqueiros em um inusitadíssimo espetáculo quase teatral.
Um espetáculo que começou sem grande
estardalhaço. Trata-se da decoração natalina do BankBoston na Paulista com Ministro.
Uma semana antes do natal, a Ministro começou a ficar engarrafada. Meu compadre Mateus
Shirts, vindo para a minha casa - que é ali perto - notou a coisa como brasilianista e
escreveu uma crônica a respeito dos boquiabertos brasileiros diante da magnitude do
capital estrangeiro, das hollywoodianas luzinhas e do lucro que depois vai para Boston.
Mas nem o Mateus poderia imaginar até onde iria o fenômeno.
Como passo por ali pelo pelos duas vezes por dia,
fui seguindo o sucesso da parafernália. Começaram a surgir brasileiros com máquinas de
fotografar e filmar. Casais de namorados e/ou famílias inteiras. Boquiabertos é pouco. E
eis que, na madrugada de sábado, lá pela uma da manhã, estou eu voltando para casa e
vejo dois pipoqueiros. Lá! Era a consagração. Dali mesmo, pelo celular, ligo para o
Mateus: tem pipoqueiro! E a culpa é sua, que foi escrever aquela crônica.
Encostei o carro e fiquei olhando aquele bando de
terceiro mundo fotografando o capitalismo selvagem, como diria eu mesmo em meus tempos de
comunista.
E ontem, chega em casa o compadre, que acabara de
passar pelo teatral-financeiro:
- Você não vai acreditar! Estão vendendo pamonha
e milho verde! E tem uma bandinha tocando Jingle Bell.
E toma congestionamento. E deslumbramento. Programa
furado? Dólar furado? Papo furado? De grão em grão o pipoqueiro enche o saco. Ele não
deve nem imaginar onde fica Boston, da mesma maneira que não sabe quem foi o Shakespeare.
Mas o leite das crianças ele garantiu. O Papai Noel dele foi gordo. Talvez tenha sido o
único brasileiro a faturar em cima da multinacional americana.
Aquele anônimo pipoqueiro é bem a cara do Brasil
nesse final de década, século, milênio, mundo, ou seja lá o que é que vai acontecer
dia 31. É o nosso retrato. Somos todos nós fotogrando uma avenida paulista que já não
é mais uma terra nostra, uma Wall Street esburacada e metida a besta.
Deixando o ranço e o nacionalismo de lado, cá
entre nós, a decoração é mesmo um show. Americano sabe fazer essas coisas. E nós,
como sempre, pagamos a conta.
Que o próximo ano, a próxima década, o próximo
século e o próximo milênio seja cheio de pipocas e luzinhas na sua cabeça.
Que todos nós tenhamos idéias luminosas e, ao lado
de cada um de vocês, caminhe, lado a lado, um pipoqueiro bem brasileiro.
Mas cuidado com o colesterol.