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O natal, o banco e o pipoqueiro

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o estado de s. paulo

27/12/99

 


O pipoqueiro - o que faz e vende pipoca e não aquele que pipoca - não sabe, mas ele tem uma grande participação na cultura brasileira. No teatro, por exemplo, o pipoqueiro é fundamental. Não existe sucesso teatral sem o pipoqueiro.

Não me pergunte como o pipoqueiro sente o cheiro do sucesso e chega devagarzinho com o seu carrinho todo cheiroso. Mas ele está sempre lá. É comum entre as pessoas da classe teatral, logo depois de uma estréia, a pergunta: quantos carrinhos de pipoca? É como as estrelas de um hotel. Cinco pipoqueiros é sucesso pra mais de ano.

Me lembro de um grande fracasso deste que vos fala. A peça se chamava Purgatório e estava no Culturinha. No terceiro dia de parca bilheteria eu e o Roberto Lage, o diretor, vimos o único pipoqueiro se afastando pela Nestor Pestana antes mesmo do espetáculo começar. Olhando o andar desalentado do profissional do milho, já sabíamos que a peça não iria emplacar um mês.

Sem a presença dele ali na porta, o teatro brasileiro não vai pra frente. Quer saber a melhor peça em cartaz na cidade? Pergunte a um pipoqueiro e não à crítica especializada. Esta, sempre pipoca.

É que outro dia, de madrugada, eu vi não apenas um, mas dois pipoqueiros em um inusitadíssimo espetáculo quase teatral.

Um espetáculo que começou sem grande estardalhaço. Trata-se da decoração natalina do BankBoston na Paulista com Ministro. Uma semana antes do natal, a Ministro começou a ficar engarrafada. Meu compadre Mateus Shirts, vindo para a minha casa - que é ali perto - notou a coisa como brasilianista e escreveu uma crônica a respeito dos boquiabertos brasileiros diante da magnitude do capital estrangeiro, das hollywoodianas luzinhas e do lucro que depois vai para Boston. Mas nem o Mateus poderia imaginar até onde iria o fenômeno.

Como passo por ali pelo pelos duas vezes por dia, fui seguindo o sucesso da parafernália. Começaram a surgir brasileiros com máquinas de fotografar e filmar. Casais de namorados e/ou famílias inteiras. Boquiabertos é pouco. E eis que, na madrugada de sábado, lá pela uma da manhã, estou eu voltando para casa e vejo dois pipoqueiros. Lá! Era a consagração. Dali mesmo, pelo celular, ligo para o Mateus: tem pipoqueiro! E a culpa é sua, que foi escrever aquela crônica.

Encostei o carro e fiquei olhando aquele bando de terceiro mundo fotografando o capitalismo selvagem, como diria eu mesmo em meus tempos de comunista.

E ontem, chega em casa o compadre, que acabara de passar pelo teatral-financeiro:

- Você não vai acreditar! Estão vendendo pamonha e milho verde! E tem uma bandinha tocando Jingle Bell.

E toma congestionamento. E deslumbramento. Programa furado? Dólar furado? Papo furado? De grão em grão o pipoqueiro enche o saco. Ele não deve nem imaginar onde fica Boston, da mesma maneira que não sabe quem foi o Shakespeare. Mas o leite das crianças ele garantiu. O Papai Noel dele foi gordo. Talvez tenha sido o único brasileiro a faturar em cima da multinacional americana.

Aquele anônimo pipoqueiro é bem a cara do Brasil nesse final de década, século, milênio, mundo, ou seja lá o que é que vai acontecer dia 31. É o nosso retrato. Somos todos nós fotogrando uma avenida paulista que já não é mais uma terra nostra, uma Wall Street esburacada e metida a besta.

Deixando o ranço e o nacionalismo de lado, cá entre nós, a decoração é mesmo um show. Americano sabe fazer essas coisas. E nós, como sempre, pagamos a conta.

Que o próximo ano, a próxima década, o próximo século e o próximo milênio seja cheio de pipocas e luzinhas na sua cabeça.

Que todos nós tenhamos idéias luminosas e, ao lado de cada um de vocês, caminhe, lado a lado, um pipoqueiro bem brasileiro.

Mas cuidado com o colesterol.