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O ministério adverte

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o estado de s. paulo

03/04/2002

 


O governo brasileiro resolveu atacar - pra valer - o fumante. Imitação - como sempre - das coisas americanas. Enquanto ingleses, franceses, espanhóis, alemães e outros povos desenvolvidos continuam a tragar, tenho que me deparar - do outro lado do meu prazer - com uma senhora morrendo de câncer, um rapaz com mau hálito e uma grávida com culpa. Tudo bem, o cigarro faz mal e pode mesmo levar à morte. Mas acho intragável - literalmente - a campanha. Como diz um jovem estudante de Assis, Eduardo Reis: "Intragável é tudo aquilo que não se fuma." Como eu nunca fumei um político, para mim são todos intragáveis. Repito: todos! Eles disputam com os cartolas do futebol quem consegue ser mais bandido, mais escroto, mais repugnante. Basta olhar para a cara do suposto fraudulento e flautulento Eurico Miranda.

Mas, já que o Ministério da Saúde resolveu advertir a todos sobre os males que recaem no pobre - e mortal - fumante, deveriam ampliar a idéia. Dou toda a força.

Por exemplo: o Ministério da Justiça poderia colocar na parte de trás do terno de todo mundo que tem diploma, um texto mais ou menos assim: "O MJ adverte: ele tem curso superior, vai para cela especial." Sim, nunca entendi direito esse negócio do cara ter um diploma e não ir para o Carandiru.

Queria ver aquele médico tarado lá no Pavilhão 2. Ia ver o que é bom para a tosse e o reto direito à vida.

Outra advertência do Ministério da Justiça seria colocar atrás da roupa de 95% dos senadores e deputados, os dizeres: "O Ministério da Justiça adverte:

nossos políticos são corruptos e podem levar você à miséria."

O Ministério da Saúde adverte: "Esgoto a céu aberto mata!"

O Ministério dos Esportes colocaria escrito atrás de cada cartola: "O Ministério dos Esportes adverte: Cartola pode levar o futebol brasileiro à morte."

O Ministério da Educação poderia advertir com uma tatuagem nos analfabetos:

"O Ministério da Educação adverte: a falta de informação e o analfabetismo podem levar ao assalto, ao crime, ao tráfico, ao seqüestro."

Os militares escreveriam em amarelo nas fardas verde-oliva: "O Exército adverte: já vimos este filme. Te cuidem!"

Dizem que o Maluf tem mais de cem ternos. Não sei se bastam para colocar algumas advertências sobre tal elemento nas costas. Vai faltar terno. Mas cuidado que ele pode te processar e - se você não tiver diploma... Pensando bem, acho que o Paulo gosta mesmo é de ser processado e processar. Já notou?

Ele processa todo mundo. Poderia colocar num dos ternos: "PM adverte:

reparar em mim pode levar a processo!"

A ANI (acho que é Agência Nacional de Inteligência) faria com que todos os seus funcionários levassem nas costas: "A ANI adverte: seu telefone está grampeado e com mau hálito."

O Serra (cada vez mais parecido com o mosquito da dengue) e a Roseana (cada vez mais parecida não com o pai, mas com o marido) poderiam usar a mesma frase: "Não tenho nada com isso!"

Os jogadores de futebol, no lugar do número na camisa, colocariam quanto ganham por mês para enrolar o torcedor de salário mínimo. US$ 200.000, R$ 300.000.

O políticos e empresários que desviam o nosso dinheiro e jogam no exterior, levariam nas costas o número da conta que têm lá fora. Assim como os nossos jogadores que atuam no exterior, seriam chamados aqui de estrangeiros. "Os estrangeiros advertem: não roubar leva à morte por desnutrição e dengue e malária e tuberculose e - principalmente - etc."

Tem tanta coisa no Brasil que mata mais do que o cigarro, gente. Nunca roubei, nunca fui corrupto, declaro honestamente meu Imposto de Renda - sim, peço nota ao médico, mesmo pagando mais. Criei meus filhos com amor e dignidade, amei as mulheres que amei, não devo nada a ninguém. Por que só eu tenho de levar nas costas essas fotos na contracapa do meu cigarrinho.

Vão cuidar das outras mortes brasileiras, senhores do poder. Porque nós que fumamos, sabemos que vamos morrer por "nossa conta e risco". Mas aquela garotinha que vai passando pela rua e leva uma bala perdida, vocês vão deixar morrer com uma placa nas costas: "O Brasil adverte: não saia de casa!

Isso pode causar mortes."

Ora, vão se danar vocês todos aí de Brasília.

P.S.: Me desculpe o mau humor. Mas é que eu estou com mau hálito, câncer no pulmão, com o útero comprometido e outras seqüelas causadas por esses caras todos!

E o pior é que não há hoje no País nenhum candidato a nos presidir com quem eu, como brasileiro, possa me identificar. Nem que fosse para fumar unzinho com ele e trocar umas idéias menas (é menas mesmo, para esse povo), menas maquiavélica. Menas, gente, menas!!!

P.S.: Atenção revisão: Machado de Assis usava menas. Vamos assumir o menas.

É muito menos perigoso do que um político. Com uma vantagem: o menas nunca causou a morte e a fome e a vida indigna de nenhum brasileiro. Fumante ou não.