Que me desculpe o velho marinheiro Ernest pelo título. Mas vamos lá.
Lá, onde eu nasci, nas Minas Gerais, não tem esse negócio de mar, não.
Ficamos contentes com nossas montanhas e nossos ouros. E foi por isso que
até os 16 anos eu nunca havia visto o mar. Nem estava abalado pois é
difícil gostar do que não se conhece. Só sabia - me diziam - que era
salgado, mas isto não chegava a me intrigar.
Pois quando eu fiz 16, meu pais resolveram me mandar para a casa de um tio
no Rio de Janeiro com a finalidade única de ver o mar. Foi o mar do
Leblon, em noite de quase tormenta, que eu vi pela primeira vez. No dia
seguinte fui lá colocar o dedo e ver se tinha sal mesmo. Tinha. Mas
confesso que não me empolgou. Alguma coisa assim como Machu Picchu.
Anos depois, morando no Rio de Janeiro, ouvia uma confissão do Aderbal
Freire-Filho que dizia não conseguir morar a mais de cem metros do mar.
Nunca entendi.
"Que poder de vontade louco tem o mar. Passa o dia inteiro indo e vindo,
sem gozar." Os versos são do Sergio Antunes e eu sempre entendi. O não
orgasmo, é claro. Resumindo, o mar nunca me emocionou. Aliás, nas poucas
vezes que cheguei perto dele foi muito mais pelo bronze. Colocava o
pezinho, dizia ai que frio e voltava para a cadeira. Sim, também nunca fui
de me sentar na areia. Entram uns bichinhos.
Dizem os mais velhos que o primeiro sintoma de velhice para os homens é
começar a achar os jogadores de futebol cada vez mais jovens. O segundo é
achar os juízes de futebol cada vez mais jovens. Bem, por estas duas
etapas eu já havia passado, antes mesmo de descobrir o mar, que há pouco
tempo se deu.
Mas faltava a derradeira prova da idade. Começar a derrubar comida na
barriga. Me lembro de quando morava em Lisboa e me encontrei com o
Fabrício Mamberti (hoje diretor de novelas na Globo) e perguntei pelo pai
dele, o genial Serginho igualmente Mamberti. E ele me respondeu: "Já está
derrubando macarrão na barriga." Confesso que, naquele tempo, não entendi.
Mas ontem, fazendo o rol (como se diz nas palavras cruzadas, outra
bandeira desgraçada) das roupas sujas, percebi algumas camisetas e
moletons com indefectíveis marcas de azeite (ou coisa que o valha) ali do
umbigo para baixo. É, a velhice começa pela boca e aterrissa na barriga!
Sim, assumo a velhice, assim como assumo o mar. Depois de 55 anos de vida
descobri o mar, morando a menos de 100 metros dele. E fico olhando e
ouvindo aquelas ondas que vêm e vão e o danado não goza mesmo! Deixa o
prazer para nós. Hoje não sei como vivi tanto tempo longe do mar. Os
mineiros que me perdoem, mas o mar é fundamental.
Comecei até a fazer elucubrações profundas: é que - dizem - viemos do mar,
da água. Então, chegando a velhice, começamos a voltar para a água e babar
na camisa. O útero, que é uma água só... O que deve significar que o meu
futuro também será bem molhado. Mas não úmido. Um molhado até de lágrimas,
pois, depois de uma idade, a gente volta a chorar feito criança quando a
mãe manda ele sair do mar senão vai ficar todo enrugado. Pois hoje eu
posso afirmar, com toda a certeza, que o mar desenruga, desenferruja.
Hidrata seria a palavra certa.
Ficar sentado numa pedra, à beira do mar, olhando o gigante batendo cada
vez com mais força, ritmo e som diferente é o que o Ernest gostava lá na
sua Cuba de outros tempos.
Que bom que, ao mesmo tempo que derrubo o macarrão na barriga, ouço o
barulho do mar. Agora, neste momento, um final de domingo, aqui estou eu
com a barriga meio emporcalhada, ouvindo o mar batendo lá na praia. Indo e
vindo, indo e vindo.
Como nós. E eu me sinto quase uma Garota de Ipanema quando caminho em
direção ao meu mar. Vou num doce balanço, num calmo balanço, como se
estivesse indo dar um abraço na água. E lá, entro de roupa e tudo. Lavo a
camisa e a alma.
E antes de terminar, um aviso aos meus amigos psiquiatras: este papo de me
sentir Garota de Ipanema, das ondas irem e virem, do orgasmo, de lavar a
alma e de todos os et ceteras, não significa absolutamente nada. Continuo
o mesmo. Mais aquático, digamos. Mas ainda com os pés em terra firme, indo
e vindo e - às vezes - conseguindo o tal do orgasmo. .