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O LERO-LERO DO NHENHENHÉM

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o estado de s. paulo

18/12/95

 


Quem diria, o nhenhenhém (resmungo, rezinga) virou moda. Dito por um sociólogo e, ainda por cima, presidente da República, virou manchete de jornal e até um pequeno e prático estudo, aqui mesmo, no Estadão de sábado, feito pela Ana Cristina Rosa e outro no JB. No Restaurante Péprafora, em São Paulo, já incrementaram o Salmão a Nhenhenhém. Uma delícia, juntar o peixe de águas fundas européias com uma palavra de origem tupi-guarani. Brasileiro é mesmo cheio de ziriguidum e ziquizira.

Como o FH ainda tem uns quatro anos pela frente, vamos nos preparar para receber ainda o blablablá (conversa oca, sem conteúdo; conversa fiada), o tititi (confusão, tumulto, rolo), o zumzumzum (boato, fococa), o lero-lero (conversa mole), o diz-que-diz e, porque não dizer, o nheco-nheco.

São todas palavras derivadas da fala infantil, coisas de tico-tico no fubá. Toda criança gosta de descobrir as palavras e, a partir da descoberta, ficar usando-as, exaustivamente, sem parar. Com os escritores acontece a mesma coisa. Descobre-se uma palavra e ela não sai dos nossos textos durante muito tempo. Me lembro quando o dramaturgo Paulo Pontes lançou a palavra "cooptar". Todo mundo passou a cooptar.

A partir da fala do nosso presidente (nada infantis, por sinal) fiquei lembrando de palavras que eu usava assim que as descobria, ainda adolescente. Eis algumas:

Inócua - Tinha uns 14 anos quando descobri esta gostosa e redonda palavra. Me lembro de uma crônica bem babaca que eu escrevi e começava assim: "Ali estava ela, gélida, inócua, alheia". Eu ficava imaginando um tipo de crônica só para usar determinadas palavras, inocuamente falando.

Peremptória - "Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptório. .... mas aos pedaços, mastigado, em voz um pouco surda e tímida." (Machado de Assis, Dom Casmurro, p. 75.) , citado pelo Aurélio. Eu adorava essa palavra. Todas as minhas dúvidas eram peremptórias, peremptoriamente falando.

Dialética - Essa palavra virou moda nos anos 60, na época dos movimentos estudantis. Tudo era uma questão de dialética. Não se podia falar de Hegel, nem de Marx sem entrar numa discussão dialética, dialéticamente falando.

Proxeneta - Quantas e quantas histórias eu não inventei apenas para usar esta sonoríssima palavra? Principalmente depois que descobri que a origem era grega. Até hoje, acho que todos os gregos são proxenetas, proxenetamente falando.

Bretão - Os locutores mais sofisticados chamavam o futebol de esporte-bretão. Durante muitos anos sempre achei que a palavra bretão significava bruto, forte, alguma coisa ligada à pedras. Já velhinho, vim a perceber que a palavra vem de Grã-Bretanha, a Inglaterra, onde foi inventado o futebol. Mas tem uma coisa que eu ainda não entendi: a Bretanha não é na França, britanicamente falando?

Liquidificador - Eu era ainda garotinho quando chegou o primeiro liquidificador na minha cidade, no interior. Foi um vendedor lá em casa. Meu pai olhou para aquilo e disse: "Com esse nome, esse negócio não vai pegar!" Já eu, achava mais difícil pegar era a esferográfica: "Ciança nenhuma vai guardar este nome".

Fraudulento - Tinha minhas dúvidas sobre o que signficava. Seria alguma coisa ligava ao Freud ou seria nome de um ator das peças do Nelson Rodrigues? Bonitinha, Mas Ordinária, com A. Fraudulento?

Technicolor - Essa eu não tinha dúvida, era o nome de um ator de Hollywood. Não percam, John Technicolor, em Cinemascope!

Jeep Willys - Claro, outro ator.