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O jota muçulmano

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o estado de s. paulo

03/10/2001

 


Tropecei num jota muçulmano na semana passada. Caí de cara no chão. Pra quem não leu a crônica da semana passada vou logo confessando que escrevi "atinjiu" com jota e não com gê de jeito (esta dói mais). Mas eu explico. O que eu estava dizendo que atingiu foi o jato. Jato com jota. Devo ter esquecido o dedo na tecla. A quantidade de cartas foi assustadora. Ninguém comentou nada sobre as torres atingidas. O que doeu mesmo no leitor foi aquele jota de jato. Bem nos alvos.

Como se não bastasse o jota, no lugar de muçulmano, escrevi mulçumano. Aqui eu poderia mentir e dizer que foi de propósito, pois não queria atingir os muçulmanos que não tinham nada com o atingido. Então, teria inventado a palavra "mulçumano". E mais, que teria escrito errado para facilitar a rima com humano. Tudo mentira. Errei mesmo. Talvez por nunca ter visto um muçulmano pela frente. Aliás, nem por trás, como o Bush anda vendo.

Isto posto, vamos em frente.

Estes errinhos (sim, errinhos) me fizeram lembrar de uma peça minha que foi montada em Montevidéu, Besame Mucho. Gentilmente a diretora me mandou uma passagem para ir à estréia. Fui. Quando cheguei ao teatro, ainda de tarde, ela me levou para o bar na frente, pois precisava me contar um corte que havia feito no texto. Se tem coisa que irrita um autor é o diretor cortar sem avisar. Antes. Pedimos um vinho e ela começou a ladainha.

Me dizia (eu sei que é dizia-me) que quando as personagens Olga e Dina estavam brigando, uma delas citada uma terceira mulher. E esta terceira nunca havia sido mencionada na peça e nem depois voltaria a ser. Portanto ela, a diretora, não sabia qual seria a reação de uma das personagens diante do tal nome.

E eu dizia que não tinha nenhuma outra mulher sendo citada e ela insistia. E eu pedi para ver o texto traduzido para o espanhol. E estava lá:

- Si, Olga, pero ahora, Inês és muerta!

Não é engraçado isso? Cortou um pedaço de uma briga por não saber quem era a tal da Inês.

Outra: um leitor encontrou o Loyola e foi logo dizendo que havia lido o último livro dele: A Véia Bailarina. Na verdade o livro se chama A Veia Bailarina.

Já o Fernando Morais estava autografando o seu Olga no interior e havia um cartaz imenso atrás da mesa dele, escrito: Leia Olga. E o sujeito perguntou:

- Já vi que vou gostar desta tal de Olga. E a Léia, sai quando?

E, em Portugal, uma vez recebi uma correspondência em que me chamavam de Senhor Inclino. Me senti como a Torre de Pisa. Liguei para a imobiliária reclamando daquilo. Senhor Inclino! Foi uma luta, mas a mocinha me tranqüilizou quando me disse que não era inclino, era inquilino.

Para falar a verdade, não era sobre nada disso que eu ia escrever hoje. Comecei lá a explicar os jotas e os muçulmanos e acabei no inquilino português. O que eu queria mesmo é pedir para pararem de me mandar piadinhas sobre o atentado a jato. Estão cada vez de mais mau gosto. Além de demorar para entrar na tela.

No mais, espero que já tenham prendido o homem e o Jader volte novamente para a primeira página. É muito mais divertido e criativo.