São
Paulo, 444 anos. Eu, 32 anos de São Paulo. O Zélio me pede uma crônica
sobre São Paulo. Como?, pergunto eu, se São Paulo são tantas e são tantos
os que moram aqui. Poderia escrever um livro inteiro contando tudo que vi e
vivi e revirei nesta cidade que escolhi para viver. Amo São Paulo. E não me
pergunte o por quê, que eu não sei.
Tanta
coisa me marcou nesta cidade, que... Comecei a pensar nestes 32 anos aqui
vividos. Pensar na noite de São Paulo. 32 anos de noite. Mas, três deles,
especiais, vividos dentro do Jogral. O Jogral, da Avanhandava, durou três
anos. Fechou quando o dono, meu querido compositor Luis Carlos Paraná,
morreu, em 71.
Era
um bar e pequeno. O que? Cem pessoas? Por aí. Não se fazem mais bares como
antigamente. Também não se faz mais final de década como a dos anos 60.
Minissaia, homem descendo na lua, festivais da Record, Jovem Guarda,
Tropicalismo, Cinema Novo, Arena, Oficina, Chacrinha. Todo mundo era garoto.
Todo mundo tinha entre vinte e vinte e cinco anos. O golpe militar tinha seis
e era perigoso até mesmo dizer que estudava na USP. Tinha gente sumindo pelo
buraco do ladrão.
O
Jogral era a válvula de escape. O Old Eight deste que te escreve, na época
estudante de economia na USP e mui digno funcionário do Banco do Brasil, no
Brás.
Foi
no Jogral que vi, pela única vez, a Leila Diniz. Com o braço engessado, um
ou dois anos mais velha do que eu. Tinha o que? 24? Claro que fui autografar
no gesso dela. No Banco, ninguém acreditou.
Foi
no Jogral que, um dia, uma moça bonita sentou-me entre o meu banquinho e o do
Edson Paes, bom jornalista. Acabou casando com ele e fazendo sucesso. Era a
menina Irene Ravache que, naquele mesmo dia, me pediu para escrever uma peça
para ela. Eu brinquei: eu nem sei se você é uma boa atriz... No que ela
retrucou: eu também não sei se você é um bom autor... Até hoje a gente
brinca com isso.
Foi
no Jogral que, uma noite, sem mais nem menos, me entra o Oscar Peterson e,
depois de tomar umas, foi ao piano e tocou até de madrugada, acompanhado no
violão pelo grande Geraldo Cunha. O Paraná revistava as gavetas atrás de
uma fita para gravar o momento histórico. Ficou doido, não tinha nenhuma
fita na casa. O som só acabou com o sol. E desapareceu para sempre.
Foi
no Jogral que eu ouvi pela primeira vez a expressão “deu cinco, sem
tirar”. Era a Elza Soares comentando a perfórmance - fora do campo, ou
dentro) do nosso mágico Garrincha.
O
Jogral, do porteiro Carlinhos que conhecia os frequentadores todos. E se você
chegava com uma mulher diferente ele dizia: “sumido, doutor!”, e o doutor
era eu que estivera na véspera com outra.
O
Jogral, do garçom Joãozinho. No palco, o piano afinadíssimo do Mario Edson,
a voz macia da Ana Maria Brandão. E quando o Manezinho da flauta solava um
Pixinguinha?
Na
mesa ao lado você podia ver a Maysa vomitando aos pés do Trio Mocotó. E as
canjas? Chico, Gil, Jorge Ben, Toquinho, Maranhão. Foi lá que ouvi, pela
primeira vez, Aquele Abraço, do Gil que partiria exilido na semana
seguinte. Jorge Ben fazia suas músicas e ia testar lá. Tudo moleque.
A
voz de veludo do Adauto Santos, parceiro do Paraná em tantos sambas. E tinha
só uma garrafa de cachaça, que era do Paulo Vanzolini. É provável que até
hoje o Vanzolini não saiba que o Paraná roubava a cachaça dele e dava pra
gente, quando a dureza apertava. De noite eu rondo a cidade...
Na
noite que o Paraná morreu, tinha uma placa na porta do Jogral: fechado por
motivo de falecimento do Paraná. Velório no Oswaldo Cruz. Todo mundo que
chegava - e já se sabia que o Paraná estava pra morrer - ia direto para o
velório. Na porta do velório, o porteiro Carlinhos continuava porteiro,
selecionando a clientela, sério, com um lenço na mão.
Lá
dentro, todo mundo que frequentava o bar. Foi quando eu tive um acesso de
riso. Que o Paraná me perdoe. Mas eu estava ao lado do caixão, olhando
aquele meu amigão e coloquei um cigarro na boca. E não é que surge um braço
por trás de mim e o acende? Era o Joãozinho, o garçom. Desculpa, Paraná,
mas ri.
Mas
umas das histórias que mais me marcou no Jogral foi trági-cômico-política.
Meu
companheiro de Jogral - quase todas as noites - era o Zeluis Franchini
Ribeiro. Colega da faculdade. Trabalhava na Globo, que engatinhava. Vendia anúncio.
Hoje, mais amigo do que nunca, é o Diretor Geral Comercial de toda a rede.
Aconteceu
que o Zé foi um dia para o Rio de manhã para voltar de noite. Perdeu a
carteira de identidade lá e não podia embarcar de volta. Naquele tempo -
pouco depois do AI-5 -, na ponte aérea, além de mostrar os documentos,
revistavam a gente todinho e a bagagem e a mala de mão. Andavam acontecendo
sequestros de aviões. Lá no Rio encaminharam o Zéluis para a Aeronáutica.
Um tenente deu um documento para ele com papel timbrado das Forças Armadas e
ele embarcou.
Chegou
em São Paulo e foi direto para o Jogral. Naquele tempo, era comum batidas das Forças
Armadas em bares e restaurantes. E ai de quem não estivesse com todos os
documentos em dia. Era levado e nem sempre trazido de volta.
Pois,
naquela noite, chegam os milicos, acendem todas as luzes e começam a revista,
metralhadores em punhadas. Quando chegou no Zeluiz, que já suava frio tomando
Old Eight no balcão, ele ficou com medo. Além de não ter o RG ele só tinha
a carteirinha da USP, o que era pior ainda. Gelou. Chegou o sargento:
-
Documentos, ô bonitinho.
-
Seguinte, seu sargento, eu só tenho esse documento aqui e....
E
mostrou o papel timbrado das Forças Armadas Brasileiras. O sangento sorriu ao
ver o brasão militar e deu uma piscada e um tapinha na barriga dele. Logo sem
seguida vinha outro militar para fazer o pente fino no Zeluiz. Ao se
aproximar, foi barrado pelo milico anterior que disse:
-
Esse aí, não. Esse aí é dos nossos!