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O JOGRAL

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1998

 


São Paulo, 444 anos. Eu, 32 anos de São Paulo. O Zélio me pede uma crônica sobre São Paulo. Como?, pergunto eu, se São Paulo são tantas e são tantos os que moram aqui. Poderia escrever um livro inteiro contando tudo que vi e vivi e revirei nesta cidade que escolhi para viver. Amo São Paulo. E não me pergunte o por quê, que eu não sei.

Tanta coisa me marcou nesta cidade, que... Comecei a pensar nestes 32 anos aqui vividos. Pensar na noite de São Paulo. 32 anos de noite. Mas, três deles, especiais, vividos dentro do Jogral. O Jogral, da Avanhandava, durou três anos. Fechou quando o dono, meu querido compositor Luis Carlos Paraná, morreu, em 71.

Era um bar e pequeno. O que? Cem pessoas? Por aí. Não se fazem mais bares como antigamente. Também não se faz mais final de década como a dos anos 60. Minissaia, homem descendo na lua, festivais da Record, Jovem Guarda, Tropicalismo, Cinema Novo, Arena, Oficina, Chacrinha. Todo mundo era garoto. Todo mundo tinha entre vinte e vinte e cinco anos. O golpe militar tinha seis e era perigoso até mesmo dizer que estudava na USP. Tinha gente sumindo pelo buraco do ladrão.

O Jogral era a válvula de escape. O Old Eight deste que te escreve, na época estudante de economia na USP e mui digno funcionário do Banco do Brasil, no Brás.

Foi no Jogral que vi, pela única vez, a Leila Diniz. Com o braço engessado, um ou dois anos mais velha do que eu. Tinha o que? 24? Claro que fui autografar no gesso dela. No Banco, ninguém acreditou.

Foi no Jogral que, um dia, uma moça bonita sentou-me entre o meu banquinho e o do Edson Paes, bom jornalista. Acabou casando com ele e fazendo sucesso. Era a menina Irene Ravache que, naquele mesmo dia, me pediu para escrever uma peça para ela. Eu brinquei: eu nem sei se você é uma boa atriz... No que ela retrucou: eu também não sei se você é um bom autor... Até hoje a gente brinca com isso.

Foi no Jogral que, uma noite, sem mais nem menos, me entra o Oscar Peterson e, depois de tomar umas, foi ao piano e tocou até de madrugada, acompanhado no violão pelo grande Geraldo Cunha. O Paraná revistava as gavetas atrás de uma fita para gravar o momento histórico. Ficou doido, não tinha nenhuma fita na casa. O som só acabou com o sol. E desapareceu para sempre.

Foi no Jogral que eu ouvi pela primeira vez a expressão “deu cinco, sem tirar”. Era a Elza Soares comentando a perfórmance - fora do campo, ou dentro) do nosso mágico Garrincha.

O Jogral, do porteiro Carlinhos que conhecia os frequentadores todos. E se você chegava com uma mulher diferente ele dizia: “sumido, doutor!”, e o doutor era eu que estivera na véspera com outra.

O Jogral, do garçom Joãozinho. No palco, o piano afinadíssimo do Mario Edson, a voz macia da Ana Maria Brandão. E quando o Manezinho da flauta solava um Pixinguinha?

Na mesa ao lado você podia ver a Maysa vomitando aos pés do Trio Mocotó. E as canjas? Chico, Gil, Jorge Ben, Toquinho, Maranhão. Foi lá que ouvi, pela primeira vez,  Aquele Abraço, do Gil que partiria exilido na semana seguinte. Jorge Ben fazia suas músicas e ia testar lá. Tudo moleque.

A voz de veludo do Adauto Santos, parceiro do Paraná em tantos sambas. E tinha só uma garrafa de cachaça, que era do Paulo Vanzolini. É provável que até hoje o Vanzolini não saiba que o Paraná roubava a cachaça dele e dava pra gente, quando a dureza apertava. De noite eu rondo a cidade...

Na noite que o Paraná morreu, tinha uma placa na porta do Jogral: fechado por motivo de falecimento do Paraná. Velório no Oswaldo Cruz. Todo mundo que chegava - e já se sabia que o Paraná estava pra morrer - ia direto para o velório. Na porta do velório, o porteiro Carlinhos continuava porteiro, selecionando a clientela, sério, com um lenço na mão.

Lá dentro, todo mundo que frequentava o bar. Foi quando eu tive um acesso de riso. Que o Paraná me perdoe. Mas eu estava ao lado do caixão, olhando aquele meu amigão e coloquei um cigarro na boca. E não é que surge um braço por trás de mim e o acende? Era o Joãozinho, o garçom. Desculpa, Paraná, mas ri.

Mas umas das histórias que mais me marcou no Jogral foi trági-cômico-política.

Meu companheiro de Jogral - quase todas as noites - era o Zeluis Franchini Ribeiro. Colega da faculdade. Trabalhava na Globo, que engatinhava. Vendia anúncio. Hoje, mais amigo do que nunca, é o Diretor Geral Comercial de toda a rede.

Aconteceu que o Zé foi um dia para o Rio de manhã para voltar de noite. Perdeu a carteira de identidade lá e não podia embarcar de volta. Naquele tempo - pouco depois do AI-5 -, na ponte aérea, além de mostrar os documentos, revistavam a gente todinho e a bagagem e a mala de mão. Andavam acontecendo sequestros de aviões. Lá no Rio encaminharam o Zéluis para a Aeronáutica. Um tenente deu um documento para ele com papel timbrado das Forças Armadas e ele embarcou.

Chegou em São Paulo e foi direto para o Jogral. Naquele tempo, era comum batidas das Forças Armadas em bares e restaurantes. E ai de quem não estivesse com todos os documentos em dia. Era levado e nem sempre trazido de volta.

Pois, naquela noite, chegam os milicos, acendem todas as luzes e começam a revista, metralhadores em punhadas. Quando chegou no Zeluiz, que já suava frio tomando Old Eight no balcão, ele ficou com medo. Além de não ter o RG ele só tinha a carteirinha da USP, o que era pior ainda. Gelou. Chegou o sargento:

- Documentos, ô bonitinho.

- Seguinte, seu sargento, eu só tenho esse documento aqui e....

E mostrou o papel timbrado das Forças Armadas Brasileiras. O sangento sorriu ao ver o brasão militar e deu uma piscada e um tapinha na barriga dele. Logo sem seguida vinha outro militar para fazer o pente fino no Zeluiz. Ao se aproximar, foi barrado pelo milico anterior que disse:

- Esse aí, não. Esse aí é dos nossos!