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O HOMEM QUE NÃO SABIA AMAZONÊS

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Revista Amazônia 21

17/10/99

 


Senhores editores (e prezados leitores):

Fui deitar com aquilo na cabeça. Aquilo era um e-mail que eu tinha acabado de receber de Manaus que, não sei bem o porque sempre me lembra amanuense e, consequentemente Machado. E Machado lembra corte de árvore, e árvore lembra floresta. Floresta amazônica.

Mas não conseguia dormir, naquele quarto da 3, Rue du Boccador, em Paris, dias atrás. Pensava no e-mail que me pedia uma crônica aqui para esta última página.

Mas por que eu?, foi a primeira pergunta. Nunca fui à Amazônia nem legal, nem ilegalmente. Pelo que eu entendi, trata-se – isto aqui – de uma revista sobre a região.

E a região me lembrou daquele livro do Márcio de Souza, esse sim, fluente amazonense e amanuense. O Imperador do Acre.

Se não me falha a memória – estou com um fuso horário de 7 horas de Manaus – esse livro do Márcio fala do imperador do Acre que, caso você não se lembre, se chamava Hidelbrando, o Brando, se me desculpam pelo trocadilho.

Ficava martelando na minha cabeça: por que eu? Podia falar da transamazônica (aquela estrada, lembra?) e, para os mais novos, como é que a coisa foi feita, na época de sombrosos imperadores do Acre. Imperadores para quem a morte de alguém era o mesmo que uma árvore derrubada pelo machado. Ou pela serra elétrica.

Ou será que me chamaram para falar do Teatro, do auge da borracha ou da baixa do Solimões?

Volto ao meu computador e noto o erro. O erro foi do editor que – percebo agora – queria mandar o e-mail para o Márcio de Souza e mandou para mim. Linha cruzada, entende? Se telefone tem linha cruzada, deduzo, e-mail também tem.

Fui ao expediente da revista lá na página tal (achou?) e vi que tem aqui um tal de Fernando Brum que deve ser o mesmo que fez uma caricatura do genial Samuel Wainer pra mim. Será que o Wainer, jornalista viajado, tinha alguma coisa com a Amazônia pra lá da Bessarábia?

Ligo pra Manaus e os editores me pedem desculpas. O e-mail era mesmo para o talentoso e local Márcio de Sousa. Mas, se eu quiser, posso mandar um textinho que sai na secção de cartas do leitor.

Mas logo agora, senhor editor, que eu já fiz a pesquisa? Que usei esse mesmo computador para obter tantas informáticas sobre o assunto, descubro que o destino era o Márcio?

Logo agora, jovem Brum, que eu estou começando a querer aprender o amazonês pra tirar uns trocados de vocês? Pode ter certeza que eu já estou sabendo quantas pessoas foram ao Círio de Nazaré. Liguei para a USP para saber direitinho esse negócio dessa chuva que cai todo dia por aí. Liguei antes da chuva, é claro.

Mas logo agora que liguei lá para Uberaba para saber do meu tio – que é engenheiro agrícola dos bons - se estão mesmo acabando com a amazônia? Será que não seria melhor derrubar tudo e plantar grão? (desculpe, mas uma crônica tem sempre que ter um lado polêmico). Será que aquilo tudo é mesmo o pulmão da humanidade? E pode ficar tuberculosa e morrer? Morrer no palco do majestoso (coisa de imperador?) teatro, representando uma peça indígena do próprio Márcio?

Me interessei logo pelas amazonas, pelo mito. O mito das amazonas, raça composta unicamente por mulheres guerreiras e caçadoras, que encontrou sua formulação clássica na antiga Grécia, embora suas origens remontem às etapas primais do matriarcado, conforme me informa a Barsa.

Descendentes de Ares, deus da Guerra, e da ninfa Harmonia, as amazonas não compartilhavam sua vida com os homens, a não ser nos inevitáveis momentos da procriação. Os filhos que porventura tivessem eram sacrificados ou mutilados; as filhas, frutos desejados da união com os homens, eram treinadas para a guerra.

Estou começando a me interessar pela amazônia e pelas amazonas. E esse negócio de mutilar os homens por aí, parece que vem lá da Grécia, né? Mesmo porque as letras de Acre cabem muito bem dentro de Grécia.

Volto no próximo número?