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o estado de s. paulo

11/09/2002

 


Acredito que o jornal de hoje (aqui e no mundo) deve estar cheio das torres vivas e depois mortas. Mas ninguém vai falar do Marlon, meu adolescente vizinho, que também foi atacado fora do Brasil por um brutamontes da Nova Zelândia. Você não ficou sabendo do caso, mas o então ministro da Justiça, José Gregori, ficou. E tomou providências.

Foi assim: estava eu ainda a dormir quando esmurram a porta da minha casa aqui na Ilha. Era o Juan e a Rose, meus vizinhos. Estavam assustados, tensos. Não, não era por causa das gêmeas torres. E me explicaram: o filho deles, o já supracitado Marlon, 15 anos, estava sendo espancado pelo "pai" neozelândes, num intercâmbio para jovens desta idade. Lá na Nova Zelândia.

- Você não é amigo do ministro da Justiça? Pelo amor de Deus!

Ligo para Brasília, para a casa do ministro, pois não poderia imaginar que ele já estivesse no ministério. O telefone ocupadíssimo. A essa altura as duas torres já estavam no chão e eu não sabia de absolutamente nada. Ligo para a Ticha, filha deles, explico rapidamente o problema e peço o celular da mãe dela, a cândida Maria Helena. Ela dá e ameaça me contar alguma coisa muito séria e eu digo que estou com pressa.

Ligo para a Maria Helena. O ministro estava, mas falava com o presidente ao telefone. Sobre a segurança das embaixadas. Achei normal o ministro e o presidente estarem tratando da segurança dos nossos embaixadores em Brasília naquela hora da manhã. O capital funcionava!

- Mas não dá, Prata. Ele está com o Fernando!

- Mas é importante, Maria Helena, é grave!

- Mais grave que...

Nem deixei ela concluir:

- Então me diz se você pode me ajudar.

E contei a epopéia do surfista Marlon. Ela sentiu que o meu problema era realmente sério. Envolvia violência, intercâmbio cultural, relações diplomáticas. O Brasil poderia romper com a Nova Zelândia, cheguei a pensar.

Não se bate num brasileiro assim, impunemente.

Maria Helena foi rápida.

- Liga para a minha secretária agora. Vou avisar ela antes. Agora me dá licença que a Ruth está na outra linha.

Falei com a secretária dela. Eficiência maior, impossível. Em 15 minutos ela ativou o Itamaraty (que não devia estar tendo nenhum trabalho assim logo cedo), acionou o consulado na Nova Zelândia, falou com o embaixador e me deu retorno.

O Marlon já estava sendo recuperado para ficar sob proteção brasileira. Os pais ficaram aliviados. Beijinhos e tchau.

Foi aí que eu - já que tinha acordado mesmo - ligo a televisão. Estava passando um filme em inglês, em legenda. Uma nuvem de fumaça corria atrás da população nova-iorquina. Efeitos especiais inacreditáveis. Um avião entrava na torre. Vejam onde foi a imaginação dos roteiristas americanos. Filme de ficção dos bons, pensei. Ajeitei o café e resolvi seguir a história.

Foi quando me dei conta que não apenas na Nova Zelândia os ânimos estavam exaltados. O dia amanhecera nervoso naquele 11 de setembro. Um sujeito chamado Bin Laden estava dando murros no Bush. E o Bush já havia ido à lona duas vezes. Mas apontava o dedo para Bin Laden e dizia: eu vou te pegar, eu vou te pegar! Nem que tenha que ir até o fim do mundo, son of a bitch!

Aí, enquanto o Juan e a Rose relaxavam aqui do meu lado, o Georginho saiu correndo atrás dele, destruiu um país inteiro e não achou o cara, que deve ter escrito em alguma página da internet: hehehe.

Agora, o Georginho cismou de novo com o Iraque. Longe de mim o presidente americano me ouvir, mas eu queria lembrar umas coisas para ele. Desde a segunda guerra (salvo engano), os Estados Unidos perderam todas as suas tentativas de mostrarem que são os mocinhos, os poderosos de Hollywood.

Veja: não consideram pegar o Bin Laden; não conseguiram matar o Sadam(ico); levaram uma sova no Vietnã, não conseguiram invadir nem a ilha de Cuba. E a Coréia foi aquela coisa meio El Niño. O que eu acho que eles gostam mesmo é daqueles enterros dos jovens heróis mortos na brincadeira, ondem ficam uns cadetes dobrando a bandeira americana. Horas. Close no choro do rosto da mãe do herói americano morto defendendo, defendendo o que mesmo?

O que é? Gostam de apanhar, é? Meu vizinho, o Marlon, não!