O José Roberto Filippelli passou uns dias aqui em casa, na Ilha. Matamos
saudades dos 41 anos de amizade com vinhos, lembranças e discussões
acaloradas. Não sobre a nossa vida, que não há mais o que discutir. Mas
sobre futebol. Principalmente sobre futebol antigo, pois ele andou morando
mais de 20 anos entre Roma e Londres, trabalhando como vendedor de
enlatados e fantasias. Sim, foi ele quem vendeu toda a produção da Rede
Globo para a Europa e o mundo.
Pois estávamos a falar do Palmeiras de idos e vitoriosos tempos quando ele
me veio com um chute que bateu na minha trave. Disse que o apelido do
Oberdan Cattani, o maior goleiro que o Palmeiras já teve, era Fortaleza
Voadora. Em primeiro lugar devo dizer que sou muito mais jovem que o
Filippelli e nunca vi o Oberdan jogar. Mas os velhos palestrinos afirmam
que ele foi melhor que o Leão, hoje técnico do Santos.
Em segundo lugar, essas discussões sobre futebol sempre terminam sem que
ninguém prove o que disse. São coisas de mais de 50 anos. Mas eu comecei a
achar que o cara estava chutando e feio. Foi no sábado, eram umas 10 horas
da noite. Primeiro fiz uma pesquisa no Google sobre o goleiro. Descobri
muita coisa. Inclusive que fez 84 anos recentemente. Filippelli atrás de
mim, olhando para a tela do computador. Nada de Fortaleza Voadora na
pesquisa. Mas ele insistia, dizia que era um avião na época, o tal
Fortaleza.
- Quer saber de uma coisa?, disse eu. Vou ligar para o Oberdan Cattani.
Ele ficou surpreso e eu entrei na lista telefônica de São Paulo e estava
lá o nome do craque com todas as letras. Mora vizinho ao Parque Antártica
até hoje. E não é que eu tive a cara-de-pau de ligar? Demorou um pouco e
atendeu uma voz firme, bem posicionada dentro do gol. Me apresentei, ele
nunca havia ouvido falar em mim. Disse que havia escrito um livro sobre o
Palmeiras e ele pediu para mandar para ele (logo em seguida, pela mesma
internet, mandei). Mas antes que eu entrasse no assunto em pauta, notei a
alegria que o bom velhinho ficou, recebendo um telefonema inesperado. Sim,
ele não estava esquecido, ele estava vivo na memória dos brasileiros.
Contente com o papo àquela hora, desandou a falar.
Já íntimos, perguntei:
- Como era o seu apelido?
Ele não titubeou:
- Gato Selvagem!
Eu repeti alto: Gato Selvagem! Filippelli coçou a cabeça.
E o Gato Selvagem, animado como se tivesse defendido o pênalti mal chutado
pelo Filippelli, começou a dizer mais uns cinco apelidos que recebeu
durante sua longa carreira. Mas nada de Fortaleza Voadora. Nem quando ele
ia jogar no Ceará.
Fiquei uns bons 15 minutos com o Gato Selvagem ao telefone. Um amor de
criatura, este velho Gato.
E ainda ganhei uma caixa de vinho do Filippelli que eu aproveito a
oportunidade para cobrar e agradecer a visita. Ele nunca foi bom de chute,
sempre jogou melhor com a cabeça.
E agradeço ao Oberdan, de quem acho que fiquei amigo. E a quem prometo
umas garrafas de vinho na minha próxima ida a São Paulo.
P.S.: "Prezado Senhor Mário Prata.
Qual não foi a minha surpresa ao ler em sua crônica do dia 21 de junho um
comentário sobre a ocupação de uma casa em Betim (MG) por um policial
militar. Como percebi, a notícia lhe chamou bastante atenção.
Acontece que sou jornalista e trabalho como repórter no Hoje em Dia,
segundo jornal de Minas. Fui o responsável pela apuração e redigi a
matéria, por sinal exclusiva.
Na sua crônica, com o título Deu no Terra (e em Minas), pelo menos na
internet, você reproduziu, entre aspas, grande parte da reportagem, por
sua vez, reproduzida no Terra. No entanto, em nenhum momento faz qualquer
menção ao Hoje em Dia (cujo crédito está no Terra em boletim emitido dia
16/06/03 à 0h46.
Como jornalista, gostaria que reconhecesse o crédito da matéria para o
Hoje em Dia.
Atenciosamente, Carlos Calaes" Taí, Carlos. Recebi o texto pela internet
com o crédito apenas para o Terra, como citei na minha crônica. Fica aqui
o seu merecido direito registrado. E parabéns pela corajosa matéria.