Não costumo publicar carta de leitores. Mas esta, de uma pessoa que não
conheço, o Beto, me sensibilizou e muito. Antes que você pense que eu
estava era com preguiça de escrever a crônica de hoje, leia o texto
abaixo. E perceba que, assim como a vida, a morte numa cidade como São
Paulo pode - infelizmente - dar uma terrível (apesar de muito bem escrita)
crônica.
"Mario, Você perdeu um leitor único. Explico: meu irmão caçula (31 anos)
morreu em 1.º/8/2003, vítima de um assalto que sequer se consumou (os
bandidos, após balearem meu irmão, se evadiram a pé do local, deixando de
levar a moto que almejavam roubar, a qual, aliás, nem era do meu irmão,
mas isso é outra história). E por que meu irmão era um leitor único do
escritor Mario Prata?
Porque você é o único autor que ele mencionava com orgulho. Ao contrário
de mim, que sou um leitor razoavelmente voraz (se comparado à média
brasileira, naturalmente), podendo citar inúmeros autores, meu irmão só
tinha gosto em ler os livros do Mario Prata. De vez em quando, como quem
não quer nada, ele dizia: "Acabei de ler Diário de Um Magro. Você já leu?
É muito bom!", se vangloriando da façanha de ter lido um livro (que não
era, nem de longe, um hábito dele).
E ele se foi, deixando um oceano de tristeza para todos aqueles que
tiveram a felicidade de poder conviver com ele, já que seu alto-astral era
contagiante e seu espírito moleque irradiava alegria.
Dia 5/8/2003, triste e sorumbático, escrevi o texto abaixo e enderecei ao
e-mail dele, me despedindo, copiando para vários amigos. O Fabinho se foi,
deixando órfãos da sua alegria sua família, seus amigos, e seu autor
predileto.
Abraços, Beto Subject: Adeus a um irmão Saí para a rua e por alguns
momentos permaneci quieto, olhando para o céu azul, de um azul claro muito
brilhante naquela manhã de domingo, 3 de agosto de 2003. Nunca mais, na
duração da existência que me é reservada, vou esquecer daquele dia e
daquela manhã. O trânsito na Av. Dr. Arnaldo estava tranqüilo, como
convinha a uma manhã de domingo, e o ar estava especialmente seco, em
decorrência da prolongada estiagem em São Paulo. Lembro-me de escutar
alguns pássaros cantando e de observar um ipê-rosa florido, com seus
cachos de flores que poderiam, sem fazer feio, compor um belo buquê de
noiva.
Na calçada, em frente do Velório do Cemitério do Araçá, passei o braço
sobre o ombro da minha mãe, que ainda estava aturdida e desorientada pelos
últimos acontecimentos: a morte violenta, súbita e estúpida do seu filho
caçula na noite da sexta-feira, e o sepultamento na manhã do domingo.
Vítima de uma tentativa de assalto, Fabinho, como era conhecido por todos
nós, foi baleado por um sujeito que estava interessado em levar a moto de
um amigo que estava estacionada na porta da sua casa. Não sei se houve
reação, ou se foi por instinto assassino, ou seja lá o que for. Sei apenas
que esse bandido matou meu irmão, manchando indelevelmente a calçada e
provocando um ferimento na vida de todos aqueles que conviveram com ele.
Sei que nunca estarei curado deste ferimento porque ele não é físico, não
pode ser medido, apalpado ou diagnosticado. Não tem dimensão, espécie,
cor, profundidade. Está gravado a ferro e fogo no meu coração, como uma
marca que carregarei para sempre comigo, e com a qual me vejo na inadiável
obrigação de aprender a conviver.
Da minha parte só o que posso dizer é:
Vá em paz, meu irmão! Você cumpriu seu destino aqui na Terra, e todos nós
que o amamos, e que aqui permanecemos cumprindo também os nossos destinos,
desejamos que você esteja feliz, contagiando com seu eterno alto-astral
quem quer que esteja ao seu redor.
Em tempo: estou deixando crescer a barba novamente, só para provocar você,
que reclamava da sua pouca barba, compensada apenas pelo cavanhaque
espessamente negro, que às vezes enfeitava seu queixo proeminente,
deixando-o ainda mais bonito.
Beijos do seu irmão, Beto"
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