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O Fabinho, meu leitor

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o estado de S. Paulo

30/09/2003

 


Não costumo publicar carta de leitores. Mas esta, de uma pessoa que não conheço, o Beto, me sensibilizou e muito. Antes que você pense que eu estava era com preguiça de escrever a crônica de hoje, leia o texto abaixo. E perceba que, assim como a vida, a morte numa cidade como São Paulo pode - infelizmente - dar uma terrível (apesar de muito bem escrita) crônica.

"Mario, Você perdeu um leitor único. Explico: meu irmão caçula (31 anos) morreu em 1.º/8/2003, vítima de um assalto que sequer se consumou (os bandidos, após balearem meu irmão, se evadiram a pé do local, deixando de levar a moto que almejavam roubar, a qual, aliás, nem era do meu irmão, mas isso é outra história). E por que meu irmão era um leitor único do escritor Mario Prata?

Porque você é o único autor que ele mencionava com orgulho. Ao contrário de mim, que sou um leitor razoavelmente voraz (se comparado à média brasileira, naturalmente), podendo citar inúmeros autores, meu irmão só tinha gosto em ler os livros do Mario Prata. De vez em quando, como quem não quer nada, ele dizia: "Acabei de ler Diário de Um Magro. Você já leu? É muito bom!", se vangloriando da façanha de ter lido um livro (que não era, nem de longe, um hábito dele).

E ele se foi, deixando um oceano de tristeza para todos aqueles que tiveram a felicidade de poder conviver com ele, já que seu alto-astral era contagiante e seu espírito moleque irradiava alegria.

Dia 5/8/2003, triste e sorumbático, escrevi o texto abaixo e enderecei ao e-mail dele, me despedindo, copiando para vários amigos. O Fabinho se foi, deixando órfãos da sua alegria sua família, seus amigos, e seu autor predileto.

Abraços, Beto Subject: Adeus a um irmão Saí para a rua e por alguns momentos permaneci quieto, olhando para o céu azul, de um azul claro muito brilhante naquela manhã de domingo, 3 de agosto de 2003. Nunca mais, na duração da existência que me é reservada, vou esquecer daquele dia e daquela manhã. O trânsito na Av. Dr. Arnaldo estava tranqüilo, como convinha a uma manhã de domingo, e o ar estava especialmente seco, em decorrência da prolongada estiagem em São Paulo. Lembro-me de escutar alguns pássaros cantando e de observar um ipê-rosa florido, com seus cachos de flores que poderiam, sem fazer feio, compor um belo buquê de noiva.

Na calçada, em frente do Velório do Cemitério do Araçá, passei o braço sobre o ombro da minha mãe, que ainda estava aturdida e desorientada pelos últimos acontecimentos: a morte violenta, súbita e estúpida do seu filho caçula na noite da sexta-feira, e o sepultamento na manhã do domingo.

Vítima de uma tentativa de assalto, Fabinho, como era conhecido por todos nós, foi baleado por um sujeito que estava interessado em levar a moto de um amigo que estava estacionada na porta da sua casa. Não sei se houve reação, ou se foi por instinto assassino, ou seja lá o que for. Sei apenas que esse bandido matou meu irmão, manchando indelevelmente a calçada e provocando um ferimento na vida de todos aqueles que conviveram com ele.

Sei que nunca estarei curado deste ferimento porque ele não é físico, não pode ser medido, apalpado ou diagnosticado. Não tem dimensão, espécie, cor, profundidade. Está gravado a ferro e fogo no meu coração, como uma marca que carregarei para sempre comigo, e com a qual me vejo na inadiável obrigação de aprender a conviver.

Da minha parte só o que posso dizer é:

Vá em paz, meu irmão! Você cumpriu seu destino aqui na Terra, e todos nós que o amamos, e que aqui permanecemos cumprindo também os nossos destinos, desejamos que você esteja feliz, contagiando com seu eterno alto-astral quem quer que esteja ao seu redor.

Em tempo: estou deixando crescer a barba novamente, só para provocar você, que reclamava da sua pouca barba, compensada apenas pelo cavanhaque espessamente negro, que às vezes enfeitava seu queixo proeminente, deixando-o ainda mais bonito.

Beijos do seu irmão, Beto"