Quem é que não gosta de ser reconhecido na rua,
num restaurante ou mesmo dentro de um carro? Eu. E é difícil conviver com isso quando se
é uma pessoa pública (existe pessoa privada?). Principalmente quando se lança um livro
e se vai às televisões e a foto da gente fica saindo nos jornais.
- Te vi ontem no Jô.
É uma tortura. Mas a minha psicanalista tenta me
convencer a viver e conviver com o que chamamos de fã. Segundo o mestre Aurélio, fã é
um "admirador exaltado de certo artista de rádio, cinema, televisão, etc."
Como sempre, ele acertou na mosca. O fã é, antes de tudo, um exaltado.
Não sou nenhum Sinatra ou Chico Buarque, mas tenho
meus e minhas fãs. Exaltados sim, mas nem sempre iguais.
O fã de rua, por exemplo, é o mais doido. Ele te
pára e começa logo a contar uma história de uma tia que daria uma novela. Dá tapas no
seu ombro e ainda diz para você aparecer um dia na casa dele sei lá onde.
O fã de restaurante é aquele que te saca, cutuca a
mulher e, de repente, tá toda a mesa olhando você comer. Ele é mais tímido. Fica
olhando de trás. Quando se levanta e vem até a sua mesa, ele já chega dizendo o seu
nome alto, na maior intimidade. Todo mundo fica me olhando. Quem será? Os mais afoitos
sentam-se (sem ser convidado) e começam a comentar uma crônica minha que eu nem me
lembro mais. Depois ainda faz questão que a gente vá até a mesa dele conhecer a sogra
"que não perde nada que você escreve. Até recorta".
O mais engraçado é o semi-fã. Ele fica te
olhando, te olhando e pergunta: "eu não te conheço de algum lugar?" E eu fico
na minha. Tenho medo de falar que sou eu e ele não saber quem eu sou. "Mario
Prata?"
Tem a fã-mãe, mas que não é a mãe da gente.
Escreve belas cartas preocupadas com a minha saúde, com as minha cervejas. São
simpáticas, quase enfermeiras.
Fã chato é o fã-intelectual, que quer demosntrar
para a gente toda a cultura dele, geralmente muito maior que a nossa. Cita autores que eu
nunca ouvi falar. Costuma sentar na mesa também. Só que não vai embora. "Se
incomoda se eu tomar um uisquinho com você?" Toma três e fala cada vez mais.
Tem a fã-religiosa. Sempre que escrevo algum coisa
sobre o papa ou o catolicismo elas sempre aparecem através de edificantes cartas.
Geralmente são velhinhas de letrinha miúda e coração grande.
E o fã- político: "sua coluna é muito lida
lá no Congresso. Estou com um novo projeto e se você pudesse..." E por aí vai.
E o fã-que-manda-texto-dele? É melhor não fazer
nenhum comentário. Literalmente.
E a fã que chega para você e vai dizendo que é
minha "fã de carteirinha"? Juro que dá vontade de pedir para ela mostrar.
Chato mesmo e o fã-bêbado. Quase sempre eles erram
o alvo. Depois de minutos de elogios você percebe que ele acha que está conversando com
o Loyola Brandão, o meu querido Ignácio da Veia Bailarina.
Tem o fã agressivo e sugestivo. Ele sempre fica
reclamando que a gente não escreve sobre determinados assuntos. Que a gente tem um
espaço nas mãos e tem que usar em benefício da comunidade, da humanidade. Geralmente
são comunistas.
E aquela fã que foi num lançamento meu, tirou umas
cinquenta crônicas da bolsa e queria que eu autografasse todas? Pode, minha senhora?
Mas devo confessar, antes de terminar, como dizem os
artistas, que "amo todos vocês". Mesmo.
Mas a minha melhor história com fã aconteceu há
alguns anos. Eu tinha acabado de escrever Estúpido Cupido, na Globo, e fiquei realmente,
naqueles meses, muito famoso.
Um ano depois vou a uma farmácia em Lins com o meu
pai. A mocinha ficou me olhando, foi lá para o fundo, chamou outra, me apontou. Meu pai,
orgulhoso:
- Olha lá, te reconheceu.
A menina trouxe o remédio e me disse:
- Posso fazer uma pergunta para o senhor?
Eu:
- Pois não.
- O senhor não era o Mario Prata?