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O FÃ A FÃ E A VÃ FILOSOFIA

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o estado de s. paulo

18/06/99

 


Quem é que não gosta de ser reconhecido na rua, num restaurante ou mesmo dentro de um carro? Eu. E é difícil conviver com isso quando se é uma pessoa pública (existe pessoa privada?). Principalmente quando se lança um livro e se vai às televisões e a foto da gente fica saindo nos jornais.

- Te vi ontem no Jô.

É uma tortura. Mas a minha psicanalista tenta me convencer a viver e conviver com o que chamamos de fã. Segundo o mestre Aurélio, fã é um "admirador exaltado de certo artista de rádio, cinema, televisão, etc." Como sempre, ele acertou na mosca. O fã é, antes de tudo, um exaltado.

Não sou nenhum Sinatra ou Chico Buarque, mas tenho meus e minhas fãs. Exaltados sim, mas nem sempre iguais.

O fã de rua, por exemplo, é o mais doido. Ele te pára e começa logo a contar uma história de uma tia que daria uma novela. Dá tapas no seu ombro e ainda diz para você aparecer um dia na casa dele sei lá onde.

O fã de restaurante é aquele que te saca, cutuca a mulher e, de repente, tá toda a mesa olhando você comer. Ele é mais tímido. Fica olhando de trás. Quando se levanta e vem até a sua mesa, ele já chega dizendo o seu nome alto, na maior intimidade. Todo mundo fica me olhando. Quem será? Os mais afoitos sentam-se (sem ser convidado) e começam a comentar uma crônica minha que eu nem me lembro mais. Depois ainda faz questão que a gente vá até a mesa dele conhecer a sogra "que não perde nada que você escreve. Até recorta".

O mais engraçado é o semi-fã. Ele fica te olhando, te olhando e pergunta: "eu não te conheço de algum lugar?" E eu fico na minha. Tenho medo de falar que sou eu e ele não saber quem eu sou. "Mario Prata?"

Tem a fã-mãe, mas que não é a mãe da gente. Escreve belas cartas preocupadas com a minha saúde, com as minha cervejas. São simpáticas, quase enfermeiras.

Fã chato é o fã-intelectual, que quer demosntrar para a gente toda a cultura dele, geralmente muito maior que a nossa. Cita autores que eu nunca ouvi falar. Costuma sentar na mesa também. Só que não vai embora. "Se incomoda se eu tomar um uisquinho com você?" Toma três e fala cada vez mais.

Tem a fã-religiosa. Sempre que escrevo algum coisa sobre o papa ou o catolicismo elas sempre aparecem através de edificantes cartas. Geralmente são velhinhas de letrinha miúda e coração grande.

E o fã- político: "sua coluna é muito lida lá no Congresso. Estou com um novo projeto e se você pudesse..." E por aí vai.

E o fã-que-manda-texto-dele? É melhor não fazer nenhum comentário. Literalmente.

E a fã que chega para você e vai dizendo que é minha "fã de carteirinha"? Juro que dá vontade de pedir para ela mostrar.

Chato mesmo e o fã-bêbado. Quase sempre eles erram o alvo. Depois de minutos de elogios você percebe que ele acha que está conversando com o Loyola Brandão, o meu querido Ignácio da Veia Bailarina.

Tem o fã agressivo e sugestivo. Ele sempre fica reclamando que a gente não escreve sobre determinados assuntos. Que a gente tem um espaço nas mãos e tem que usar em benefício da comunidade, da humanidade. Geralmente são comunistas.

E aquela fã que foi num lançamento meu, tirou umas cinquenta crônicas da bolsa e queria que eu autografasse todas? Pode, minha senhora?

Mas devo confessar, antes de terminar, como dizem os artistas, que "amo todos vocês". Mesmo.

Mas a minha melhor história com fã aconteceu há alguns anos. Eu tinha acabado de escrever Estúpido Cupido, na Globo, e fiquei realmente, naqueles meses, muito famoso.

Um ano depois vou a uma farmácia em Lins com o meu pai. A mocinha ficou me olhando, foi lá para o fundo, chamou outra, me apontou. Meu pai, orgulhoso:

- Olha lá, te reconheceu.

A menina trouxe o remédio e me disse:

- Posso fazer uma pergunta para o senhor?

Eu:

- Pois não.

- O senhor não era o Mario Prata?