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O Ernesto era sexy?

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Revista SEXY

24/02/97

 


Devia ser.

Mesmo antes de 9 de outubro de 67 quando foi covardemente assassinado num mato boliviano por um bando de bolivianos e sumiram com o corpo dele, ele já era símbolo de muita coisa. Muita.

Médico argentino foi se aventurar nas colinas cubanas com seu amigo Castro, depois de tentar derrubar Perón no seu país. Derrubaram um presidente e acabaram com a mamata dos americanos na ilha. Ele tinha trinta aninhos. Um menino de classe média alta, metido contra os americanos e o mundo. Até hoje, em Havana tem uma Quinta Avenida. Pode? Podia.

Mas vamos voltar no tempo e vamos para o fantástico cruzamento da Maria Antonia com a doutor Vilanova, esquina fervilhante de esquerda e em frente ao bar do Zé. A morte de Chê nos pegou de calças curtas, literalmente.

Era o ínicio da minissaia, quase 68. Era o Tropicalismo, o Teatro de Arena e o Oficina. Os festivais. Militares no poder por toda a América. Chico e Marieta se conhecendo na peça Roda Vida. O mundo girava.

E o médico argentino, revolucionário de primeira e última hora virou poster nos apartamentos dos estudantes e nas camisetas de garotos e garotas.

Naquela época em todo apartamento de estudante que era estudantemente correto, tinham três posters nas paredes: Marilyn Monroe, James Dean e Ele. Incrível, aquele bonitão de barba e boné com aquela estrela, ali, ao lado dos símbolos do capitalismo americano e mais, da massificação do cinema de Los Angeles.

- Tem que endurecer sempre, mas sem perder jamais a ternura!

A frase guevariana (talvez a mais famosa e universal) que também logo iria para as camisetas, tinha duplos, triplos sentidos. A gente dizia isso nas assembléias estudantis e no barzinho da esquina cantando a garota da Filosofia. E não é que colava? Tinham acabado de inventar a pílula anticoncepcional, que então só era vendida com receita médica. Como falsificávamos receitas! Pílulas do laboratório Lilly. Afinal, como Ele, todos nós éramos revolucionários. Ele aprovaria.

Se nós, vinte e poucos anos, sonhávamos em ser um Guevara subdesenvolvido, subdesenvolvido, como a música do Carlinhos Lyra (alguns colegas tentaram e morreram), as menininhas, as Maçãs Douradas da vida, sonhavam com aquele aventureiro. Sonhos eróticos, me garantiram várias delas.

Mas um dia o sonho acabou, diriam os Beatles logo depois da morte Dele, sem talvez saber muito bem que sonho era esse. Foram vários sonhos que se foram em 67 e 68 (vide AI-5, de 68). Não creio que Ele fosse chegado num LSD (capitalismo selvagem!), mas deve ter dado suas cafungadinhas na Bolívia, porque, afinal, ninguém é de ferro. Nem mesmo Ele. Ir à Bolívia e não dar uma cheirada é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa (morrendo).

Nasceu em 28 e morreu em 67. Portanto, com 39 anos. Na época, para mim era um Senhor. Se vivo fosse teria 68 anos hoje.

E eu fico aqui imaginando o que ele estaria fazendo. Talvez desempregado, pois não existem mais regimes militares nem na América do Sul, nem na Central. Aliás, a única ditadura que temos hoje por aqui, foi a que ele ajudou a implantar. Será que ele estaria ainda ao lado do fiel amigo Fidel?

Ou estaria em São Paulo, lá na esquina da Maria Antonia com a doutor Vilanova, barba grisalha, cantando alguma aluna do Mackenzie com um portunhol horrível?

- Djou soy aquele. De la ternura, saca? Djou soy Ernesto.

Ninguém iria acreditar.

E iria para uma quitinete, deitar-se na cama e olhar na parede. Ele, Marilyn e James Dean.

Acenderia um bom havana e ficaria ali, tomando um Rum e esperando, eternamente, o telefonema do Lula, o que roubou a sua estrela e hoje não sabe mais o que fazer com ela. E pensando:

- Esse pessoal endureceu e perdeu a ternura. Deu no que deu!