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O Diário de Ana Claudia

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1975

 


Trecho  do diário de Ana Claudia, 14 anos:

Dia 18, terça-feira: Querido diário. O Derval veio falar comigo, finalmente. Foi assim. Assim que acabou a aula ele veio chegando perto, fingindo - eu percebi - que queria falar com a Martinha, mas no fim acabou me convidando para ir na sessão das 2 amanhã no cine São Sebastião aqui no bairro. Finalmente. Não sei nem como fazer. Estou totalmente sem sono e meu coraçãozinho está palpitando.

Dia 19, quarta-feira: Ah, Diário querido. Você nem pode imaginar o que aconteceu no cinema. Depois que apagou a luz eu fui sentar com o Derval. Estava toda perfumada e disse para a mamãe que ia estudar na casa de umas amigas. Que tinha um trabalho para fazer. Ah, o Derval é bárbaro, Diário. Sabe com quem ele parece? Com o Denis Carvalho, aquele do Ídolo de Pano. Quase no finzinho do filme, quando o lobo está para comer a vovó, ele pegou na minha mão. Não parei de suar nem um pouquinho. Amanhã vou ver ele outra vez. A tinta está acaban

Dia 21, sexta-feira: Amanhã vamos numa festa. Ontem o Derval quis me beijar mas eu não deixei. A Martinha que me falou que a gente tem que ser um pouco difícil no começo. Senão os meninos ficam pensando que a gente é fácil. Só deixei ele me beijar na face. Fiquei arrepiada e parecia que subia uma gasolina dentro de mim. Boa Noite.

Dia 23, domingo: Ah, querido Diário. Ontem não tive nem condições de conversar com você. Você não imagina o que aconteceu. Teve a tal festa, tá lembrado? Depois, bem no finzinho, a gente ficou conversando sozinho no fundo, numa espécie de varanda. Aí o Derval começou a me beijar na boca, de língua e tudo. Eu deixei. Eu tinha levado Halitol e tudo. No começo fiquei meio assim, assim, não sei explicar direito, mas depois me deixei cair nos braços fortes e juvenis do Derval. Do Derval, aquele assanhado. Sabe por que? Beijou, beijou e depois queria fazer outras intimidades comigo. Imagine que ele queria, a todo custo, passar a mão nos meus seios. Aí eu achei que era demais e fui conversar com a Martinha no banheiro. Ela achou que eu não devia deixar. Só depois de um mês ela me disse. Eu voltei para a varanda e agora a minha mãe está mandando eu apagar a luz e dormir e então eu continuo amanhã, querido Diário.

Dia 24, segunda-feira: Como eu ia dizendo ontem, eu voltei para a varanda e disse para ele que só depois de um mês. Aí ele me disse assim: todo mundo deixa, você é muito antiga. No que eu respondi na hora: eu sou uma moça de família. Mas ele nem ouviu, veio para cima de mim já com as mãos abertas, eu olhei para ver se não tinha ninguém olhando, tentei lutar contra isso, juro, querido Diário, mas o Derval é forte, barbudo, parece o Denis, foi mais forte e eu senti aquela mãozona. Aquela mãozona macia, aquele friozinho, foi ficando gostoso, pensei na mamãe, em Deus, em Nossa Senhora Auxiliadora, nos pastorinhos de Portugal, no presidente da Republica, fechei os olhos e quase desmaiei.

Dia 26, quarta-feira: O Derval me deu o fora e disse para os amigos dele - o Waltinho me contou - que foi porque sou uma menina fácil. Ah, querido Diário, ele me deixou manchada, pecaminosa. Não sei se me confesso com o padre André ou conto tudo para minha mãe. O que que você acha?