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O Diário de Ana Claudia(anos 50)

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1975

 


Trechos (mais trechos) do Diário de Ana Claudia, lá pelos anos 50:

6 de março: Meu querido Diário: Boa noite. Imagine você o que a Glorinha veio me dizer hoje de tarde quando a gente saia da piscina do clube. Não sei nem se tenho coragem de contar isso para você.

Acho que a Irmã Blanche deve achar isso o maior pecado do mundo. Só de falar.

Imagine fazer. Eu, da minha parte, acho que é invencionice da Glorinha. Imagine, Diário, que ela falou que quando a gente beija o namorado da gente, a gente bota a língua lá dentro. Amanhã vou me confessar com o Padre André e contar tudo. Fiquei tão assustada que perdi até o sono.

7 de março: É claro que eu não posso dizer aqui o que o Padre André me disse sobre o beijo de língua porque o que se diz no confessionário fica entre a gente, o padre e Deus. Se não, eu contava para você. Mas posso adiantar e deixar bem claro que foram palavras sábias e eu acho que vou me afastar da Glorinha, aquela pecaminosa.

8 de março: Meu Diário, minha vida: A Glorinha voltou a ter aquelas conversas comigo. E, imagine, ela me confessou bem no ouvido que já deu beijo de língua. Ah, que nojo! Ela me disse que arrepia, que sobe um negócio pela espinha, eu morri de medo. O pior de tudo é que ela veio com uma conversa para o meu lado dizendo - veja se isso é possível - que o meu pai beija a minha mãe assim. Acho que o que ela queria era puxar briga. E conseguiu. Eu agarrei no cabelo dela depois da aula e se a Irmã Blanche não separa, não sei o que seria. Agora, resultado, fomos suspensas das aulas de amanhã. A gente disse pra todo mundo que brigou por causa de um menino.

9 de março: Ah, Diário, você nem imagina o que aconteceu. Hoje cedo, como eu não pude ir na aula, a Glorinha veio aqui me visitar. De cara eu não queria receber, porque você sabe o motivo. Mas ela insistiu com a minha mãe, disse que queria fazer as pazes, aquela conversa toda. Aí ela entrou no meu quarto A gente ficou batendo papo assim como quem não quer nada, demos até uma estudadinha de latim que é a matéria que eu vou pior esse ano, conforme já Ihe contei outro dia: a freira rne persegue. Depois de uma hora mais ou menos ela começou com o mesmo assunto. Eu pedi que ela fosse embora, que o meu lar é um lar sagrado e abençoado por Deus. Aí, sabe o que aconteceu? Ela disse que eu tinha era inveja porque eu nunca tinha beijado daquele jeito. Você sabe, meu amigo Diário, que nem de outro jeito eu nunca beijei. Eu disse que em absoluto, o que é que ela estava pensando de mim? Ela começou outra vez com a conversa do arrepio, da espinha, aquelas coisas. Devo confessar que ela começou a me deixar curiosa sobre esse tipo de beijo. Foi quando eu disse que, na verdade, eu tinha era medo. Vergonha dos meninos. Vergonha de não saber como fazer direito. Foi quando ela sugeriu que eu treinasse com ela. Ora, é claro que no começo eu fiquei fula de raiva, imagine. Mas ela dizia que não tinha nada de mais, que essas coisas a gente tem que treinar bem, porque os meninos gostam muito. Somente com esse argumento é que eu deixei.

10 de março: Depois da aula a Glorinha veio me visitar.

11 de março: A Glorinha veio me visitar, depois da aula.

12 de março: A Glorinha foi passar o fim de semana em Santos. Estou morrendo de saudades.

13 de rnarço: Vi papai beijando a rnamãe do jeito que ela fala. A Glorinha é tão inteligente. Ela sabe de tudo.

14 de março: A Glorinha voltou de Santos e me trouxe um sapato de presente.