Trechos (mais trechos) do Diário de Ana
Claudia, lá pelos anos 50:
6 de março: Meu querido Diário: Boa noite. Imagine você o que a Glorinha veio me
dizer hoje de tarde quando a gente saia da piscina do clube. Não sei nem se tenho coragem
de contar isso para você.
Acho que a Irmã Blanche deve achar isso o maior pecado do mundo. Só de falar.
Imagine fazer. Eu, da minha parte, acho que é invencionice da Glorinha. Imagine,
Diário, que ela falou que quando a gente beija o namorado da gente, a gente bota a
língua lá dentro. Amanhã vou me confessar com o Padre André e contar tudo. Fiquei tão
assustada que perdi até o sono.
7 de março: É claro que eu não posso dizer aqui o que o Padre André me disse sobre
o beijo de língua porque o que se diz no confessionário fica entre a gente, o padre e
Deus. Se não, eu contava para você. Mas posso adiantar e deixar bem claro que foram
palavras sábias e eu acho que vou me afastar da Glorinha, aquela pecaminosa.
8 de março: Meu Diário, minha vida: A Glorinha voltou a ter aquelas conversas comigo.
E, imagine, ela me confessou bem no ouvido que já deu beijo de língua. Ah, que nojo! Ela
me disse que arrepia, que sobe um negócio pela espinha, eu morri de medo. O pior de tudo
é que ela veio com uma conversa para o meu lado dizendo - veja se isso é possível - que
o meu pai beija a minha mãe assim. Acho que o que ela queria era puxar briga. E
conseguiu. Eu agarrei no cabelo dela depois da aula e se a Irmã Blanche não separa, não
sei o que seria. Agora, resultado, fomos suspensas das aulas de amanhã. A gente disse pra
todo mundo que brigou por causa de um menino.
9 de março: Ah, Diário, você nem imagina o que aconteceu. Hoje cedo, como eu não
pude ir na aula, a Glorinha veio aqui me visitar. De cara eu não queria receber, porque
você sabe o motivo. Mas ela insistiu com a minha mãe, disse que queria fazer as pazes,
aquela conversa toda. Aí ela entrou no meu quarto A gente ficou batendo papo assim como
quem não quer nada, demos até uma estudadinha de latim que é a matéria que eu vou pior
esse ano, conforme já Ihe contei outro dia: a freira rne persegue. Depois de uma hora
mais ou menos ela começou com o mesmo assunto. Eu pedi que ela fosse embora, que o meu
lar é um lar sagrado e abençoado por Deus. Aí, sabe o que aconteceu? Ela disse que eu
tinha era inveja porque eu nunca tinha beijado daquele jeito. Você sabe, meu amigo
Diário, que nem de outro jeito eu nunca beijei. Eu disse que em absoluto, o que é que
ela estava pensando de mim? Ela começou outra vez com a conversa do arrepio, da espinha,
aquelas coisas. Devo confessar que ela começou a me deixar curiosa sobre esse tipo de
beijo. Foi quando eu disse que, na verdade, eu tinha era medo. Vergonha dos meninos.
Vergonha de não saber como fazer direito. Foi quando ela sugeriu que eu treinasse com
ela. Ora, é claro que no começo eu fiquei fula de raiva, imagine. Mas ela dizia que não
tinha nada de mais, que essas coisas a gente tem que treinar bem, porque os meninos gostam
muito. Somente com esse argumento é que eu deixei.
10 de março: Depois da aula a Glorinha veio me visitar.
11 de março: A Glorinha veio me visitar, depois da aula.
12 de março: A Glorinha foi passar o fim de semana em Santos. Estou morrendo de
saudades.
13 de rnarço: Vi papai beijando a rnamãe do jeito que ela fala. A Glorinha é tão
inteligente. Ela sabe de tudo.
14 de março: A Glorinha voltou de Santos e me trouxe um sapato de presente.