Entre os meus 14 e 18 anos eu era o que se dizia na
época um "metido a besta". Pra começar me achava a cara do Alain Delon,
imagine a pretensão. E era no carnaval que eu colocava minhas manguinhas de fora.
Naqueles quatro dias tudo era permitido, até mesmo para um garoto da minha idade.
Imaginem que o meu pai dava uma lança-perfume para cada um dos filhos, a cada noite.
No meu primeiro carnaval, "à noite", fiz
o possível e o impossível para ser o Folião do Clube Linense. Mas fiquei tão bêbado e
cheirado (de lança) que a diretoria achou por bem que eu não tinha condições. Deram o
prêmio para o meu querido Luiz Padeiro.
Mas o que eles não sabem é que eu pulei o muro da
diretoria e contei os votos. Eu tinha ganho. Durante muitos anos guardei esses votos. No
ano seguinte, pintei e bordei. Ganhei o troféu que se perdeu com o tempo, assim como a
minha vontade de ser folião de carnaval.
O tempo foi passando e eu fui trocando os salões e
o corso (como era maravilhoso o corso no interior!) pelas praias e casas de montanhas,
sítios de amigos. Também, foram acabar com a lança e o carnaval (pelo menos para mim)
foi minguando.
Eis que no ano passado uma escola de samba de Lins
me convidou para ser destaque na avenida. Não podia negar o pedido, feito pelo prefeito,
pelo vice, pelo presidente da Câmara, pelo presidente do Grêmio Recreativo e Escola de
Samba Unidos da Vila Ribeiro. São quatro as escolas de Lins e me disseram que a gente
tinha chance.
Mas eu tremina nas bases quando começou a chegar a
hora de entrar no sambódromo (sim, LIns tem um excelente sambódromo, quando não
inunda).
Mas a noite estava linda. Me levaram para ver o
carro alegórico que eu ia desfilar. Ia ficar lá em cima, segurando naqueles dois
caninhos. E já tinha tomado umas. Meu primeiro medo foi sambar lá em cima e cair, bem no
meio do desfile, prejudicando a escola e meus joelhos.
Já estávamos na concentração quando veio o aviso
de trinta minutos. Uma escada e eu subi lá para cima. E os integrantes da escola a jogar
latas de cerveja pra mim. Tenho incotinência urinária, devo confessar. Comecei a pensar
no pior. Quando tenho vontade de fazer, xixi faço onde estiver. Na rua, inclusive. Quase
matava de medo meu companheiro Mateus Shirts nas ruas de San Francisco.
Pedi para descer. Impossível. O portão estava se
abrindo. E eu apertado. Imaginei eu mijando em plena avenida, todo a cidade me vendo (logo
eu, o destaque) e o xixi escorrendo na cabeças das cinco maravilhosas mulatas que me
ornamentavam. Explico a situação para um negão. Ele logo achou a solução. Me jogou
dez sacos de água mineral e disse com a voz grossa:
- Se mijar na calça, ô meu, vai estourando os
sacos e jogando a água no corpo.
A idéia não poderia ser melhor.
O portão se abriu e a minha escola entrou na
avenida (na verdade, é uma rua). A emoção é indescritível. Na mesma hora me lembrei
dos ídolos brasileiros desfilando na Sapucai: Tom Jobim, Dercy Gonçalvez, Garrincha.
Naquele momento eu me sentia um deles. Já não era tão folião, mas em vez de verter
água por baixo, o fiz por cima. Duas fileiras paralelas de lágrimas escorriam pela minha
cara.
Esqueci o xixi. Bebia a cerveja e a água e tentava
cantar o samba enredo que me chamava de poeta. É um delírio, pessoal, ser destaque,
ficar lá em cima. A agonia e felicidade durou uns quarenta minutos. Depois de chegar ao
outro lado da rua, ainda ouvindo o povo gritar Pratinha, Pratinha, sou abandonado lá em
cima. Esqueceram de mim, parte zero. As mulatas sumiram, os garotões que empurravam o
carro também.
Sentei, esperando que alguém fosse me buscar, me
tirar lá de cima. Inutilmente: já ouvia a batucada da outra escola. Sentei no pequeno
altar e fui estourando os sacos de água, um a um, que iam caindo e escorrendo pela
avenida, misturadas com as minhas lágrimas. Por todos os cantos do corpo saiam líquidos.
Em tempo: a minha escola ganhou!