Pelo título, você já deve ter percebido que o Bongô é um cachorro.
Grande, forte, negro azulado, elegante. Alegre e estabanado.
Tudo ia bem na mansa vida do Bongô até que ele começou a lamber uma
das patas. Lambia, lambia e apareceu uma feridinha. Veterinário, depois de muito
examinar:
- Aconteceu alguma coisa recentemente que tenha mudado o ritmo, o modo
de vida dele?
Zé Eduardo, meu cunhado e paixão do Bongô:
- Bem, nasceu a minha primeira neta. Está sempre lá em casa.
- Então esta ferida é um fator emocional. Ele está com ciúmes da
cadelinha, perdão, da netinha do senhor.
- Será?
- O senhor não fica muito com a netinha?
- Sim, o senhor há de compreender. É a primeira neta, da primeira
filha, linda, tenho até umas fotos aqui, se o senhor me permite. O nome dela é Teresa.
Realmente uma...
- Sim, uma gracinha. O Bongô está a morrer de ciúmes. É isso. A
ferida é emocional. Cada vez que o senhor coloca a Teresa no colo, é uma rejeição ao
cão. Leve a um psicólogo de cachorro.
- O senhor está falando sério? Tem psicólogo de cachorro?
- Terapeuta. Conheço uma ótima. Um mês de terapia - três vezes por
semana - e ele fica bom.
Deu o endereço.
Eu não fui junto, mas posso muito bem - e você também - imaginar a
cena.
Sala de espera. Todos os cachorros e cadelas com seus respectivos donos
ou donas, coleirinhas no pescoço. Tem uma toda quebrada. Apanhou do marido ou tentou o
suicídio? E aquele no canto, grunhindo, melancólico, coitado? Aquela cadelinha
irritadiça se esfregando nas pernas de donas alheias. O que dormia num canto. Drogado? E
o outro, tão jovem? Rejeitado o leite materno? Ou excesso de irmãos?
A moça não deixa o proprietário entrar. Lá vai o Bangô para a
salinha, rabo entre as pernas, morrendo de vergonha. Ainda dá um olharzinho para trás,
como a pedir socorro ao Zé.
- Não posso entrar com ele?
- Não permitimos. Ele pode ficar encabulado, não se abrir.
Sumiram. Fico cá a imaginar o que aconteceu lá dentro.
Bongô deitado no divã, com as pernas para cima e o olho nas pernas da
mocinha.
- Você amamentou quanto tempo na cadela sua mãe?
- Poucos dias. Logo fui vendido.
- Interessante... Eram muitos irmãos?
- Uma ninhada de oito.
- Muito interessante. Enquanto você mamava na cadela sua mãe, algum
irmão o empurrada para fora?
- Sim, ela preferia os mais branquinhos.
- Sei... Quando nasceu a Teresa...
- Queria morrer. Meu dono nunca mais foi o mesmo. Ficava com ela em
cima da barriga dele, na rede, falando umas bobogens com voz de criança. Ridículo,
doutora. Eu chegava perto, ele ainda tinha a cara de pau de dizer: "olha, Bongô,
como a Teresa é linda". Aquilo doía.
- Quais são seus sentimentos em relação à Teresa?
- Se pudesse, eu matava.
- Calma. Você alguma vez já havia pensado em morder, matar alguém?
- Sim, um cunhado dele que sempre me chama de Cachorrão. Odeio aquele
cara (eu!).
- Quantas vezes você tem relações sexuais por semana?
- Por semana? Quem me dera! Tive uma vez só na vida. E nunca mais vi a
cachorrinha. Linda. Tá certo que era um pouco mais baixa do que eu. Emprenhei a moça no
primeiro dia. E sabe que nunca mais me levaram para visitar a cadela? Soube que tive seis
filhos. Nunca vi nenhum deles. Não sei por onde andam, o que fazem... Pode ser que
estejam aí pela rua virando-lata. Imagine, doutora, um filho ou filha minha, que moro no
Alto de Pinheiros!, na rua! Casa com piscina, churrasqueira, sauna...
- O doutor José Eduardo me disse que o senhor só come pão com
manteiga. Com margarina você nem cheira, é verdade isso?
- Olha, dona, se for para entrar em intimidades eu vou falar as coisas
que eu sei do pessoal daquela casa. Eles acham que eu não percebo nada. Por exemplo,
quando eles viajam, o Roni leva namorada lá. E eu, que não sou bobo nem nada, fico na
porta escutando, lembrando da minha cadelinha Dadá... Ainda mais com esse nome...
- Você está ótimo. Pode sair e manda entrar o seu dono.
- Fala pra ele da Dadá, fala...