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O DIA EM QUE O BONGÔ FOI AO ANALISTA

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o estado de s. paulo

07/11/97

 


Pelo título, você já deve ter percebido que o Bongô é um cachorro. Grande, forte, negro azulado, elegante. Alegre e estabanado.

Tudo ia bem na mansa vida do Bongô até que ele começou a lamber uma das patas. Lambia, lambia e apareceu uma feridinha. Veterinário, depois de muito examinar:

- Aconteceu alguma coisa recentemente que tenha mudado o ritmo, o modo de vida dele?

Zé Eduardo, meu cunhado e paixão do Bongô:

- Bem, nasceu a minha primeira neta. Está sempre lá em casa.

- Então esta ferida é um fator emocional. Ele está com ciúmes da cadelinha, perdão, da netinha do senhor.

- Será?

- O senhor não fica muito com a netinha?

- Sim, o senhor há de compreender. É a primeira neta, da primeira filha, linda, tenho até umas fotos aqui, se o senhor me permite. O nome dela é Teresa. Realmente uma...

- Sim, uma gracinha. O Bongô está a morrer de ciúmes. É isso. A ferida é emocional. Cada vez que o senhor coloca a Teresa no colo, é uma rejeição ao cão. Leve a um psicólogo de cachorro.

- O senhor está falando sério? Tem psicólogo de cachorro?

- Terapeuta. Conheço uma ótima. Um mês de terapia - três vezes por semana - e ele fica bom.

Deu o endereço.

Eu não fui junto, mas posso muito bem - e você também - imaginar a cena.

Sala de espera. Todos os cachorros e cadelas com seus respectivos donos ou donas, coleirinhas no pescoço. Tem uma toda quebrada. Apanhou do marido ou tentou o suicídio? E aquele no canto, grunhindo, melancólico, coitado? Aquela cadelinha irritadiça se esfregando nas pernas de donas alheias. O que dormia num canto. Drogado? E o outro, tão jovem? Rejeitado o leite materno? Ou excesso de irmãos?

A moça não deixa o proprietário entrar. Lá vai o Bangô para a salinha, rabo entre as pernas, morrendo de vergonha. Ainda dá um olharzinho para trás, como a pedir socorro ao Zé.

- Não posso entrar com ele?

- Não permitimos. Ele pode ficar encabulado, não se abrir.

Sumiram. Fico cá a imaginar o que aconteceu lá dentro.

Bongô deitado no divã, com as pernas para cima e o olho nas pernas da mocinha.

- Você amamentou quanto tempo na cadela sua mãe?

- Poucos dias. Logo fui vendido.

- Interessante... Eram muitos irmãos?

- Uma ninhada de oito.

- Muito interessante. Enquanto você mamava na cadela sua mãe, algum irmão o empurrada para fora?

- Sim, ela preferia os mais branquinhos.

- Sei... Quando nasceu a Teresa...

- Queria morrer. Meu dono nunca mais foi o mesmo. Ficava com ela em cima da barriga dele, na rede, falando umas bobogens com voz de criança. Ridículo, doutora. Eu chegava perto, ele ainda tinha a cara de pau de dizer: "olha, Bongô, como a Teresa é linda". Aquilo doía.

- Quais são seus sentimentos em relação à Teresa?

- Se pudesse, eu matava.

- Calma. Você alguma vez já havia pensado em morder, matar alguém?

- Sim, um cunhado dele que sempre me chama de Cachorrão. Odeio aquele cara (eu!).

- Quantas vezes você tem relações sexuais por semana?

- Por semana? Quem me dera! Tive uma vez só na vida. E nunca mais vi a cachorrinha. Linda. Tá certo que era um pouco mais baixa do que eu. Emprenhei a moça no primeiro dia. E sabe que nunca mais me levaram para visitar a cadela? Soube que tive seis filhos. Nunca vi nenhum deles. Não sei por onde andam, o que fazem... Pode ser que estejam aí pela rua virando-lata. Imagine, doutora, um filho ou filha minha, que moro no Alto de Pinheiros!, na rua! Casa com piscina, churrasqueira, sauna...

- O doutor José Eduardo me disse que o senhor só come pão com manteiga. Com margarina você nem cheira, é verdade isso?

- Olha, dona, se for para entrar em intimidades eu vou falar as coisas que eu sei do pessoal daquela casa. Eles acham que eu não percebo nada. Por exemplo, quando eles viajam, o Roni leva namorada lá. E eu, que não sou bobo nem nada, fico na porta escutando, lembrando da minha cadelinha Dadá... Ainda mais com esse nome...

- Você está ótimo. Pode sair e manda entrar o seu dono.

- Fala pra ele da Dadá, fala...