O poeta Sergio Antunes costuma dizer que "sou
do tempo em que todas as cuecas eram brancas, assim como os colarinhos e as
geladeiras". Pois é. Eu também, porque somos do mesmo tempo, da mesma cidade, do
mesmo mundo. Só que, cada vez mais, esse mundo está deixando claro que não é mais o
nosso.
Nem vou falar de um mundo em que a capital do Brasil
era Rio de Janeiro. Afinal, lá fora, todo mundo pensava que era Buenos Ayres. Agora,
finalmente, já sabem que é o Rio de Janeiro.
Nem vou falar, também, do mundo em que o Brasil
jogava de uniforme branco com o escudo da CBD no peito, Confederação Brasileira de
Desportos. Agora joga de amarelo com o distintivo da Coca-Cola. Mas isso todo mundo viu na
televisão.
Eu falo de um mundo que, de repente, virou uma
imensa rua contra-mão. Sabe, quando a gente entra numa rua que até outro dia dava mão e
lá na frente percebe que todo mundo está errado, vindo contra você, uns até tirando a
cabeça pra fora e te chamando de barbeiro? Então, tá assim o mundo.
"Eu sou do tempo em que todos os criados eram
negros, assim como os telefones e as gravatas borboletas", insistiria o poeta. E eu
sou do mundo onde havia um país longínquo chamado União Soviética, onde se comiam
criancinhas. Agora, estão lá um tal de Quirguistão, uma Estônia, o Azerbaijão e até
a Rússia que virou anticomunista. O mapa mundi que eu guardei com tanto carinho, desde as
aulas do seu Altamiro, exibe o inútil Congo Belga, todo amarelo, a ultrapassada
Tchecoslováquia, toda azul e a insuspeitíssima Iugoslávia, completamente alaranjada. O
mundo agora é das Repúblicas Tchecas, das Sérvias, e das Bósnia-Herzogóvina, que acho
que estão brigando por causa do acento. É no "go", dizem uns. Outros que no
"vi". E o pau comendo.
Mas não é só a geografia do novo mundo que me tem
deixado desconfortável. Até meus ídolos da adolescência mudaram de nome ou atitude.
Jorge Ben que "chovia chuva", virou Jorbe Benjor.
Em que mundo nós vivemos, diria o velho comercial
da Chevrolet. Porque trocaram o nome do Crush por Fanta? Por que matador no cinema virou
serial killer e filme se suspense virou thriller? Porque querem acabar com o circunflexo?
Porque beque virou ala e meio-campo volante? E artilheiro, matador? E futebol de salão
que agora é futsal?
Não é ficar contra o progresso e a evolução
técnica. É claro que tínhamos que ter consciência de que as coisas iam se
aperfeiçoar. O telefone, por exemplo, na minha infância era quase que um adorno, não
falava nem com o vizinho da esquina. Agora já tem celular. Falar não fala, mas é muito
mais bonitinho.
Caduquice virou mal de Alzaihmer, e aquele medão
que eu tinha de escuro, todo mundo pensando que era frescura, virou síndrome de pânico.
Descobriram que não tinha mais limbo, inventaram café descafeinado e maconha sem
tetrahidrocanabinol. Que barato! E por falar em verde, o Palmeiras mudou o uniforme.
Padre-Nosso virou Pai-nosso. E tirarm o latim da missa. Missa em português não está com
nada.
Agora o que me deixou fulo da vida, tiririca mesmo,
como se dizia antigamente, é que mudaram o nome do cúbito. É. Do cúbito. O osso do
braço. Rádio e cúbito, ensinava o livro de ciências. Assim como os da perna era tíbia
e perônio. Belos nomes. Pois é. Mudaram o nome do cúbito.
O pior é que o cúbito não fez revolução, como
na Iugoslávia, não derrubou nenhum muro. Não inventou nem descobriu nada. Mas mudaram o
nome. Sem consultar ninguém, sem medida provisõria, sem porra nenhuma.
O novo nome do cúbito? Não. Aí também já é
demais. Eu vivo sem o Congo Belga e sem a Guiana Inglesa, vivo até com Tocantins, mas o
nome do cúbito eu me nego a aprender. O cúbito, para mim, vai continuar a ser cúbito.
Para sempre. Assim como Xitãozinho e Xororó ou Cascatinha e Inhana. Rádio e Cúbito.
Para sempre.
PS - Se você está morrendo de curiosidade, fique
sabendo que estão chamando o cúbito por aí, de, pasmem, ULNA.