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O CORNO E O COMBORÇO

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o estado de s. paulo

10.11.93

 


A PIADA que corre na semana, evidentemente, é sobre os nossos nobres deputados baixinhos, suas secretárias, seus motoristas e suas esposas (principalmente suas ex-esposas). O que se comenta é que, agora, todo deputado baixinho e precavido vai ter, para sua própria segurança, secretária (eletrônica), carro com piloto (automático) e mulher (inflável).

A verdade é que este país está mudando. Hoje as ex-esposas estão indo à televisão e mandando bala, literalmente. Parece-me que este Brasil vai mesmo ser passado a limpo. Teremos um futuro a limpo?

A palavra amante invadiu nossos vídeos ao vivo. lsto me fez lembrar quando eu escrevi a novela Estúpido cupido, na Globo, em 76, e certas palavras eram proibidas de ir ao ar às sete da noite. Juro por Deus: penico, ceroulas, entre outras. Amante, nem se cogitava. Mas havia um casal de amantes na história. Leonardo Villar e Maria Della Costa não podiam ser amantes, segundo Brasília. Esta palavra não podia nem sequer ser pronunciada.

Foi então que recorri ao velho e bom Aurélio para um sinônimo e encontrei a palavra comborço. Usei a simpática comborço umas vinte vezes, até que os inteligentes censores descobriram e a proibiram também. Aí, a solução foi casar os dois. Um era viúvo e a outra desquitada, coitados.

Mas, com esta CPI toda, a palavra comborço voltou à minha cabeça. Comborço significa o amante (ou o atual marido) da ex-mulher da gente. É o grau de parentesco entre o corno e o outro. Ou seja, a todo corno corresponde um comborço. E a todo comborço corresponde um corno. Portanto, se a sua ex-mulher ou ex-namorada tiver um outro marido ou namorado, ele é o seu comborço. E você, me desculpe, é o corno dele.

Os cornos não devem se preocupar. Porque o corno de hoje pode ser o comborço de amanhã. Portanto, não se irrite com o seu comborço, porque, mais dia, menos dia, ele será também um corno e terá, conseqüentemente, o seu comborço correspondente. Faça as suas contas e você verá que já foi mais comborço do que corno.

Tem corno que odeia o seu comborço. E vice-versa. É um erro terceiromundista. A moderna Psicologia nos ensina a respeitar o nosso comborço. Deve-se tratar bem o comborço, principalmente se você tiver filhos com a sua ex-mulher. Afinal, quem está cuidando dos seus filhos é o comborço.

E tem comborço que odeia o seu corno. Não se deve odiar o nosso corno. É muito comum o comborço ter mais ciúme do corno que o corno do comborço. O comborço tem medo que a qualquer momento o corno passe a ser o comborço dele mesmo. Ou seja, os dois seriam, aí, parentescamente falando, co-comborços.

Dizem que, em Minas, além de uma associação de machões, já tem também uma de cornos. Sugiro uma de comborços. Depois se poderia fazer uma espécie de CUT entre as três entidades e até lançar candidatos a deputados federais. A CUT significaria Comborços Unidos Tranqüilamente. Ou Cornos Unicórnios Trapalhões. E assim por diante.

Claro que tudo que foi dito para os homens serve também para as mulheres. Sim, comborço tem o seu feminino comborça, com bolsa ou sem bolsa. Já aqui a relação entre a comborça e a corna é mais violenta. Temos vários casos de crimes envolvendo as duas entidades. Mas também conheço casos de comborça e corna convivendo dentro da maior civilidade. Até sob o mesmo teto.

Mas, voltando aos deputados envolvidos no escândalo do orçamento, fico ouvindo os depoimentos deles e tentando descobrir quem é corno e quem é comborço. Entre os sete anões, por exemplo, detectei quatro cornos e três coborços. E uma vingativa Branca de Neve mais para corna que para comborça.