Você que nasceu de 80 pra cá, não sabe de nada.
Estou me referindo ao controle remoto da televisão.
Entre 1950 (isso eu também não lembro) e 1970
(mais ou menos), se você quisesse assistir televisão, tinha que se levantar toda vez que
quisesse ligar e desligar e mudar de canal. Ou mesmo aumentar ou diminuir o som. Era chato
mas, em compensação a oferta de canais era bem pequena: 2 (Cultura), 4 (Tupi), 5
(Globo), 7 (Record), 9 (Excelsior), 13 (Bandeirantes). E mais não tinha.
Foi quando um gênio inventou o controle remoto.
Que não era tão remoto assim. Tinha um fio que saia lá detrás da televisão e vinha
até uma caixinha de lata que ficava na sua mão. Nessa caixinha tinha uma espécie de
alavanquinha. Você ligava e desligava o aparelho. Não fazia mais nada.
Como esse fio ficava esticado pela sala, era muito
comum as pessoas tropeçarem nele. Poderia ser comido pelo cachorro também. Os gatos
achavam que era novelo de lã. Aquele fio, às vezes, dividia as família em dois grupos.
Para ir ralhar com o filho tinha que se pular o fio.
Aí, um gênio maior ainda (já devia ser gênio
japonês), conseguiu a proeza de fazer a caixinha sem o fio. Onde é que vamos parar?,
sussurrávamos. Sim, porque este sem fio, além de ligar e desligar o aparelho, tinha uma
outra alavanquinha: diminuia e aumentava o som! O mundo estava mesmo de ponta-cabeça.
Você pode até não acreditar, mas um dia os
japoneses vieram com a novidade do século. Você, sentadinho na poltrona podia - agora -
ligar e desligar, aumentar e diminuir o som e - pasmem! - mudar de canal! O mundo nunca
mais será o mesmo. Mais do que isso era impossível se imaginar.
Mas como a finalidade do homem é criar uma
máquina que o substitua, foram surgindo mais teclinhas. E mais, e mais.
Resumindo. Tenho aqui na minha frente, quatro
controles remotos de ultíssima geração. Um da operadora de cabo, com 28 teclas. Algumas
delas jamais ousei tocar, como a Buy e a Credit. Esta última, imagino, debita alguma
coisa na sua conta. Ao lado do do cabo, temos o da televisão propriamente dita. Todo
metido a besta, se apresenta com 38 teclas. E ainda dá uma esnobada dividindo as
teclinhas em três cores diferentes. Cinzas, vermelhas e roxas. E com nomes incríveis:
Skip, VCR-2, Sat-Cable, Clear. Tudo muito simples e fácil e em língua conhecida.
O terceiro controle, o do vídeo-cassete,
aparentemente é inofensivo. Tem apenas 13 teclas. Ledo engano, minha amiga. Ele tem uma
portinha. Você abre a portinha e estão todos eles lá dentro, como quem não quer nada.
Atrás daquela inofensiva portinha, 25 novos botões te contemplam. Sim, porque eu não os
contemplo. Aquilo é grego: Tracking/V-Lock. Faço o possível para não relar o dedo
nele. E o VEQ1861? O que você me diria dele?
Vamos ao quarto controle. O mais recente, mais
moderno, mais digital, mais laser. O do DVD, que eu já não sei o que significa. O
controle do DVD é muito colorido, muito distante daquela lata com fio pela sala. Temos,
só nele, 40 teclas.
Se você fez a conta, tenho aqui diante de mim 144
opções para o dedo indicador. 144!
Considerando que a minha televisão tem 66 canais
e se eu quiser testar as 144 teclas em cada um deles, teremos 9.504 opções de laser,
digo, lazer. 9.504! Tudo isso sem fio, a metros dos aparelhos todos. Isso se chama
primeiro mundo. Isso se chama civilização, progresso, futuro.
Eu estou pensando nisso tudo porque eu li ontem no
jornal, no caderno de carros, que tem um aí que o rádio (do carro!) tem controle remoto.
E não é aquilo na direção, não. Caixinha mesmo. Sem fio, é claro. Acidentes a vista
e em 3 vezes sem entrada.
Vai chegar o dia - e não duvide - que vamos ter
controles remotos pra tudo. Desligar sogra, abaixar o som da esposa, levantar o moral do
marido (digamos assim), mudar a cor das pessoas, dar um beijo em Slow e até mesmo dar uma
Pause na vida.
Cada um vai fazer seu próprio Menu e mudar a sua
vida como se muda de Channel.
Eu não disse nada. Apenas teclei o
Mute.