Lutero dos Santos, o operador, suicidou-se de roupa branca, branca
como quase tudo que ele usava. Até os móveis em sua casa. Talvez por serem operadores,
gostem de ser confundidos com os médicos-operadores. Talvez tenha sido o branco a causa
da morte de Lutero. O branco dos loucos, o branco dos hospícios, o branco da mente, o
branco de não se lembrar de mais nada.
Lutero, o operador da Bolsa de Valores, sentindo-se - talvez - sem nenhum valor,
suicidou-se em pleno pregão na última quinta-feira, pouquinho antes do encerramento, às
treze e vinte e cinco, pendurado no teto, com o fio do telefone-sem-fio enrolado no seu
pescoço, a língua de fora, apontada para os seus antigos companheiros que, alheios,
esbravejavam lá embaixo. Naquele dia o pregão foi encerrado cinco minutos antes:
- Atenção senhores, são treze horas e vinte e cinco minutos. Está encerrado o pregão
da Bolsa de Valores.
A língua de fora.
Lutero prestou concurso para o Banco do Brasil em l966 e passou em segundo lugar. Auxiliar
de Escrita Referência 050. Cem de português, cem de matemática e noventa e oito de
datilografia. Errou um circunflexo. Trabalhou na Lapa e na Penha. De sessenta e seis a
começo dos setenta ele ficou lá. Seu chefe, Macário, do Cadastro, quis indicar Lutero
para Auxiliar de Serviço numa cidadezinha do interior de Goiás. Seria o começo de uma
brilhante e gigantesca carreira dentro dos quadros do Banco. Mas Lutero não aceitou.
Lutero decidira, então, largar o emprego-fixo, o futuro garantido e partir para a
novidade da época. Trabalhar de operador na Bolsa de Valores. Era o milagre que estava
começando e Lutero largou tudo e foi. Dizia para a sua mãe que havia uma força maior
que o chamava, que o puxava, que dizia vem. Um milagre.
De cara, antes mesmo de começar a operar para valer, com o 77 no crachá verde, já tinha
lido e relido "O Fascinante Mundo dos Investimentos". Sabia de cór e salteado
todas as 60 perguntas e respostas. No seu primeiro ano de operador, já havia lido
"As Sociedades de Capital Aberto", "Clube de Investimento", "Como
utilizar Investimentos Para Deduzir Imposto de Renda". Assinava o "Boletim
Informativo", a "Revista da Bolsa" e os "Cadernos Técnicos".
Quase chegou a dar aulas no Centro de Instrução Técnica Abelardo Vergueiro Cesar, o
popular CITEC. Foi convidado, mas declinou.
- Doutor, o que eu estou querendo dizer para o senhor é que o meu filho, o meu Lutero,
não se suicidou.
- Minha senhora..
- Ele foi assassinado, doutor!
- Como, minha senhora?
- Assassinado, doutor! E sabe quem matou ele? Sabe quem matou ele?
- Minha senhora, todo mundo viu ele pendurado lá em cima. Como é que alguém ia amarrar
o seu filho lá em cima, em pleno movimento do pregão? Daquele jeito? Com a língua de
fora, minha senhora? E a senhora mesmo, no depoimento de ontem, disse que ele não andava
bem da cabeça.
- Exatamente. Ele tinha sistema nervoso. Exatamente. E a culpa de quem foi? De quem? Do
milagre...
- Que milagre, minha senhora?
- Tem gente que acha que eu também sou louca, imagina. Mas diz, doutor, diz pra mim, eu
tenho cara de louca? Tenho? Pode falar. Fala na lata, doutor. Tenho cara de louca? Foi o
milagre!
- Minha senhora, o caso do seu filho já está encerrado, ele já foi enterrado e ponto
final! A senhora disse que ele vinha tendo problemas emocionais graves, que estava tendo
uma ajuda psicanalítica... Portanto...
- Era um santo, o meu Lutero. Vou provar para o senhor que ele foi assassinado. Vamos,
fala para o rapazinho datilografar, vamos. Pode datilografar, moço!
Antes de começar a operar na Bolsa, no começo dos anos setenta, Lutero passou boa parte
do seu tempo lá em cima, nas galerias, observando o movimento. Primeiro, de olho nos
auxiliares, aqueles que ficam de paletó amarelo, correndo mais que os operadores. Ele
iria pular este estágio. O seu bom desempenho no Banco do Brasil o habilitava para isso.
Nessa época, não podemos ainda notar nada de diferente, nada de extraordinário no
comportamento do falecido. A não ser que gostava muito de passear pela avenida Paulista
com seu fusca 68, ouvindo a todo vapor a música Yellow Submarine. A relação entre o
amarelo dos auxiliares e o yellow dos Beatles viria à tona, anos mais tardes nas sessões
de terapia.
- Acordava de repente, doutor, e era aquela gritaria toda noite, aquele tal de ielo pra
cá, ielo pra lá, só vendo mesmo. Mas nesse tempo a gente não podia imaginar que ia
chegar onde chegou... Coitadinho do meu Lutero!
Depois foi o primeiro tique. Ele esticava o braço direito para cima, como se quisesse que
todos olhassem para ele, como se estivessse tentando alcançar o teto do pregão, lá
mesmo onde iria morrer anos depois. Ficava com aquele braço esticado, teso, com a
pontinha dos dedos gesticulando.
- Ele dizia que aquilo era porque ele ficava o dia inteiro com o braço daquele jeito para
que todo mundo visse ele, para que todo mundo ouvisse ele. Mas que era esquisito era,
doutor. A gente tava jantando, por exemplo, e de repente, lá vinha o meu Lutero,
esticando o braço daquele jeito esquisito. Só o direito.O esquerdo eu não me lembro
dele esticar, não senhor. Quanto mais falavam no tal do milagre, mais ele esticava o
braço. Só vendo, doutor delegado...
O segundo ato no seu comportamento e que foi praticamente o derradeiro, porque os seus
colegas o aconselharam a procurar uma ajuda médica, foi o problemna dos telefones.
- Não sei se o senhor sabe, doutor, mas os operadores de lá, trabalham com o telefone
enfiado na orelha o tempo todo. Tudo telefone sem fio, uma beleza mesmo. Eles andam com
uma bateria presa aqui na barriga, bem aqui, ó, e eles ficam falando com as... com as
corretoras. Isso, com as corretoras. Ficam andando de uma lado para o outro com aquela
aparelhagem todo pendurada no corpo.Muito bonito mesmo, doutor. Só vendo mesmo.
O problema do telefone é que, quando terminava o expediente, ele saia para o almoço com
a mão em concha, dizendo cifras imaginárias, citando ações e esticando o braço. Foi a
primeira vez que a mãe do Lutero foi chamada na Bolsa. Sim, a mãe, porque a esposa há
muito já tinha abandonado o ex-funcionário exemplar do Banco do Brasil.
- Tirou uma licença de uns três meses, doutor. Tava acabado, exausto, começando a beber
depois do expediente. Era um problema nos bares, porque sempre que ele estava para levar o
copo na boca, esticava de repente o braço daquele jeito que eu expliquei para o senhor e
jogava cerveja em todo mundo. Brigava muito no bar por causa disso, doutor, devo de lhe
dizer isso também.
Depois desse descanso, poderíamos até dizer que Lutero estava novo para enfrentar outra
vez a gritaria e a correria do pregão. Mas tanto ele como o seu chefe, acharam que Lutero
merecia um local mais calmo para trabalhar. Todos sabiam que ele era um bom funcionário.
Ele estava era estafado. O milagre cansara o nosso herói. Foi assim, portanto, que ele
foi removido para dentro do cofre da Bolsa.
- Isso mesmo que o senhor ouviu, doutor Delegado. Ele foi trabalhar dentro do cofre.
Dentro do cofre do cofre!
- Como assim, minha senhora? Dentro de um cofre?
- Isso mesmo que o senhor ouviu. Ele foi trabalhar dentro do cofre do cofre! Quando ele me
contou isso pela primeira vez, eu achei que eu também não tinha entendido errado. Mas
era isso mesmo. No cofre do cofre!
- Minha senhora, a senhora viu a fila de gente que está aí fora para conversar comigo?
Não é só a senhora que tem problemas, não.
- Já tou terminando, doutor delegado. Primeiro deixa eu contar para o senhor esse
negócio do cofre. Tem um cofrão com aquela portona enorme que tem os segredos e depois
tem que girar uma duas manivelas iguais aquelas de barco, sabe como é que é, não sabe?
Então aí a porta abre e tem um corredor. Mas não é aí que o meu Lutero foi trabalhar,
não. Esse corredor leva num outro cofre, que tem a mesma porta, igualzinha aquela que eu
disse antes com os negócios de navio. Depois dessa porta, tem uma mesinha com duas
cadeiras. Meu Lutero ficava lá dentro. Ele e o Juca, o companheiro dele. Tomando conta
duns papeis. Passava o dia inteiro lá. Não pensa o senhor que era abafado, não. Tinha
ar condicionado e o cafezinho chegava lá. A Bolsa sempre cuidou muito bem da saúde dos
seus funcionários. Mas o problema era na cabeça, né? O milagre...
Apesar do espaço não ser tão pequeno assim, novos sintomas começaram a aparecer para o
nosso herói Lutero. Ele começou a ficar com mania de pequeno, ou melhor, de ficar em
lugares pequenos. A primeira bandeira deste tipo foi que, a partir de uma determinada
época, ele passou a dormir debaixo da cama, todo encolhido.
Gostava de ficar debaixo das mesas. Mesmo em restaurantes públicos. Taxi, só pegava
fusquinha. Futebol, ia na geral, no lugar mais apertado possível. Usava roupa apertada,
dois números abaixo do seu. Sapatos apertados. Seus joanetes estouravam, implodiam-se.
Era o anti-claustrofóbico.
Odiava lugares grandes, espaçosos. Se alguém quisesse deixar ele irritado era
convidá-lo para um passeio no Ibirapuera, por exemplo. Chegou a ler "Entre Quatro
Paredes", do Sartre, mas parece que não entendeu muito bem, não.
- Foi quando - já tou terminando, doutor - foi quando ele teve que ir no médico de
cabeça outra vez porque ninguém mais tava aguentando ele, nem no bairro. O senhor
imagina ele no bar, debaixo da mesa, esticando o braço daquele jeito e molhando todo
mundo. O médico aconselhou mais três meses de licença e a gente levou ele para a praia,
mas foi um erro porque era tudo muito espaçoso e ele ficava o dia inteiro dentro do
elevador do prédio, indo pra cima e pra baixo e foi justamente quando ele teve a idéia
de voltar para a Bolsa e trabalhar como ascensorista. Inclusive, ele me disse, na época,
"quando eu esticar o braço pra cima, eu disfarço e aperto o botão." - Minha
senhora, por favor, olha a fila.
Isso foi há exatos três meses antes do suicídio. Ou do assassinato, como afirma sua
mãe. Talvez tivesse sido bem melhor que ele ficasse de operador ou cuidando de papéis
dentro do cofre do cofre. Lutero jamais poderia imaginar como é a vida de um
ascensorista. Está certo que ele podia esticar o braço à vontade e estava dentro de um
belo de um seis metros cúbicos.
- Mas aí é que estava o problema maior, doutor delegado. O senhor sabe lá o que é
passar oito horas por dia, subindo e descendo e só ouvindo uma parte das conversas?
- Como, minha senhora?
- É isso aí. Ele nunca ouviu o começo, ou o meio ou o fim das histórias dentro do
elevador. As pessoas sempre entravam lá dentro já no meio da conversa. Ou então ele
pegava só o começo e elas saiam. Ou então ele pegava só o final. Já pensou, ouvir só
a última frase da piada, os dois ficarem rindo e ele lá, feito bobo? Foi isso que foi
endoidando ele mais e mais. Chegava todo dia em casa e me contava o começo, o meio ou o
fim das conversas, das histórias. Nunca uma história inteira...
- aí eu cheguei pra gata que já estava ali mesmo no ponto, passei a mão no cabelo dela
e. doze, descendo.
- aí então o urubu disse: também de saia, né?, não tem a menor graça. cinco,
subindo.
- setecentos e cinquenta ações eu acho que é demais, porque hoje, as que vão subir
vão ser as. nove, subindo.
- ele veio correndo pela esquerda, o centro-avante se antecipou aí o João Paulo entrou
de carrinho e na hora que. térreo.
- você conhece aquela do Alain Delon que morreu e foi para o inferno? chegou lá e Deus
disse: sete, descendo.
- tudo bem, lutero?
- tudo bem, lutero?
- tudo bem, lutero?
- tudo bem, lutero?
- tudo bem, lutero?
f i m