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O churrasco

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o estado de s. paulo

18/07/2001

 


Cada vez chego mais à conclusão que não existe nada mais melindroso do que um churrasco caseiro. E, ao mesmo tempo, relaxante.

Sim, porque no Brasil todo mundo entende de duas coisas: ou é metido a ser técnico de futebol ou a fazer churrasco. Tem os que sabem. E tem os outros. E é muito difícil você ver alguém fazendo um churrasco e não dar pelo menos um palpite. E o churrasqueiro de plantão sabe que, se sucumbir ao primeiro investimento alheio, terá de aturar o chato até o fim da tarde.

Os palpites já começam na hora de acender o fogo.

- Você não tem aquele negocinho para colocar embaixo, que fica pegando fogo?

- Com jornal! Pega os classificados!

- O Caderno2, não!!!

- Se não abanar, não vai pegar. Vai por mim.

- Colocou muito carvão. Vai sufocar o fogo. Não disse?

- Tá muito alto. Joga água!

- Não falei para não jogar água? Olha aí, apagou.

- Você é que não abanou. Dá licença?

Fogo pronto, todo mundo já na segunda caipirinha, as esposas lá do outro lado. Se tem uma coisa que mulher não entende é de churrasco. Participam, no máximo, com a salada e os gritos de: amor, traz mais um pano de prato?

Aí começam os palpites pra valer:

- Se eu fosse você, colocava a lingüiça na parte de baixo.

- O quê??? Vai fatiar a picanha? Peloamordedeus!, isso é uma infâmia!

- Olha, sem querer ser chato, mas eu acho melhor colocar a gordura para o lado de baixo. Depois virar. E não virar mais.

- O problema do lombo é que demora mais. Precisa ficar embaixo. Muita gordura, meu.

- Tá vendo?, pinga a gordura e o fogo sobe. Assim não vai dar. Joga a água.

- Limão? Na picanha?

- Aquela lingüiça ali já não está boa? Cadê o pão?

- Mas não fui eu quem ficou de comprar o pão. Clotilde! Não tem pão!!!

- Me dá licença? Posso virar a costela? O que é isso que você colocou aqui? Orégano??? Tá doido, cara?

- De peixe eu entendo. Só sal e limão. Não, cara, sal grosso, não. Sal fino. Põe por dentro. Assim, ó. Tem papel laminado, não?

Já está todo mundo ali a ponto de enfiar o espeto no colega de repartição quando começam a chegar as crianças.

- Já tem lingüiça, paiê?

- Já disse que eu chamo. É surdo?

É quando chega o colega retardatário e, antes de cumprimentar?

- Esse fogo tá muito alto. Com licença. Se tem uma coisa que eu entendo é de churrasco, Edgar. Deixa comigo. Quem é que está fazendo a caipirinha? Muito açúcar. Tá um melado isso aqui.

- Põe mais carvão, Souzinha.

- Queimei o dedo!

- Sei não, eu, por mim, virava essa picanha. Vai torrar, cara.

- Você precisa comprar uma faca melhor. Olha aí. Isso aqui está estragando a carne.

- Joaninha, cadê a faca boa? Aquela que o seu pai me deu?

- Cuidado que tá quente, filho. Não disse? Não me ouve...

- Mas não tem nem uma manteiguinha para passar na batata, Nestor?

- Clotilde!!! Eu já não disse que margarina não serve? Olhaí, derrete muito rápido, esfria a batata. Ah, meu Deus do céu!

E por aí vai, até escurecer e o fogo apagar de vez.

Existe uma teoria psicanalítica de que quem faz churrasco não precisa fazer terapia. Que os grandes e amadores churrasqueiros são todos pessoas muito bem resolvidas.

Deve ser verdade, pois colocam avental com uma feminilidade cativante. Ficam - dois ou três homenzarrões abraçados - olhando por horas e horas para o fogo ardente, brigando e discutindo como se fossem marido e mulher. Já notou? Já notou quando um queima o dedo, com que carinho é tratado pelos outros? Já vi barbudo chupar o dedo do outro ali, ao lado das brasas da amizade.

Se não houvesse o churrasco caseiro, os homens seriam muito mais tristes, muito mais violentos.

Fazer um churrasco num sábado, resolve todos os problemas da firma, do casamento e dos filhos. O homem vira um herói de si mesmo.