Pra começar o nome é bom, forte. E simpático. Principalmente se a gente
considerar que o Chicão tem apenas 8 anos e, ao que me parece, começa a
ser símbolo de um Brasil que muda.
E muda onde ninguém poderia imaginar que fosse possível.
Sim, parece que pelas extremidades e pelas minorias, estamos chegando
lá.
Estou falando desse garoto bonito, filho da Cássia Eller e
(se me permitem) da Eugênia. Nunca fui nem fã da cantora, muito menos
comprei um CD dela, nem sei nem como é a cara da Eugênia.
Mas o fato se deu. Diante da tragédia (e aqui não me
importa o causa da morte) da bela Cássia, o Brasil, sem combinar, sem
ter reunião de condomínio, sem plebiscitos nem nada, deu a maior força
para o Chicão ficar com a segunda mãe (digamos assim) Eugênia. Revistas
fizeram pesquisas. Goleada a favor da moça Eugênia.
Dizem - os jornais - que era ela quem levava o garoto para
a escola, para o médico. Era a Eugênia quem ia à reunião de pais e
mestres, que é a função mais desagradável que um pai pode desempenhar.
Mas lá estava ela, de pai e de mãe. Enquanto Cássia trabalhava pelos
palcos do Brasil. E trabalhava bem e muito.
Contra essa adoção normal, natural e racional, quem
levanta a voz? Um ex-militar. Tenho amigos militares e - no momento... -
não tenho nada contra eles. Mas esse major (ou sargento?) Eller está me
fazendo lembrar - juro que não sei por que - de outros militares de uns
20 anos atrás que viam no homossexualismo uma subversão dos valores e um
perigo para a derrubada da ditadura. Da minha parte, o que eu acho mesmo
é que ele jamais vai admitir que um neto seu vá ser criado por uma, por
uma... como será que ele se refere às lésbicas? Doentes? Subversivas?
Subversiva foi a filha dele. Não sexualmente. Mas
musicalmente. E como pessoa. Dizia o que lhe vinha à cabeça, assumia
publicamente e - isso é importante: tinha uma relação matrimonial
estável de 14 anos. Quais são os homens e mulheres de hoje em dia que
passam dos sete anos de casamento? General, deixa o Chicão em paz e
volte para a reserva. Ele está em boas mãos.
Agora estão alegando que acharam ervas na casa da Cássia.
Bem, na casa do general deve ter armas. É só mandar vasculhar, como
fizeram na casa da roqueira. O que é mais perigoso para um Chicão de
apenas 8 anos? Ervas ou armas? Nunca tive armas na minha casa e meus
filhos todos deram muito certo, sim senhor.
É nesses momentos que o Brasil dá certo. Quando age com a
emoção e o coração. Quando não entra corrupção, mentiras e Brasílias
(apesar de o Chicão morar lá). Um Brasil que pensa com a alma e no bem
de um garoto até então desconhecido. Um Chicão que não conheceu o pai e
tinha duas mães. Freud deliraria com o garoto. Escreveria livros a
respeito. O Caso Chicão. Principalmente se um militar tirar a mãe que
lhe restou, como faziam durante a ditadura, tirando pais, primos,
colegas da vida. Não apenas aqui no Brasil. A epidemia atingia toda a
América Latina.
Espero, sinceramente, que o avô esqueça o autoritarismo da
antiga caserna e seja apenas avô. Aja com o coração de avô. Com o Chicão
ficando com a Eugênia ele não vai perder o neto. Mas se o menino ficar
com ele - pense nisso, meu querido coronel -, ele vai perder a própria
realidade. Vai ficar, definitivamente, sem pai e mãe.
Encare a Eugênia até como seu genro, se quiser, mas deixe
que ela continue indo à reunião de pais e mestres. Mesmo porque - que eu
saiba - ainda não inventaram reunião de avôs e mestres.
Vou mais longe, capitão: pergunte ao Chicão. Pergunte com
quem ele quer ficar e pare de procurar ervas para se coçar. Abaixe as
armas, soldado!