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O Chicão

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o estado de s. paulo

23/01/2002

 


Pra começar o nome é bom, forte. E simpático. Principalmente se a gente considerar que o Chicão tem apenas 8 anos e, ao que me parece, começa a ser símbolo de um Brasil que muda.

E muda onde ninguém poderia imaginar que fosse possível. Sim, parece que pelas extremidades e pelas minorias, estamos chegando lá.

Estou falando desse garoto bonito, filho da Cássia Eller e (se me permitem) da Eugênia. Nunca fui nem fã da cantora, muito menos comprei um CD dela, nem sei nem como é a cara da Eugênia.

Mas o fato se deu. Diante da tragédia (e aqui não me importa o causa da morte) da bela Cássia, o Brasil, sem combinar, sem ter reunião de condomínio, sem plebiscitos nem nada, deu a maior força para o Chicão ficar com a segunda mãe (digamos assim) Eugênia. Revistas fizeram pesquisas. Goleada a favor da moça Eugênia.

Dizem - os jornais - que era ela quem levava o garoto para a escola, para o médico. Era a Eugênia quem ia à reunião de pais e mestres, que é a função mais desagradável que um pai pode desempenhar. Mas lá estava ela, de pai e de mãe. Enquanto Cássia trabalhava pelos palcos do Brasil. E trabalhava bem e muito.

Contra essa adoção normal, natural e racional, quem levanta a voz? Um ex-militar. Tenho amigos militares e - no momento... - não tenho nada contra eles. Mas esse major (ou sargento?) Eller está me fazendo lembrar - juro que não sei por que - de outros militares de uns 20 anos atrás que viam no homossexualismo uma subversão dos valores e um perigo para a derrubada da ditadura. Da minha parte, o que eu acho mesmo é que ele jamais vai admitir que um neto seu vá ser criado por uma, por uma... como será que ele se refere às lésbicas? Doentes? Subversivas?

Subversiva foi a filha dele. Não sexualmente. Mas musicalmente. E como pessoa. Dizia o que lhe vinha à cabeça, assumia publicamente e - isso é importante: tinha uma relação matrimonial estável de 14 anos. Quais são os homens e mulheres de hoje em dia que passam dos sete anos de casamento? General, deixa o Chicão em paz e volte para a reserva. Ele está em boas mãos.

Agora estão alegando que acharam ervas na casa da Cássia. Bem, na casa do general deve ter armas. É só mandar vasculhar, como fizeram na casa da roqueira. O que é mais perigoso para um Chicão de apenas 8 anos? Ervas ou armas? Nunca tive armas na minha casa e meus filhos todos deram muito certo, sim senhor.

É nesses momentos que o Brasil dá certo. Quando age com a emoção e o coração. Quando não entra corrupção, mentiras e Brasílias (apesar de o Chicão morar lá). Um Brasil que pensa com a alma e no bem de um garoto até então desconhecido. Um Chicão que não conheceu o pai e tinha duas mães. Freud deliraria com o garoto. Escreveria livros a respeito. O Caso Chicão. Principalmente se um militar tirar a mãe que lhe restou, como faziam durante a ditadura, tirando pais, primos, colegas da vida. Não apenas aqui no Brasil. A epidemia atingia toda a América Latina.

Espero, sinceramente, que o avô esqueça o autoritarismo da antiga caserna e seja apenas avô. Aja com o coração de avô. Com o Chicão ficando com a Eugênia ele não vai perder o neto. Mas se o menino ficar com ele - pense nisso, meu querido coronel -, ele vai perder a própria realidade. Vai ficar, definitivamente, sem pai e mãe.

Encare a Eugênia até como seu genro, se quiser, mas deixe que ela continue indo à reunião de pais e mestres. Mesmo porque - que eu saiba - ainda não inventaram reunião de avôs e mestres.

Vou mais longe, capitão: pergunte ao Chicão. Pergunte com quem ele quer ficar e pare de procurar ervas para se coçar. Abaixe as armas, soldado!