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O chato

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o estado de s. paulo

17/04/2002

 


O chato é nato. Já nasce chato e é irreversível. Ontem, por exemplo, num restaurante, tinha um garotinho - desses de cadeira-para-criança - chatinho. Ficava batendo aquela madeira com o número da mesa na mesa, com toda a força que tinha. Depois de vários olhares, tiraram o futuro chato-grande da cadeira e ele começou a arrastar a mesma. Era um chato em formação.

O grande dramaturgo brasileiro Guilherme de Almeida (execrado pela esquerda por ser irmão do ditador João Baptista igualmente Figueiredo, e nosso escritor mais montado fora do País) escreveu há uns 40 anos um delicioso Tratado Geral dos Chatos, pela Editora Civilização Brasileira. Uma pequena obra-prima nada chata.

Toda esta introdução, este prolegômeno meio chato, é para chegar ao Romário, o grande chato, o chato-grande, apesar de tão baixinho.

É este o problema do nosso craque. Ele é chato. Muito chato. E é por isso que ele não vai a mais uma Copa do Mundo. Por esse único motivo. E chato contagia os outros, irrita. Atrapalha qualquer concentração. Ih, lá vem o chato. E a rodinha se desfaz.

O Romário consegue ter andar de chato. Olhar de chato. Olhos de chato. Voz de chato. Insônia de chato. Um cara que só viaja de avião na janela, o que se pode esperar dele? Um indivíduo que diz que se for para ficar na reserva não vai, só pode ser o quê? Chato. Romário só é mais chato do que ele mesmo quando chora. Perceberam como o choro dele é chato? Não é um choro simpático (como o do Pelé sendo campeão do mundo, aos 17 anos, em Estocolmo). E aquelas mãozinhas em forma de Nossa Senhora de Fátima, implorando?

E para azar do chato-jogador, ele topou com um técnico igualmente chato. Só do cara gostar de ser chamado de Felipão já dá uns cinco pontos para ele. Só que o Luís Felipe, apesar deste nome delicado, é gaúcho. E chato gaúcho é complicado, é macho. E dois chatos numa mesma concentração não ia mesmo dar certo.

Imagine você aquele garotinho chato e ignorante, indo até a televisão pedir para ser eleito presidente do Brasil. Sim, aquele é outro chato. Chato-crente, chato-crente que está abafando. E depois mudando a nossa Constituição para O Evangelho Segundo Anthony. Definitivamente, um sujeito chamado Anthony, também já é chato de registro.

Imagine você o Ferreira Gullar, na porta da academia do Prêmio Nobel, chorando pelo um milhão de dólares daquela consagração monetária. Você já notou que todos os ganhadores do Nobel, além de chatos, conseguem escrever livros mais chatos ainda?

Mas voltemos ao chato-mor (do momento), o Romário. Ele está chateando todo mundo para o quê? Disputar a Copa do Mundo? Não! O que ele quer, aos 36 anos, é ficar lá na meia-lua (meio no mundo da lua) esperando que um Euller da vida coloque a bola exatamente no seu pé ou na sua cabeça e ele faça o gol. Como todo chato, ele que quer todos os outros jogadores joguem para ele. Coisa chata, isso, meu senhor.

Agora, acompanhe o meu raciocínio: se é para levar um senhor de 36 anos para ficar paradinho ali no mundo da lua, esperando para chutar no gol, eu sugiro que levem o Pelé. O Pelé tem exatamente o dobro da idade do chato-suplicante. E mais que o dobro do talento. Convoquem o Pelé. Em um mês ele estará tinindo, pois dizem que faz de dois a três exercícios físicos todas as noites, até hoje. Sou mais Pelé.

Isso evitaria - inclusive - que a gente tenha de agüentar o Pelé comentarista da vida, por alguma televisão desavisada.

O Pelé não bebe e não fuma. Além de não jogar fut-vôlei. Dorme cedo para se exercitar ali mesmo na cama. E quem já fez o dobro dos gols do Romário, pode muito bem, numa copa fazer o dobro também.

E ainda teremos uma vantagem extra. Ele será também um jogador a ser quatro vezes campeão do mundo. E não vamos mais ter de engolir o tetrachato do Zagallo que vive ultimamente só de alardear ser o único a conquistar tal façanha.

Sou mais Pelé!