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O CAVALO E TRÓIA

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O ESTADO DE S. PAULO

19/05/2004

 


Se por acaso o jornal me convidar para ir fazer crônicas nas Olimpíadas de Atenas, vou avisando: me um tempo para pensar. E acho que até , muita gente também irá pensar como eu. Jornalistas, atletas e, infelizmente, países. Se a oitenta dias estouraram umas bombinhas, fico imaginando o que vem pela frente.

Era para ser uma competição esportiva, né? A maior do mundo. Me lembro que na época da guerra fria (fria?) entre Estados Unidos e URSS, quando a olimpíada foi na Rússia os americanos boicotaram. A seguinte foi nos Estados Unidos e os soviéticos caíram fora. Ou vice-versa. Os tempo mudaram. Acabou a guerra fria e começou a quente.

Chegamos ao ponto do simpático Bin Laden mandar um aviso (para quem ele mandou a visos?) dizendo que está fora da jogada. Nesta ele não vai concorrer. Que mundo, que espírito esportivo do Bin, que provavelmente iria concorrer em tiro ao alvo. Medalha de Ouro?

Mas os extremista de esquerda (não existe nada pior no mundo do que os extremistas de esquerda; são recordistas em idiotices) da Grécia disseram que as Olimpíadas são uma competição entre multinacionais. Então eles vão correr atrás. E estão treinando.

Fico aqui a pensar qual será o primeiro país – de muitos – a dizer que não irá competir. Estados Unidos? Israel? Ou Paraguai?

Onde estará a cabeça de cada atleta – seja lá de que país for – correndo na pista, pensando na possibilidade do tiro de largada sair pela culatra? Quem é que vai dormir em paz – para disputar no dia seguinte – imaginando que a Vila Olímpica pode explodir a qualquer momento?

Sem querer fazer trocadilho, qual será o presente de grego desta vez? Um cavalo ou um míssel?

Isso tudo é muito triste. O sonho da medalha olímpica, sonho de milhares e milhares de jovens do mundo todo, esbarrar numas multinacionais de um lado e em extremistas de outro. A que ponto o mundo chegou, onde vai se gastar mais de um bilhão de dólares (não é milhão, não) em segurança. Pintou o maior clima...

E pensar que foram os gregos quem inventaram a competição. Estaria escrito no Olimpo que lá começaria tudo e lá acabaria? Ó, Zeus!!!

O teatro grego nos deixou 33 clássicas peças de teatro. 33 tragédias! Tragédias barras pesadíssimas: mãe matado filhos, filhos matando pai e por aí afora.

Chego até a considerar que a nossa seleção de futebol olímpica estava pensando nisso lá no Chile e achou melhor ficar de fora. O Ricardo Gomes, o treinador, conhece muito bem a Europa. Morou lá muito tempo e sabe que a coisa não está para brincadeira. Melhor ficar por aqui treinando o Fluminense onde o máximo que pode acontecer e levar com um copo de água vazio na nuca.

Estou escrevendo isto com a maior tristeza. Adoro esportes, detesto a violência, venha de onde vier. Mesmo que não aconteça nada – e espero – só a ameaça já é puro terrorismo.

Que Zeus nos proteja e a toda esta garotada que quer mostrar o seu valor e não têm nada a ver com interesses nem econômicos e nem políticos.

Que pena.