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O CASAL DA INTERNET

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o estado de s. paulo

1998

 


Gente, não é assustador essa história do casal que se conheceu num cruzeiro de internautas?

Se você não leu as notícias, o negócio foi mais ou menos assim: ele, Flávio, goiano desempregado, não tendo mais o que fazer da vida, entrou num chat-chato qualquer e começou a bater papo com a Carla, artista plástica de Campo Grande (MS).

Papo vai, bit vem, começaram as mentiras. Ela manda uma foto para ele onde estava vinte kbtis, ou melhor, vinte quilos mais magra. Ele, imaginação fértil, se diz fazendeiro, dono de aviões, carros importados. Escaneia para ela uma foto dele ao lado de uma das aeronaves. Paixão à primeira vista, ou melhor, à primeira digitada.

No dia 2 deste mês eles se encontraram num hotel em Goiania, depois de Carla fugir de casa. Até o dia 7 manteve contato com a família. Depois sumiu. Os computadores da polícia foram acionados de norte a sul. A Internet a serviço da polícia brasileira.

Bem, os dois foram achados às sete da manhã do último sábado em Teresina, lá no meio do Piaui. Ele de Goiania, ela de Campos Grande. Que diabo os dois foram fazer lá no Panorama Pousada Hotel da BR-316?

O fato é que Flavio já havia limpado a conta bancária de Carla. Não sei se por vingança pelos vinte quilos a mais. Carla declarou à polícia que descobriu que o amado era um pobre desempregado e "amante profissional". Profissional e cibernético, eu acrescentaria. Fim de caso. Carla volta para Campo Grande, vai tentar emagrecer e voltar aos chat da vida. O outro, não profissional, mas amador, está preso.

Lá no começo, eu dizia que essa história é assustadora. Você não acha? Você que fica aí horas e horas por dia navegando pela telinha. Já pensou quanta gente doida deve ter nesse mundão todo que o Bill Gates inventou e nós fizemos a fortuna dele? Já imaginou quanta mentira anda rolando?

O que me assusta é que esse negócio de Internet é tão novo que ainda não está regulamentado em lei. Cada um faz o que pode. Até sexo virtual, coisa que eu jamais farei pois tenho certeza que no lugar do orgasmo, deve acontecer um choque eletrônico poderosíssimo.

Outro dia eu estava a falar com uma pessoa em Turim, num italiano todo macarrônico, começou a pintar um clima, umas perguntas mais íntimas, até que nós dois descobrimos que éramos homens. Confesso que foi meio esquisita a sensação.

(e por falar nisso, Ana Beatriz Moser, onde está a minha camisa da seleção?)

Continuando: outro dia faleceu o pai do Fernando Morais que sempre lhe mandava recados pela Internet. Mas ele havia apagado tudo do seu computador. Tudo. Ficou chateado, contou para um amigo que lhe explicou que tudo que é apagado aqui na terra fica num satélite lá em cima. Resultado, o cara conhecia alguém que podia fazer este serviço. Hoje o Fernando tem toda a correspondência do falecido pai.

Ou seja, estou começando a achar que tudo que a gente digita, como esta crônica, por exemplo, mesmo que eu a retire do meu computador, ela ficará em algum computador lá perto do céu. Meu Deus!

Quando comecei a escrever, minha sábia mãe dizia:

- O que você fala some, o que você escreve fica. Cuidado!

Mal sabia ela, quarenta anos atrás, o que estava a prever.

Cuidado pois, leitor e leitora, não fique por aí dizendo que é magrinha, nem milionário. Deus e Bil Gates estão de olho em você. E eles não falham...

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