“Quando
o carteiro
chegou e o meu nome
gritou com um carta
na mão, ante surpresa tão rude, nem
sei como
pude chegar
ao portão. Lendo o envelope bonito
no seu
sobrescrito eu
reconheci a mesma caligrafia que me
disse um dia:
estou farto
de ti. Porém, não
tive a coragem
de abrir
a mensagem. Porque,
na incerteza, eu
meditava e dizia: será de alegria ou
será de tristeza? Quanta verdade tristonha
a mentira risonha que
uma carta nos
traz. E, assim
pensando, rasguei tua carta
e queimei para não sofrer mais”.
A última
gravação da música acima (Cícero Nunes e Aldo Cabral) foi feita
magistralmente pela sempre impecável Ná Ozzetti, em Show. E canção me veio à
cabeça com força total ao assistir a um curta metragem do Jacques Tati, de
1947, chamado Escola de Carteiros. Tem no DVD Curtindo Jacques Tati.
Recomendo principalmente para quem nunca ouviu falar nele.
Mas
vendo o Mon Oncle entregando cartas e ouvindo a Ná, comecei a pensar no
carteiro. Hoje em dia o carteiro virou um mala. Um mala direto. Fico fora de
São Paulo e quando volto, depois de um mês, tem um metro de correspondência.
Avisos bancários, cobranças, ofertas, convites, convites, convites, mala
direta direto. Carta, nenhuma. Carta que eu digo é aquilo escrito à mão, de
alguém para alguém, contando as novidades, declarando seu amor, ou
encerrando uma aventura. Já não se fazem mais cartas como antigamente. O fax
e depois os mails acabaram com a carta.
Veja
aquela letra: “quando o carteiro chegou e meu nome gritou”. Existia uma
relação entre o carteiro e o destinatário (que palavra!). Você deve ter lido
ou assistido O Carteiro e o Poeta. Aquilo sim, eram um poeta e um carteiro.
O
carteiro fazia parte do nosso imaginário, das nossas esperanças, dos nossos
amores. Escrevia-se cartas. Você pegava aquele papel de carta e sabia que
ele foi manuseado lá longe, noutra cidade, noutro país por aquelas mãos que
o redigiram. E não que digitaram. Era comum algumas cartas chegarem com uma
manchas. Lágrimas que pingavam por emoção ou dor.
E hoje o
carteiro é um mala. Oitenta por cento do que ele trás e jogado imediatamente
no lixo mais próximo. Cada convite que jogo no lixo, sinto pena do carteiro.
Ele caminhou quadras e quadras para me levar aquilo. Mas nada daquilo me
emociona. Não recebo mais do carteiro uma comovente notícia de morte. Muito
menos uma carta de amor.
Mais
malas ainda se tornam os carteiros na época de natal, com aqueles cartões
horrorosos de boas festas e um ano de paz e prosperidade. Desejar isso nos
dias de hoje é uma gozação: no mundo e no Brasil. Deviam escrever: que em
2003 você segure todas. E o pior é o “junto aos seus”. Eu nunca sei quem são
os meus.
Em época
de eleições o carteiro fica insuportável com aqueles santinhos todos de
deputados e vereadores. O mais engraçado é aquilo se chamar santinho e
quando você olha para a cara do remetente (que palavra!), de santo não tem
picas.
E, com a recente morte do
Carlito Maia, o carteiro ficou ainda mais dispensável. Não nos traz mais cartas
com flores no aniversário nem nos lançamentos de livros.
O carteiro tende a
desaparecer totalmente da fase da terra dentro de – no máximo - 10 anos. Tudo
chegará pelo computador. Tudo! Até as malas diretas do malas cheios de
indiretas.
Ninguém mais escreve cartas
ao coronel nem ao soldado raso. Ninguém mais tem coragem de escrever num papel o
seu amor eterno (ou não) e assinar em baixo. E deixar duas gotas paralelas de
lágrimas carimbarem a verdade no papel.
O carteiro está morrendo e
com ele muito, mas muito mesmo de um outro mundo. De um mundo mais romântico, é
claro. Onde a gente ficava no portão esperando pelo personagem, ansioso,
apreensivo, tenso. E, depois de abrir a carta, sorrir ou chorar. É, a emoção não
nos chega mais pelas mãos do carteiro e do porteiro.
Como já dizia o poeta lá de
cima, “quanta verdade tristonha a mentira risonha que uma carta nos traz”. É
Neruda, já não se fazem mais carteiros e nem poetas como na sua época.