O Carneirinho era loirinho, cabelo encaracolado.
Daí, o apelido. Quando éramos jovens, ele era o mais bonito, o mais simpático, o mais
bem vestido. Namorava todas as meninas da cidade. Todas as meninas adoravam o Carneirinho.
Mas ele nunca se casou.
Depois, formou-se em medicina, veio para São Paulo,
montou uma clínica maravilhosa. E continou a conquistar todas as mulheres de São Paulo.
E do mundo.
Via pouco, o velho amigo. Mas cada vez ele estava
com uma mulher diferente. Maravilhosas. Aviões, como ele gostava de dizer. Mas nunca se
casou, embora eu tenha ficado sabendo de dois ou três esparsos noivados nos últimos
trinta anos.
Na semana passada, encontrei-me com ele na Mercearia
São Pedro. Continua um tipo bonito, mas cachinhos loiros já não há mais. O pouco que
lhe restou já está branco. Mas continua o mesmo: bonito, elegante, rico e, como sempre,
muito bem acompanhado.
Começamos a beber e o Carneirinho, que sempre foi
fraco com o álcool, desandou a me explicar porque não ficava muito tempo com a mesma
mulher, por melhores que fossem.
- Acho que eu fico procurando a mulher perfeita.
Sei que não tem, mas insisto. Em cada uma, depois de um tempo, eu começo a
encontrar defeitos. Defeitos físicos, pequenos, mas que, com
o passar do tempo, aquilo vai crescendo na minha cabeça. Por exemplo, lembra
da Lurdica? Tinha joanete. Aquele joanete
foi crescendo na minha cabeça. Um dia cheguei à conclusão que não podia conviver mais
com um joanete.
- E a Celinha?
- Falava menas. Eis a questã.
- A Glória?
- Como é que eu podia continuar beijando aquele
avião, com aquele canino superior direito? Saltado. Ninguém observava, mas eu sabia. A
Bia tinha muito pêlo no braço, lembra? Parecia o bigode da Cidoca. Lembra da Paulinha?
Tinha um dos bicos do seio para dentro. A Loló você devia saber do mau hálito dela.
Vinha lá do estômgao, do útero, sei lá.
- E a Candinha?
- Roía unha. Até do pé. A Selminha tinha a testa
muito avançada, lembrava a minha mãe. Lembra da Rose? Quando ria, dava murrinhos na
mesa: não podia conviver com aquilo. A Claudete, a gente chegou até a ficar noivo, mas
um dia, num almoço de família, toda a minha família e a dela, eu pedi o pão, ela
passou, eu pequei o pão e ficou aquele indefectível farelo na mão dela. Aquele farelo
foi definitivo, você há de concordar comigo..
- E a Joana? Você ficou noivo da Joana também.
- A Joaninha era legal, mas tinha orelhas enormes.
Nunca reparou? Eu tinha a impressão que cada dia estavam maiores. A Maria C. não tinha
orgasmo. Fiz de tudo. A Aninha, quando tinha orgasmo, virava os olhos para cima: parecia
que estava tendo um ataque epilético.
- E a Carmen Lúcia? Aquela não tinha nenhum
defeito.
- Como não? Não sabia quem era a Sarita Montiel e
muito menos o Hemingway. E velho e o mar, ela achava que era o avô dela. A Carlota
também, nunca tinha lido um livro. Aliás, tinha lido o Caminho Suave.
- Mas todo mundo achava que você ia se casar com a
Ledinha.
- Era linda, mas o cabelo meio pixaim. Meus pais
não iriam gostar. A Léia, por exemplo, tinha dois dedos do pé meio grudados. Morria de
vergonha dela, na praia. A Gegê tinha o lábio inferior meio viradinho, lembra? Boca
pequena. E por falar em boca, a Lucinha beijava de boca fechada, pode? Ao contrário da
Dequinha que me mordia a lingua toda vez.
- E aquela fazendeira de Ribeirão Preto?
- Marina? Peito caído. Já a Ciça tinha o joelho
caído. Já viu mulher de joelho caído? A Marcinha era perfeita, mas a mãe dela rezava
terço todo dia. E ela morava com a mãe. Parecia a casa do Nelson Rodrigues.
- E aquela francesa que eu te vi uma vez na...
- Michele. Você não viu os pés dela, né? Então
não fala nada. Fora isso, tinha aquele narizinho rebitado, lembra?, de onde saiam
chumaços de pelos. E não era muito chegada a uma Sabesp. Toda mulher tem seu defeito,
meu amigo. Mais dias, menos dias, você tem que enfrentar o inimigo. A Letícia não
falava inglês. Levei ela para a Europa e passei vergonha.
- Então você nunca vai achar uma mulher perfeita,
Carneirinho.
- Um dia eu acho, um dia eu acho.
Ia me esquecendo de dizer que neste encontro com ele
na Mercearia, ele estava com um garoto, com pouco mais de vinte anos, loiro, cabelos
encaracolados, elegante, educado e tatuado, que ele me apresentou como "primo".
Sei não, Carneirinho, sei não.