Já dizia Marcel Pagnol, da academia francesa, que a
receita número um para fazer um francês rir é história de marido enganado. Piada de
corno. A começar do conselho de um amigo a um desavisado infeliz: bobagem, esse negócio
de chifre é uma coisa que puseram na sua cabeça.
A peça Nina, de André Roussin, sobre um marido
enganado, ficou três anos em cartaz em Paris. Em outros paises latinos, o sucesso foi o
mesmo. Em Nova Iorque, apesar de Glória Swanson, foi um fracasso. Londres, a mesma coisa.
Nos Estados Unidos um corno é motivo de piedade. Na Inglaterra, não passa de um
personagem incômodo. No Brasil, o corno dá bilheteria. O nosso é o mais engraçado.
Corno brasileiro é o que há.
Mas não só o corno. Tudo, no Brasil, é risível.
O Maníaco do Parque, por exemplo. O que mais abalou
o brasileiro não foram os crimes terríveis que ele cometeu. O que deixou o Brasil pasmo
é que só se fez uma piada sobre o caso. Só uma, que todos conhecem. A da menina que,
entrando no parque com ele, vendo escurecer, disse: estou ficando com medo. No que ele
respondeu: imagina eu, que vou voltar sozinho. Durante meses o brasileiro esperou outra
piada sobre o maníaco. Nada. Nem Freud conseguiria explicar, mesmo em seus raros momentos
de bom humor.
Nada escapa ao nosso piadismo. Portugueses, baianos,
gaúchos, papagaios, cornos, barbeiros, Freud, prefeitos e até os papas que, piadam,
gostam de seios grandes, são motivos, motes. E tem aqueles que até se beneficiam de
protagonizarem as piadas. O que seria do Vicente Matheus, por exemplo, se ele não fosse
uma faca de dois legumes? E o próprio Enéas que é uma piada gritante?
A coisa é tão doida aqui no Brasil que, pasmem!, a
piada de português foi inventada pelos portugueses. E isso não é uma anedota. Morei
dois anos lá e descobri isso. Os portugueses bons contadores de piadas
fazem piada dos alentejanos. Vindo para o Brasil, querendo gozar os alentejanos, a quem
consideram pouco dotados, perguntavam:
- Conhece aquela do português alentejano?
O brasileiro, ao passar pra frente, cortava o
alentejano.
Foi preso aquele auxiliar de enfermagem que matava
os impacientes terminais. No dia seguinte, no almoço, já ouvi uma piada. Também,
pudera, o nome da funerária é Novo Mundo. Aí já é provocação.
O ator leva um tiro na cabeça, o locutor sofre um
acidente de carro, o saltador é internado com hepatite, o iatista perde uma perna, o
irmão perde uma orelha: no dia seguinte, toma piada! E se espalham mais rápido do que
boatos sobre infidelidade de graúdos ou o exame de próstata do prefeito.
E, com isso, chegamos ao cerne da questão: quem
inventa as piadas? Ninguém sabe, ninguém nunca ficará sabendo. Existe até uma ala
pouco uspiana que diz que são os presos. Acho isso uma piada. Um dia
perguntei ao Jô Soares se ele inventada piada e ele disse que, em toda a sua vida, só
tinha inventado uma. Cá entre nós, média.
Então, se não são os humoristas, os atores e
muito menos os escritores, quem inventa? Donde surge? Jamais saberemos. São amadores os
nossos autores. Sim, porque nos Estados Unidos, por exemplo, há profissionais da piada.
Gente que vende piadas a cinquenta ou cem dólares para programas humorísticos. Piadas
curtas. Gags, como eles chamam.
As inglesas, por exemplo, de tão finas e sutis,
devem sair de Oxford ou até mesmo do palácio da rainha, alvo preferido deles. Shaw
cometia piadas. Swift também.
Mas aqui, não. O brasileiro se dá ao luxo até de
catalogar as piadas. Tem as de salão, tem as picantes, tem as de humor negro. Tem as de
negro. Tem as pesadas.