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O brasileiro é uma piada

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Época

11/05/99

 


Já dizia Marcel Pagnol, da academia francesa, que a receita número um para fazer um francês rir é história de marido enganado. Piada de corno. A começar do conselho de um amigo a um desavisado infeliz: bobagem, esse negócio de chifre é uma coisa que puseram na sua cabeça.

A peça Nina, de André Roussin, sobre um marido enganado, ficou três anos em cartaz em Paris. Em outros paises latinos, o sucesso foi o mesmo. Em Nova Iorque, apesar de Glória Swanson, foi um fracasso. Londres, a mesma coisa. Nos Estados Unidos um corno é motivo de piedade. Na Inglaterra, não passa de um personagem incômodo. No Brasil, o corno dá bilheteria. O nosso é o mais engraçado. Corno brasileiro é o que há.

Mas não só o corno. Tudo, no Brasil, é risível.

O Maníaco do Parque, por exemplo. O que mais abalou o brasileiro não foram os crimes terríveis que ele cometeu. O que deixou o Brasil pasmo é que só se fez uma piada sobre o caso. Só uma, que todos conhecem. A da menina que, entrando no parque com ele, vendo escurecer, disse: estou ficando com medo. No que ele respondeu: imagina eu, que vou voltar sozinho. Durante meses o brasileiro esperou outra piada sobre o maníaco. Nada. Nem Freud conseguiria explicar, mesmo em seus raros momentos de bom humor.

Nada escapa ao nosso piadismo. Portugueses, baianos, gaúchos, papagaios, cornos, barbeiros, Freud, prefeitos e até os papas que, piadam, gostam de seios grandes, são motivos, motes. E tem aqueles que até se beneficiam de protagonizarem as piadas. O que seria do Vicente Matheus, por exemplo, se ele não fosse uma faca de dois legumes? E o próprio Enéas que é uma piada gritante?

A coisa é tão doida aqui no Brasil que, pasmem!, a piada de português foi inventada pelos portugueses. E isso não é uma anedota. Morei dois anos lá e descobri isso. Os portugueses – bons contadores de piadas – fazem piada dos alentejanos. Vindo para o Brasil, querendo gozar os alentejanos, a quem consideram pouco dotados, perguntavam:

- Conhece aquela do português alentejano?

O brasileiro, ao passar pra frente, cortava o alentejano.

Foi preso aquele auxiliar de enfermagem que matava os impacientes terminais. No dia seguinte, no almoço, já ouvi uma piada. Também, pudera, o nome da funerária é Novo Mundo. Aí já é provocação.

O ator leva um tiro na cabeça, o locutor sofre um acidente de carro, o saltador é internado com hepatite, o iatista perde uma perna, o irmão perde uma orelha: no dia seguinte, toma piada! E se espalham mais rápido do que boatos sobre infidelidade de graúdos ou o exame de próstata do prefeito.

E, com isso, chegamos ao cerne da questão: quem inventa as piadas? Ninguém sabe, ninguém nunca ficará sabendo. Existe até uma ala – pouco uspiana – que diz que são os presos. Acho isso uma piada. Um dia perguntei ao Jô Soares se ele inventada piada e ele disse que, em toda a sua vida, só tinha inventado uma. Cá entre nós, média.

Então, se não são os humoristas, os atores e muito menos os escritores, quem inventa? Donde surge? Jamais saberemos. São amadores os nossos autores. Sim, porque nos Estados Unidos, por exemplo, há profissionais da piada. Gente que vende piadas a cinquenta ou cem dólares para programas humorísticos. Piadas curtas. Gags, como eles chamam.

As inglesas, por exemplo, de tão finas e sutis, devem sair de Oxford ou até mesmo do palácio da rainha, alvo preferido deles. Shaw cometia piadas. Swift também.

Mas aqui, não. O brasileiro se dá ao luxo até de catalogar as piadas. Tem as de salão, tem as picantes, tem as de humor negro. Tem as de negro. Tem as pesadas.