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O BRASILEIRO E SUAS MÁQUINAS VOADORAS

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o estado de s. paulo

1998

 


Outro dia estava ouvindo uma conversa num bar, na mesa ao lado.

- O meu, considera risco de vida imediato, mas só em fase aguda, é claro, e que não possa ser tratado em casa.

- O meu, pode internação em apartamento, com quarto com banheiro também para o acompanhante. Um banheiro só para ele.

- O meu, inclúi sala cirúrgica e UTI.

- O meu, pode usar leitos especiais.

- O meu, tem até alimentaçào dietética.

- É mesmo? O meu, pode usar ambulância desde que não esteja a mais de 100 quilômetros. Se você se arrebentar em Campinas te trazem para cá de graça!

- E fisioterapia? Até 40 sessões!

- Para doenças cardiológicas o meu tem carência de 10 meses.

- O meu é de oito!

- É mesmo? E urgência clínica em geral?

- Seis. Agora, gravidez, só depois de 18 meses.

- Claro.

- Helicóptero, tem?

- Não... Mas cada enfermeira, meu!

- E AIDS?

- O meu, não fala nada.

- Nem o meu.

Vocês têm reparado nos anúncios pela televisão dos Seguros Saúde? Não dá vontade de ficar doente, de se acidentar, de entrar em coma? Já pensaram que maravilha, você estendido na grama da orla de uma estrada qualquer e vem um helicóptero daqueles vermelhos a 1000 por hora para te levar pelos ares, antes que Deus o faça?

Tem um anúncio que lembra em muito a chegada da espaçonave de Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Seria para queimaduras de terceiro grau? E os carros que nada ficam a dever aos bólidos da fórmula um? E a enfermeiras loiras e lindas? E aquele médico que entra na casa da apavorada mãe e, ao sair, ainda controla uma bola com olhar de doutor Sócrates?

Nunca, pela televisão, se pediu tanto aos brasileiros que sofram acidentes, que fiquem doentes, que tenham um câncer súbito. Adoecer está virando um sonho na vida dos já enfraquecidos brasileiros. A palavra resgate virou moda. O Seguro Saúde é um status, um seguro status.

Só que poucos têm acesso aos resgates da medicina brasileira. O que devia - e está na Constituição - ser obrigação do Estado, torna-se objeto da mídia. Gasta-se milhões e milhões de dólares em anúncios de trinta segundos e páginas inteiras dos principais jornais do País. Será que com este dinheiro jogado na nossa cara não dava para resgatar milhares e milhares de brasileiros que morrem de fome por aí?

E o pior é que o pobre, que não pode ter o seu seguro de saúde, fica assistindo, de meia em meia hora, as vantagens desta ou daquela companhia. Não dá mesmo vontade de ficar doente? Ou melhor, mais doente do que já se está?

Eu não conheço ninguém que tenha sido resgatado por um helicóptero de terceiro grau. Nunca vi na rua aqueles carros maravilhosos que aparecem na televisão. Nunca vi médico nenhum batendo bola na porta da casa de ninguém. As enfermeiras - salvo raras exceçoes - que tive pela frente eram sempre gordas e mau humoradas. Nós somos doentes do terceiro mundo, pessoal. E não do primeiro, como querem nos convencer com estes anúncios milionários e suas máquinas voadoras.