Outro dia estava ouvindo uma conversa num bar, na
mesa ao lado.
- O meu, considera risco de vida imediato, mas só
em fase aguda, é claro, e que não possa ser tratado em casa.
- O meu, pode internação em apartamento, com
quarto com banheiro também para o acompanhante. Um banheiro só para ele.
- O meu, inclúi sala cirúrgica e UTI.
- O meu, pode usar leitos especiais.
- O meu, tem até alimentaçào dietética.
- É mesmo? O meu, pode usar ambulância desde que
não esteja a mais de 100 quilômetros. Se você se arrebentar em Campinas te trazem para
cá de graça!
- E fisioterapia? Até 40 sessões!
- Para doenças cardiológicas o meu tem carência
de 10 meses.
- O meu é de oito!
- É mesmo? E urgência clínica em geral?
- Seis. Agora, gravidez, só depois de 18 meses.
- Claro.
- Helicóptero, tem?
- Não... Mas cada enfermeira, meu!
- E AIDS?
- O meu, não fala nada.
- Nem o meu.
Vocês têm reparado nos anúncios pela televisão
dos Seguros Saúde? Não dá vontade de ficar doente, de se acidentar, de entrar em coma?
Já pensaram que maravilha, você estendido na grama da orla de uma estrada qualquer e vem
um helicóptero daqueles vermelhos a 1000 por hora para te levar pelos ares, antes que
Deus o faça?
Tem um anúncio que lembra em muito a chegada da
espaçonave de Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Seria para queimaduras de terceiro
grau? E os carros que nada ficam a dever aos bólidos da fórmula um? E a enfermeiras
loiras e lindas? E aquele médico que entra na casa da apavorada mãe e, ao sair, ainda
controla uma bola com olhar de doutor Sócrates?
Nunca, pela televisão, se pediu tanto aos
brasileiros que sofram acidentes, que fiquem doentes, que tenham um câncer súbito.
Adoecer está virando um sonho na vida dos já enfraquecidos brasileiros. A palavra
resgate virou moda. O Seguro Saúde é um status, um seguro status.
Só que poucos têm acesso aos resgates da medicina
brasileira. O que devia - e está na Constituição - ser obrigação do Estado, torna-se
objeto da mídia. Gasta-se milhões e milhões de dólares em anúncios de trinta segundos
e páginas inteiras dos principais jornais do País. Será que com este dinheiro jogado na
nossa cara não dava para resgatar milhares e milhares de brasileiros que morrem de fome
por aí?
E o pior é que o pobre, que não pode ter o seu
seguro de saúde, fica assistindo, de meia em meia hora, as vantagens desta ou daquela
companhia. Não dá mesmo vontade de ficar doente? Ou melhor, mais doente do que já se
está?
Eu não conheço ninguém que tenha sido resgatado
por um helicóptero de terceiro grau. Nunca vi na rua aqueles carros maravilhosos que
aparecem na televisão. Nunca vi médico nenhum batendo bola na porta da casa de ninguém.
As enfermeiras - salvo raras exceçoes - que tive pela frente eram sempre gordas e mau
humoradas. Nós somos doentes do terceiro mundo, pessoal. E não do primeiro, como querem
nos convencer com estes anúncios milionários e suas máquinas voadoras.