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O BRASILEIRO ANDA COM MINHOCAS NA CABEÇA

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o estado de s. paulo

3.5.93

 


VOCÊ FICA dois anos fora do Brasil, volta, e muita coisa mudou. Muitas coisas chamam a sua atenção. O povo deu uma demonstração de democracia para o mundo derrubando o Collor, por exemplo. O São Paulo foi campeão do mundo interclubes. O vôlei do Brasil é o melhor do mundo. Trinta e dois milhões de brasileiros passam fome. O trânsito de São Paulo melhorou muito. Gabriel Villela é o melhor diretor de teatro. O dólar, que valia 250 vale 100 mil. Carros estrangeiros desfilam e ultrapassam o novo/velho fusca. Itamar é um quarto trapalhão. Fernando Henrique, sociólogo maior, é o Ministro da Fazenda. E mais, muito mais.

Mas o que mais me chamou a atenção nesta volta ao Brasil, o que mais me impressionou, foi a minhoca. Sim, minha senhora, a minhoca, antigamente isca para bagre. Está todo mundo criando minhoca. O Brasil está com a minhoca na cabeça. O brasileiro, mais do que nunca, está minhocando, na falta de coisa melhor para fazer.

Outro dia, a capa de uma importante revista nacional era com uma mulher - classe média-alta - levantando, com as próprias mãos - de unhas muito bem esmaltadas, um punhado delas. Num outro dia no programa Sílvio Santos, na Porta da Esperança - pasmem! - uma mulher foi pedir minhocas ao empresário. E - pasmem de novo! - ganhou um litro com quinze mil minhocas. Não sei como sabiam o número exato. Como contá-las, como sabê-las, se não conhecê-las, diria Vinicius, que nunca foi de minhocar muito. Se uma pessoa vai ao Porta da Esperança pedir minhoca é porque a coisa tá mesmo grave.

E neste último sábado participei com mais umas trinta pessoas, de um almoço - um cozido divino - na casa da Suzana Prado, viúva do não-minhoqueiro Caio Graco. Cozido à parte, Iá, três senhoras da mais alta sociedade e intelectualidade brasileira estavam falando sobre as minhocas. As três tinha uma plantação - perdão, criação - de minhocas. O assunto era a minhoca Nada de dólar, Rodin, Sontag, dívida externa, O piano, Glauber Rocha ou Bósnia. Minhocas! Minhocas e mais minhocas, enquanto se esperava o cozido.

E não pensem vocês que são estas minhocas que a gente pega no quintal para pescar, não. As minhocas, minhas senhoras, são californianas! Devem vir lá dos jardins de Hollywood, de Beverly Hills. Minhocas que já conviveram com Paul Newman, Robert Redford ou até mesmo Soninha Braga. Minhocas que viram a saia da Marilyn esvoaçante, que levaram tiro do John Wayne. Minhocas com saudades de James Dean. Minhocas que já olharam nos olhos de Tom Cruise. Minhocas que falam inglês sem sotaque.

Cócon!

Não, não se trata daquele filme que os velhinhos ficam tarados, não. São os ovos das minhocas! Sim, as minhocas colocam ovos, como os dinossauros. Ovos que "eclodem" depois de 28 dias.

Eu já contei seis minhoquinhas dentro de um cócon.

E no terceiro mês estas minhoquinhas ficam maduras, ou sejam, defecam. E é aí que entra o lucro. O cocô, que se chama húmus, que é o que interessa. Para você ter uma idéia da produtividade do tal húmus, uma minhoca - ou um minhoco - defeca exatamente metade do seu peso por dia cocô, ou melhor, húmus. Metade do peso! Se você tiver setenta quilos, por exemplo, imagine-se fazendo 35 quilos de cocô por dia. Imagine o tamanho da fila do banheiro da sua casa. Imagine como ficaria o Tietê com esta cocozada toda. Ainda bem que não somos minhocas. Por enquanto.

E se você pensa que uma minhoca dura apenas uns dias ou semanas, você não entende mesmo nada de minhocas. Uma minhoca dura dezesseis anos. Vive mais que cachorro. Tem minhoca avó, bisavó, minhoco com próstata, velhinhas esclerosadas e minhoco de óculos e ranzinza.

- O meu marido tem duas mil cabeças de gado.

- Eu tenho 300 mil cabeças de minhoca! disse feliz uma minhoqueira. Ou seria minhoquista?

Afinal, pensei, de que lado fica a cabeça da minhoca?

É isto aí. Nunca o Brasil minhocou tanto. A minhoca está subindo à cabeça das brasileiras. O Brasil está com minhoca na cabeça.

O dia em que a minha querida Ruth Cardoso, esposa do Ministro da Fazenda, começar a criar minhocas, é porque realmente o Brasil foi para o brejo com suas minhocas voadoras. Ou melhor, para o lodo, que é onde elas se sentem melhor.

O Brasil não é mais um país para homens. É um país para húmus. Defequem, pois.