VOCÊ FICA dois anos fora do Brasil, volta, e
muita coisa mudou. Muitas coisas chamam a sua atenção. O povo deu uma
demonstração de democracia para o mundo derrubando o Collor, por exemplo. O
São Paulo foi campeão do mundo interclubes. O vôlei do Brasil é o melhor
do mundo. Trinta e dois milhões de brasileiros passam fome. O trânsito de São
Paulo melhorou muito. Gabriel Villela é o melhor diretor de teatro. O dólar,
que valia 250 vale 100 mil. Carros estrangeiros desfilam e ultrapassam o
novo/velho fusca. Itamar é um quarto trapalhão. Fernando Henrique, sociólogo
maior, é o Ministro da Fazenda. E mais, muito mais.
Mas o que mais me chamou a atenção nesta
volta ao Brasil, o que mais me impressionou, foi a minhoca. Sim, minha
senhora, a minhoca, antigamente isca para bagre. Está todo mundo criando
minhoca. O Brasil está com a minhoca na cabeça. O brasileiro, mais do que
nunca, está minhocando, na falta de coisa melhor para fazer.
Outro dia, a capa de uma importante revista
nacional era com uma mulher - classe média-alta - levantando, com as próprias
mãos - de unhas muito bem esmaltadas, um punhado delas. Num outro dia no
programa Sílvio Santos, na Porta da Esperança - pasmem! - uma mulher foi
pedir minhocas ao empresário. E - pasmem de novo! - ganhou um litro com
quinze mil minhocas. Não sei como sabiam o número exato. Como contá-las,
como sabê-las, se não conhecê-las, diria Vinicius, que nunca foi de
minhocar muito. Se uma pessoa vai ao Porta da Esperança pedir minhoca é
porque a coisa tá mesmo grave.
E neste último sábado participei com mais
umas trinta pessoas, de um almoço - um cozido divino - na casa da Suzana
Prado, viúva do não-minhoqueiro Caio Graco. Cozido à parte, Iá, três
senhoras da mais alta sociedade e intelectualidade brasileira estavam falando
sobre as minhocas. As três tinha uma plantação - perdão, criação - de
minhocas. O assunto era a minhoca Nada de dólar, Rodin, Sontag, dívida
externa, O piano, Glauber Rocha ou Bósnia. Minhocas! Minhocas e mais
minhocas, enquanto se esperava o cozido.
E não pensem vocês que são estas minhocas
que a gente pega no quintal para pescar, não. As minhocas, minhas senhoras, são
californianas! Devem vir lá dos jardins de Hollywood, de Beverly Hills.
Minhocas que já conviveram com Paul Newman, Robert Redford ou até mesmo
Soninha Braga. Minhocas que viram a saia da Marilyn esvoaçante, que levaram
tiro do John Wayne. Minhocas com saudades de James Dean. Minhocas que já
olharam nos olhos de Tom Cruise. Minhocas que falam inglês sem sotaque.
Cócon!
Não, não se trata daquele filme que os
velhinhos ficam tarados, não. São os ovos das minhocas! Sim, as minhocas
colocam ovos, como os dinossauros. Ovos que "eclodem" depois de 28
dias.
Eu já contei seis minhoquinhas dentro de um
cócon.
E no terceiro mês estas minhoquinhas ficam
maduras, ou sejam, defecam. E é aí que entra o lucro. O cocô, que se chama
húmus, que é o que interessa. Para você ter uma idéia da produtividade do
tal húmus, uma minhoca - ou um minhoco - defeca exatamente metade do seu peso
por dia cocô, ou melhor, húmus. Metade do peso! Se você tiver setenta
quilos, por exemplo, imagine-se fazendo 35 quilos de cocô por dia. Imagine o
tamanho da fila do banheiro da sua casa. Imagine como ficaria o Tietê com
esta cocozada toda. Ainda bem que não somos minhocas. Por enquanto.
E se você pensa que uma minhoca dura apenas
uns dias ou semanas, você não entende mesmo nada de minhocas. Uma minhoca
dura dezesseis anos. Vive mais que cachorro. Tem minhoca avó, bisavó,
minhoco com próstata, velhinhas esclerosadas e minhoco de óculos e ranzinza.
- O meu marido tem duas mil cabeças de gado.
- Eu tenho 300 mil cabeças de minhoca! disse
feliz uma minhoqueira. Ou seria minhoquista?
Afinal, pensei, de que lado fica a cabeça da
minhoca?
É isto aí. Nunca o Brasil minhocou tanto. A
minhoca está subindo à cabeça das brasileiras. O Brasil está com minhoca
na cabeça.
O dia em que a minha querida Ruth Cardoso,
esposa do Ministro da Fazenda, começar a criar minhocas, é porque realmente
o Brasil foi para o brejo com suas minhocas voadoras. Ou melhor, para o lodo,
que é onde elas se sentem melhor.
O Brasil não é mais um país para homens.
É um país para húmus. Defequem, pois.