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O Benê

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o estado de s. paulo

29/11/2000

 


É inevitável. Sempre que vou - de carro - para Londrina, penso no Benê. O Benê morreu indo de carro para Londrina. Estava numa moto vindo de Lins. Uma curva, um caminhão atravessado e ele morreu. Já faz tempo.

Mais de 20 anos. Perto de 30, talvez.

O Benê tinha uns 25 anos, estava voltando para o Brasil depois de se especializar em Educação Física na universidade de Louvain, na Bégica.

Aliás, naquela época, era mania dos linenses irem para Louvain. Nunca ficou muito claro pra mim porque eu também não fui.

E o Benê voltou com uma moto poderosíssima. E - sei lá por que - escolheu Londrina para trabalhar. Arrumou emprego aqui. Sim, estou escrevendo aqui do norte do Paraná. Só um parênteses: atravessei o Estado de São Paulo todo e entrei no Paraná. Gente, que diferença!!! Mas deixa pra lá.

Voltemos ao Benê. Era um grande amigo meu de infância e adolescência lá em Lins. Colega de classe e - às vezes - sem classe. Na época, nos orgulhávamos de fazer parte da lista negra do professor Isaltino. A gente gostava de aprontar. Idiotices do tipo roubar ácido do laboratório e jogar na fonte da praça. A coisa explodia e a gente morria de rir. Dois panacas mesmo. Além do mais, era irmão de outros amigos meus, outras amigas e uma namorada.

Não sei em que pedaço da estrada ele se mandou. Mas sei que sempre passo, na esperança de sentir um friozinho na barriga e um sussurro na alma. Pouquinho antes de atravessar o Paranapanema, existem três pequenas cidades: Cruzálea, Pedrinhas e Florínea. Como o Benê adorava - como eu - brincar com as palavras, sempre acho que foi por ali. Entre Cruzálea e Florínea. Não é um belo lugar, não lembra céu, religião, paz?

Mas eu estou aqui escrevendo sobre o Benê porque ele me intriga. Morreu com 25 anos, digamos. Então, a cara dele, o jeitão dele, que ficou na minha memória, é dele com aquela idade. Nossos outros amigos todos envelheceram.

Inclusive os irmãos e irmãs dele. Todo mundo ali entre os 50 e os 60. Uns barrigudos, outros carecas, aqueles cabelos brancos, os exames de próstata, netinho no colo.

O Benê, não. Continua aquele mesmo moleque lá do Colégio Estadual. Loiro, cabelo liso e esvoacento. Tem irmão careca. Ele não. Aquela pele lisinha...

Era muito bonito o meu amigo.

Olhei agora para o espelho aqui na minha frente e tentei imaginar o Benê com 53 anos. Não dá. Olha lá a imagem dele me sorrinso entre cruzáleas e floríneas.

Partindo para outra, antes de chegar a Londrina, o Benê perdeu uma porção de coisas. Enquanto ele passava de moto por Pedrinhas, nem fax havia. E foi outro dia. E ele gosta dessas tecnologias novas. Sua moto era cheia de lero-leros.

Ele não chegou a falar no celular. Nem a imaginar isso. Muito menos que eu estaria daqui de um hotel, mandando esta crônica para você por um negócio chamado Internet.

Morreu sem ler meus livros, o moleque. Ele adorava meus textos ginasianos. E também era cobra em redação. Tinha um humor ferino e felino. Um gozador nato. Nunca me esqueci de uma redação dele chamada O Último dos Moicanos.

Engraçadérrima.

Morreu sem imaginar que aqueles colegas nossos que foram presos no fim dos anos 60, seriam hoje presidente da Petrobrás e ministros. Morreu, provavelmente, sem nunca ouvir falar em Marta Suplicy. No tempo dele o quente era o Faria Lima, o Carvalho Pinto.

Morreu antes de o Corinthians ser campeão depois de 23 anos. Quando ele estava chegando perto do Paranapanema, o Pelé ainda jogava. E a ditadura matava.

Como seria hoje o Benê? Careca? Avô? Bêbado e barrigudo? Um pai adorável?

Galinha? Rico, pobre? Feliz, Benê?

Foi uma viagem inteira, Benê, pensando em você, te vendo com aquela cara de sempre, aquela cara, aquele jeito de quem não nasceu pra envelhecer. Se você estivesse vivo, provavelmente eu não estaria aqui em Londrina num hotel.

Estaria na sua casa, tomando cerveja e te gozando:

- Tu tá velho, ei cara!!!

Não sei se feliz ou infelizmente, você foi meu único amigo que não envelheceu. Não perdeu nem o pique, nem o sorriso.

Estou te vendo aqui da janela. Como no filme Cidade dos Anjos. Juro.