Página anterior

O bar deu certo, o bar pegou

Próxima crônica

o estado de s. paulo

08/05/2002

 


Não se sabe de onde vêm nem por que vieram. Mas cada uma daqueles pessoas que estão ali no spa tem uma história. E, geralmente, boa.

O Paulão, por exemplo. Eu já andava de olho nele há (se quiser, havia) uns três dias. Visto assim do alto, não me parecia ser exclusivamente por causa da barriga ornada por pêlos prateados que ele estava ali. Um homem bonito, eu diria. Sua esposa (ou companheira, como acho que prefere, por ser filho de quem é) é magra.

Sei que ela escreve. O Paulão devia ter alguma história para estar ali. Era o último dia dele lá e a gente almoçava quase ao ar livre. Ele contando um caso qualquer, eu olhando para ele e pensando. Esse cara bebe. Sim, porque para um spa se vai pelos mais variados motivos.

Conheci um senhor que se internou por dez dias "para fazer um toque de próstata discreto". Não cheguei a perguntar para ele o que era exatamente um toque discreto ali naquelas circunstâncias onde o cinqüentão tem de enfrentar certas verdades pelas costas.

Eu perguntei:

- Bebida?

Eu só disse esta palavra: bebida. Se fosse ele um bom entendedor, uma só palavra bastava. Ele sorriu gostoso, quase cúmplice:

- Estou aqui porque o bar pegou.

Agora, quem sorriu fui eu. Sabia que vinha história boa. O Paulão sabe contar caso. E o título prometia: estou aqui porque o bar pegou.

Paulão, com filho crescido e independente, casou-se de novo. Veio junto um filho dela. E logo o garoto virou adolescente. E o Paulão convenceu os dois - mãe e filho -, numa boa, a irem morar num outro apartamento, igualmente confortável, porque ele, já com uma certa idade, não estava a fim de acompanhar aqueles momentos que todos nós já vivemos, duas vezes. Como adolescentes ou como pais. Ser por dois períodos diferente pai de adolescente eu confesso que é inversamente proporcional ao fato de ser adolescente duas vezes.

Isso posto, ficou, lá vazio, o quarto do garotão das baladas. Consciente ou inconscientemente, o Paulão sentiu que precisava ocupar aquele espaço. Espaço que era dele, muito antes de ser do menino. Foi aí que teve a péssima idéia de fazer ali, num espaçoso quarto, um bar. Sua vida nunca mais seria a mesma.

Porque não foi apenas um balcão com banquetas e algumas bebidas na prateleira que ele colocou. Nem tampouco a geladeira profissional. Aquela coisa de colocar vinho em várias temperaturas. Uma mesinha para o baralho. Televisão - 29 polegadas - com sofá num canto. Duas ou três mesinhas, com cadeiras e pufts chiquérrimos. Quando ele acabou de instalar luzes saindo dos cantos (embaixo e em cima) deu-se por satisfeito e perdido.

Virou o melhor lugar da casa. Longe, o melhor. Ele mesmo não saía dali, inventando drinques. Os amigos foram chegando, os parentes, ele já era obrigado a fazer supermercado todo dia, amendoim, salame, queijo disso e daquilo. Quase comprou uma churrasqueira a vapor mas achou que ia ser demais.

O pessoal começava a chegar ali pelas 5 da tarde e a última turma (amigos, parentes e amigos destes) saía lá pelas 5 da manhã. E o Paulão, claro, acompanhava todas as turmas. Transferiu seu computador para o bar e começou a despachar dali mesmo já no pequeno expediente antes do almoço.

O porteiro da noite, com o tempo e as altas gorjetas que recebia de todo mundo que saía de lá bêbado, já havia trocado o velho e surrado uniforme azul-marinho por um bordô cheio de dourados. Chegou a comprar um fusca oito dois.

Mas foi no dia que apareceu lá, junto com uns amigos, um crioulo grande e chique com uma loiraça igualmente grande e chique com mais laquê que a minha querida Hebe, que começou a sujar. O cara enchendo a cara e dando amasso ali no bar dele. Logo naquele dia que eles estavam pensando em ampliar o empreendimento para a sala grande com música ao vivo. Aquele casal foi para o banheiro do Paulão. Os dois, juntos. Paulão acompanhou de soslaio. Paulão olhou em volta e o clima continuava normal. Até que ouviram o barulho da pia se quebrando em milhares e milhares de pedaços.

- A minha pia!

Consta que, expulsos, continuaram o serviço no elevador, o que causou logo uma interfonada do seu Osório para o ex-comunista Paulão:

- Ô chefe, precisamos ver direito esse negócio aí da nossa freguesia.

Fechou o bar e foi para o spa.

Me despeço dele. Juro que não sei se ele está voltando para a casa ou para o bar dele. Mas que antes ele vai dar uma passadinha no bar, vai.