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O BANQUETEIRO DO FIM DE ANO

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o estado de s. paulo

10/12/94

 


Neste fim de ano, neste dezembro, estou me sentindo uma boa duma banqueteira. Daquelas crioulas gordas, com panos amarrados na cabeça, diante do caldeirão, saia larga, sorriso farto, fazendo ceias, doces e até mesmo panetones caseiros.

No interior, na época "das festas", as principais banqueteiras da cidade ficavam cheias de serviço. As encomendas tinham que ser feitas já em setembro, no máximo em outubro. Senão o peru tinha que ser comprado, para vergonha diante da vizinhança, no supermercado.

Estou me sentindo uma banqueteira de letrinhas, de textos. Nunca recebi tantas encomendas como neste Natal. Claro que todas, em cima da hora.

O caderno de Economia, por exemplo, me encomendou um texto de 100 linhas sobre a bronca dos empresários da Fiesp com a novela Pátria Deles. Acham eles que o empresário paulista é o contrário do Raul Pelegrini, ou seja, Inirgelep Luar. Foi a primeira encomenda "pra fora" e já entreguei o prato. Já o meu querido Walter Arruda, do alto da direção da Motor Show, me pede uma crônica de 5.000 caracteres (agora é assim que eles pedem) que tenha ao mesmo tempo carro e natal. Não é fácil. Pensei primeiro num trenó, mas logo imaginei as renas todas viadinhas e achei que o Walter não ia gostar. Resolvi dar um tempo e pegar outra encomenda antes.

Paulo Markun, botequeiro e jornalista, me pede 7.000 caracteres para um número especial da revista Radar (que tá captando tudo). Quer que eu escreva sobre a cultura no Brasil de 55 (posse do Juscelino) até a entrada do Fernando Henrique no Palácio. Parece simples. Mas como colocar tudo em apenas 7.000 caracteres? Temos aqui quatro décadas completamente diferentes: a dos anos cinquenta (que vai de 55 a 65), quando tudo começa a mudar: a dos anos 60 (de 65 a 75)) onde a cultura brasileira atinge seu ápice no século 20. Depois, de 75 a 85, a década que não aconteceu nada, os famosos anos cinza. E, de 85 para cá, a década da expectativa para o que virá após 95. Estou achando que 7.000 caracteres é pouco.

Por outro lado, o Geraldo Galvão Ferraz, do Jornal da Tarde, me impõe um outro banquete: cem linhas sobre qualquer coisa ligada ao Natal, para um suplemento especial onde vou estar ao lado de Rachel de Queiroz e Fernando Sabino, meus ídolos da adolescência. É muita responsabilidade. Ele até deu uma dica: "a morte do peru de natal". Pensei em escrever alguma coisa sobre o Natal, aquele ponta que foi um furor no Cruzeiro de Belo Horizonte nos anos 60. Fazer um paralelo entre o Cruzeiro, o Tostão e o Real. Mas achei que estava viajando demais e deixei para fazer amanhã.

Como se isso na bastasse, o Ruy Xavier, editor de política do Estadão, aquele mesmo que enfrentou galhardamente o Quércia no Roda Viva, exige de mim um perfil "coisa rápida" da Família Cardoso. Rápida para ele que vai ficar sentado lá na redação e eu vou ter que enfrentar filas para falar com o Fernando Henrique, com a Ruth, com o meu amigo Paulo Henrique, com a Luciana e com a Bia. Pensei em fazer a mesma pergunta para todos eles: o que mudou na sua vida depois da eleição do sociólogo?

E ainda tinha que fazer esta crônica para hoje. Se vocês acham que eu estou sem assunto e enrolando, acertaram. Principalmente porque eu tomei umas e outras no domingo e fui para o computador e a máquina (a minha cabeça) misturou tudo.

No artigo para a Motor Show, escrevia dizendo que o carro do Fernando Henrique havia morrido quando ele foi para a Missa do Galo. O Galo, que é o Atlético Mineiro e não o Cruzeiro.

No perfil da Família Cardoso, acabei dizendo que o Tostão era pai do Natal e ainda comentei de alguns perus que o Raul (não Pelegrini) do Cruzeiro havia tomado no Flamengo numa véspera de Natal.

Já o artigo para a revista Radar saiu sobre um time de futebol feminino que tinha este nome nos anos 80 e falava da jogadora Maristela, que seria uma das filhas do Fernando Henrique.

E, no Jornal da Tarde, onde deveria ter escrito um artigo sobre a morte do peru, fui mais feliz e consegui dizer que, com a posse do novo presidente, finalmente acabou a revolução de 64. Conclui com esta frase: a revolução de 64 acabou definitivamente no dia primeiro de janeiro de 95. Frase que nem é minha e sim do psiquiatra Luis Tenório de Oliveira Lima, guru do Cateno que foi um que nos anos 60, etc, etc, etc, ad nauseam.

Quanto ao peru propriamente dito, vou ter que encomendar para a Helena, banqueteira cheia de serviços, lá de Uberaba.