Neste fim de ano, neste dezembro, estou me sentindo
uma boa duma banqueteira. Daquelas crioulas gordas, com panos amarrados na cabeça, diante
do caldeirão, saia larga, sorriso farto, fazendo ceias, doces e até mesmo panetones
caseiros.
No interior, na época "das festas", as
principais banqueteiras da cidade ficavam cheias de serviço. As encomendas tinham que ser
feitas já em setembro, no máximo em outubro. Senão o peru tinha que ser comprado, para
vergonha diante da vizinhança, no supermercado.
Estou me sentindo uma banqueteira de letrinhas, de
textos. Nunca recebi tantas encomendas como neste Natal. Claro que todas, em cima da hora.
O caderno de Economia, por exemplo, me encomendou um
texto de 100 linhas sobre a bronca dos empresários da Fiesp com a novela Pátria Deles.
Acham eles que o empresário paulista é o contrário do Raul Pelegrini, ou seja,
Inirgelep Luar. Foi a primeira encomenda "pra fora" e já entreguei o prato. Já
o meu querido Walter Arruda, do alto da direção da Motor Show, me pede uma crônica de
5.000 caracteres (agora é assim que eles pedem) que tenha ao mesmo tempo carro e natal.
Não é fácil. Pensei primeiro num trenó, mas logo imaginei as renas todas viadinhas e
achei que o Walter não ia gostar. Resolvi dar um tempo e pegar outra encomenda antes.
Paulo Markun, botequeiro e jornalista, me pede 7.000
caracteres para um número especial da revista Radar (que tá captando tudo). Quer que eu
escreva sobre a cultura no Brasil de 55 (posse do Juscelino) até a entrada do Fernando
Henrique no Palácio. Parece simples. Mas como colocar tudo em apenas 7.000 caracteres?
Temos aqui quatro décadas completamente diferentes: a dos anos cinquenta (que vai de 55 a
65), quando tudo começa a mudar: a dos anos 60 (de 65 a 75)) onde a cultura brasileira
atinge seu ápice no século 20. Depois, de 75 a 85, a década que não aconteceu nada, os
famosos anos cinza. E, de 85 para cá, a década da expectativa para o que virá após 95.
Estou achando que 7.000 caracteres é pouco.
Por outro lado, o Geraldo Galvão Ferraz, do Jornal
da Tarde, me impõe um outro banquete: cem linhas sobre qualquer coisa ligada ao Natal,
para um suplemento especial onde vou estar ao lado de Rachel de Queiroz e Fernando Sabino,
meus ídolos da adolescência. É muita responsabilidade. Ele até deu uma dica: "a
morte do peru de natal". Pensei em escrever alguma coisa sobre o Natal, aquele ponta
que foi um furor no Cruzeiro de Belo Horizonte nos anos 60. Fazer um paralelo entre o
Cruzeiro, o Tostão e o Real. Mas achei que estava viajando demais e deixei para fazer
amanhã.
Como se isso na bastasse, o Ruy Xavier, editor de
política do Estadão, aquele mesmo que enfrentou galhardamente o Quércia no Roda Viva,
exige de mim um perfil "coisa rápida" da Família Cardoso. Rápida para ele que
vai ficar sentado lá na redação e eu vou ter que enfrentar filas para falar com o
Fernando Henrique, com a Ruth, com o meu amigo Paulo Henrique, com a Luciana e com a Bia.
Pensei em fazer a mesma pergunta para todos eles: o que mudou na sua vida depois da
eleição do sociólogo?
E ainda tinha que fazer esta crônica para hoje. Se
vocês acham que eu estou sem assunto e enrolando, acertaram. Principalmente porque eu
tomei umas e outras no domingo e fui para o computador e a máquina (a minha cabeça)
misturou tudo.
No artigo para a Motor Show, escrevia dizendo que o
carro do Fernando Henrique havia morrido quando ele foi para a Missa do Galo. O Galo, que
é o Atlético Mineiro e não o Cruzeiro.
No perfil da Família Cardoso, acabei dizendo que o
Tostão era pai do Natal e ainda comentei de alguns perus que o Raul (não Pelegrini) do
Cruzeiro havia tomado no Flamengo numa véspera de Natal.
Já o artigo para a revista Radar saiu sobre um time
de futebol feminino que tinha este nome nos anos 80 e falava da jogadora Maristela, que
seria uma das filhas do Fernando Henrique.
E, no Jornal da Tarde, onde deveria ter escrito um
artigo sobre a morte do peru, fui mais feliz e consegui dizer que, com a posse do novo
presidente, finalmente acabou a revolução de 64. Conclui com esta frase: a revolução
de 64 acabou definitivamente no dia primeiro de janeiro de 95. Frase que nem é minha e
sim do psiquiatra Luis Tenório de Oliveira Lima, guru do Cateno que foi um que nos anos
60, etc, etc, etc, ad nauseam.
Quanto ao peru propriamente dito, vou ter que
encomendar para a Helena, banqueteira cheia de serviços, lá de Uberaba.