Há duas semanas, escrevi aqui sobre banheiros e arquitetas. Pois uma
arquiteta, chamada Lúcia Carvalho, me mandou o texto abaixo. Na minha
crônica eu dizia que gostaria de ser arquiteto, se não fosse escritor.
Pois a Lúcia só não será escritora se não quiser.
"Eu li tua matéria sobre banheiros. Este assunto me
intriga, também sou arquiteta e fiquei pensando um pouco mais sobre isso
e resolvi te contar mais umas coisas sobre este lugar completamente
clandestino e indiscutível.
Pensa bem. Existe um grande respeito das pessoas por duas
situações. Uma delas é o banheiro. É assim. Cadê o fulano? Tá no
banheiro. Pronto. Ninguém fala mais nada, ninguém bate na porta, ninguém
atrapalha. Claro que, se o tal fulano demora, as pessoas riem um pouco,
mas um homem no banheiro é digno de respeito total. É a mesma coisa
quando alguém vai para a Europa.
Ninguém discute, sempre te cobram, te acham em qualquer
canto aqui neste país, te solicitam o dia inteirinho com trabalhos para
ontem, sempre, mas quando você fala que não pode porque vai para fora do
país, todo mundo aceita, resignado, sensato, e você fica importante.
Estar na Europa e estar no banheiro, quase a mesma coisa.
Mas o assunto, o assunto são os banheiros que hoje em dia
na nossa profissão são talvez a parte mais importante. Horas e horas de
reunião com o cliente discutindo cada detalhezinho deste lugar. Posso
estar exagerando, mas cada vez mais tem acontecido assim. Não sei o que
houve com as pessoas, sinceramente. Quando eu era menina, a gente tinha
só um banheiro em casa, fora o da empregada. Quase todas as casas eram
assim, o banheiro da família, o banheiro da empregada. A gente, às
vezes, até usava o banheiro da empregada quando precisava. Depois
inventaram que cada casa, apartamento, por mais "ovo" que fosse, tinha
que ter um lavabo. Como se as pessoas que vão te visitar não pudessem
ver o teu banheiro, como se fosse proibido, tivesse segredos por lá.
Hoje em dia, quando uma casa não tem lavabo, eu fico até
envergonhada. É tão raro entrar no banheiro dos outros que
inconscientemente eu acho aquilo meio enigmático, misterioso, fico
verificando os produtos de beleza, os shampoos, os armários, a marca da
toalha. Acho que para ver se é igual, pior ou melhor que as nossas, que
também ninguém deve ver. Não tem por quê, mas a gente acaba olhando
mesmo. Quando eu me formei, é, foi mais ou menos nesta época, que
começou a aumentar. O negócio de "quarto suíte". Quarto com banheiro,
individual, cada um tem de ter o seu, nem que seja um bebezinho. Todo
mundo queria o seu banheiro próprio, ninguém ia saber do seu cheiro, da
sua bagunça, ninguém vai usar sua pasta, nada. Era só seu e inventaram
que aquilo era o máximo. A maioria das casas de hoje em dia tem mais
privada do que gente morando, pode reparar.
Mas tinha um problema ainda naquela época. O casal. O
casal tinha de dividir o banheiro, e geralmente "o casal" significa os
"donos da casa", e os donos da casa, bem eles, os mais importantes, eles
tinham de dividir o banheiro.
Pimba! Tiveram uma idéia. O banheiro do casal ia ser
maiorzão, bem grande mesmo, com duas pias, uma para cada um. Foi assim
por muito tempo, era um grande luxo ter duas pias, uma do ladinho da
outra. Mas não estava bom, tem casal que não é tão desencanado que um
escova o dente e o outro usa a privada, assim junto. Resolveram (acho
que na verdade quem resolve e dá as idéias são mesmo os arquitetos, nós,
infelizmente) que era melhor então separar as duas pias das privadas e
bidês e chuveiros, começaram a parecer umas cabininhas com o vaso, bidê
(esse então dá o maior assunto em reunião...) e chuveiro longe das pias.
Mas um dia acharam que era melhor cada um ter o próprio
banheiro, separado.
Olha os prédios de luxo de hoje como são. Tem o banheiro
da mulher, esse geralmente tem banheira, tem cara de mulher, mármore
rosa, muito espelho, essas coisas, e do marido, austero, clássico,
menorzinho, mas separado. Na verdade, acho que a gente quando vai
projetar para uma família a gente quase que só faz banheiro. É uma
quantidade sem fim, imensa, estúpida. Se procriaram. Agora até deixam de
ser banheiros, são "salas de banho". Pois é.
Nas reformas então, nem se fala, a maioria só quer mexer
nos banheiros. Toda vez é assim: a gente vai na reunião com o casal,
moderninho, filhos, o cara já vai falando: olha, nós queremos reformar o
apartamento/casa, a reforma é a seguinte: queremos fazer um outro
banheiro para nós (a mulher já vem nesta hora com um monte de revista
recortada), queremos fazer outro banheiro para as meninas (mais
revista), queremos um banheiro para a babá, mas precisamos muito mesmo
de um para o motorista e um para o guarda na guarita nova, e, claro,
queremos reformar o lavabo (mais revista e o cara já fica bravo com a
mulher) e reformar os outros, antigos. Só banheiro? E o resto da casa,
eu pergunto? Só banheiro, o resto da casa tá ótimo, ele fala. Quando
eles acabam de falar, já tem de comprar pelo menos umas setes privadas,
cinco bidês, um monte de cubas, cada uma de um jeito, e chuveiros, e
aquele monte de revista me olhando.
Somos agora arquitetos higiênicos, é um grande símbolo de
status ter privadas em excesso, vai entender... O assunto dentro do
mundo dos arquitetos vai crescendo, é uma maluquice, não acaba nunca, as
casas daqui a pouco serão uns banheirões com umas salinhas adjacentes. E
num outro dia dei até entrevista para uma dessas revistas, só pedi para
não tirar foto, credo.
Mas o pior, o pior é que as pessoas nunca experimentam
antes, entende?
Ninguém compra privada e bidê sentando neles, eu não
entendo por quê.
Deveria sentar, claro, verificar se é cômoda, se é alta,
baixa, fina, se o posicionamento das pernas (isso no caso dos homens, em
pé) é bom, essas coisas. Mas ninguém faz, também, pensa bem, fazem uma
lojas lindas de banheiro, todas chiques, brilhantes, parecem o palácio
das mijadas (palavrinha mais feia, perdões), colocam (literalmente) os
vasos sanitários como tronos, quem tem coragem de posar de rei na frente
da vendedora-simpática-de-preto?"