"Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria
que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar".
Esta é a primeira frase do livro "O Amor é
Fodido", editado agora no Brasil pela Francisco Alves. Carlos Leal, dono da editora,
me manda o livro com um bilhete: por causa do título a mídia anda com vergonha de tocar
no assunto e os livreiros com escrúpulos de o colocar nas vitrines ou montras, como
chamaria o autor, o português Miguel Esteves Cardosos, 40 anos.
E ele explica o fodido do título logo no começo:
"Por que é que fodemos o amor? Porque não
resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta
viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem que haver escombros. Tem
de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais
feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo".
Miguel Esteves Cardoso é hoje, na minha opinião, o
melhor escritor de Portugal, anos-luzes na frente do segundo colocado. A geração
lusitana mais velha talvez prefira um melancólico e prolixo Saramago. Mas Miguel já
consquistou os mais jovens. Seus livros de crônicas atingem 20 edições. E este seu
primeiro romance já está na terceira.
Miguel tem uma vantagem sobre os demais portugueses.
Filho de mãe inglesa e pai português, estudou em Oxford. Vê, portanto, os seus
compatriotas com outro olhos. Ninguém como ele, consegue tão bem descrever a alma, a
angústia e a melancolia dos portugueses. E gozá-los.
Miguel, além de sociólogo, é jornalista. Tem um
semanário chamado Independente, que é acusado de extrema-direita. Mas não é, apesar de
Miguel ser do Partido Monarquista pelo qual se candidatou a deputado e perdeu. Pode não
ser da extrema-direita, mas se rotula um conservador. Um dia vi ele dizendo na televisão:
"sou conservador porque não quero mudar nada. Do jeito que está, está bom".
Tem também uma revista mensal, a Kapa, que é como eles chamam a letra "k". Uma
mistura da antiga Realidade, com a jovem Placar e umas pitadinhas de Istoé.
Escreve peças de teatro, é tradutor e dorme o dia
inteiro. Nunca saberemos a que horas trabalha e tanto.
Miguel Esteves Cardoso é um gênio. É a pessoa
mais lúcida deste Portugal que entrou para a CEE e começou a perder as suas origens. Mas
a pena e a cabeça de Miguel estão atentas. Ele não perde uma. Ele não perdoa, mata.
Com seu humor finíssimo, uma mistura de Bocage com Swift, ele demole a tudo e a todos.
Até a si próprio.
O cara é fodido mesmo!
O PENSAMENTO VIVO
DE MIGUEL ESTEVES CARDOSO
- Há qualquer coisa de errado na família. A
família não funciona. Sei que, como conservador, deveria defender a família. Mas não
consigo. A família é indefensável. É um equívoco. É um efeito de economia. A
família está a cdr cabo das pessoas. E das famílias.
- A morte é um nojo. Morrer é uma autêntica
vergonha. Que sentido é que faz? A vida pode não ser bonita, mas a morte é um horror.
Qual paz, qual sopa de alho porro. Qual "não tenhas medo, estás nas mãos de
Deus"! Diante da morte, o medo é a única reação sensata que se pode ter. A morte
é um atraso de vida.
- A vida pode ser difícil mas a morte é demasiado
fácil. A vida é diferente mas a morte é igual. A vida é comprida. A morte é um
instante. Da nossa vida tudo nos é pedido e esperado. Da morte ninguém exige nada. Mais
vale viver mal e errado que morrer bem a arrumado.
- Em bom português, a expressão "Estás com
boa cara" significa exactamente: "Ultimamente tens andado com má cara". A
partir de uma certa idade, a cara é muito importante. De nada interessa uma pessoa
sentir-se bem, ou estar bem, ou mesmo ser bem. Em Portugal, todos os check-ups do mundo
não valem o olhinho arguto de um transeunte que diz " Está com má cara".
- Não há nada, mas nada, mais entediante do que
ouvir alguém contar um sonho. Dá sono. Para adormecer, não há melhor. Quanto mais
esquisito o sonho, mais chato.
- Os melhores sonhos de todos são aqueles que nos
põem a pensar e a mexer. Os únicos sonhos de que vale a pena falar são os que não nos
deixam dormir.
- Voltar a Portugal é como voltar a fumar: é
maravilhoso e, ao mesmo tempo, horrível.
- Os homens são brutos e insensíveis. Matam mais
criancinhas, portam-se pior à mesa, cospem e coçam-se mais. Os homems - e sobretudo os
homens que gostam de mulheres - são menos inteligente, menos delicados e menos
civilizados que as mulheres. A única coisa que têm a favor deles, à parte certas
características discutíveis, como serem menos histéricos, é as mulheres gostarem
deles. Por que é que a mulheres gostam dos homens? Como lésbica que sou nunca entendi.
- Confesso. Não acredito em Deus. Recuso-me a ser
ateu. Quero acreditar em Deus. Faz-me falta. Faz-me mal não acreditar Nele.
- Ser filho é difícil. Mais difícil que ser pai.
É raro ouvir-se falar de um "bom filho". Por alguma razão. Os filhos são
sempre maus. Mamam e fogem. Sugam os pais até o tutano, dando-lhes cabo da paciência, da
saúde e do orçamento e quando estão anafados e nutridos, licenciados e fresquinhos,
chama-lhes senis e dão o solex à primeira oportunidade.
- O que mais notabiliza o assassino português é
já estar morto. Ou pelo menos preso. Os nossos homicidas matam-se e entregam-se mal
estejam despachados. Os assassinos estrangeiros fazem questão de continuarem vivos.
Combinam, premeditadamente, os seus crimes, planejam fugas, arranjam álibis, dão luta
aos investigadores. Os nossos, está quieto. Os assassinos estrangeiros voltão ao local
do crime: os portugueses nem sequer se dão ao trabalho de abandoná-lo.
- Nós, portugueses, somos demasiados teatrais no
dia a dia para sermos bons atores no teatro.
- Um menino é um fascista com lapsos de anjinho. É
um tirano-junior maníaco depressivo de lágrima-puxa-risota e risota-puxa-birra, com o
coração mais branquinho, a transbordar de fuligem e de maldade. É um psicopata com as
asas presas nos suspensórios.
- Se há uma coisa que os portugueses não têm à
mesa é finesse. A fineza é uma coisa que fazem. Não é coisa que tenham.
- Quando eu era garoto pensava que
"decadência" significava "cairem os dentes". Depois aprendi que não
era. Hoje descobri afinal que era verdade.