Imagine você que eu sonhei com o Santos Dumont. Duvido que você já tenha
sonhado com ele. Acordei e fiquei dando tratos à bola (como se dizia no
tempo dele) para saber por que raios o homem havia entrado no meu
subconsciente noturno. Será o fato que eu tinha de pegar um avião na
segunda-feira? Pode ser, o sonho foi no sábado. Mas eu já viajei tanto por
esses ares e nunca sonhei com o Alberto (aliás nome do meu pai. E meu:
Mario Alberto). Levantei pensando: há quanto tempo alguém não sonha com
ele? E tinha o 14-Bis e tudo no sonho. Vou até mais longe: será que alguém
já sonhou com o Santos Dumont? E o sonho se passava na França. Me lembro
muito bem da torre, do arco e do rio. E claro, daquele chapéu incrível que
ele usava.
Pois passei o domingo pesquisando. Não o sonho, mas a vida dele. E cheguei
a uma triste conclusão. Falta um livro sobre esse notável brasileiro. Um
livro de peso (mais pesado que o ar). Tem de tudo na vida dele. Além de
inventar o avião e o relógio de pulso, viveu em Paris nos melhores anos da
cidade.
Final do século 19 e começo do 20. Era mais conhecido por lá que o Guga
depois de três Roland Garros. Dava mais autógrafo que o Pelé. Ganhou uma
cadeira na Academia Brasileira de Letras e nunca foi lá. Vivia triste e
cabisbaixo.
Suicidou-se no Guarujá, depois de ajudar um garoto a empinar um papagaio
(pipa, para os cariocas) na praia. Menos de 60 anos antes, havia nascido
numa cidadezinha de Minas Gerais, hoje chamada Santos Dumont. Dizem que se
matou pois se sentia culpado por todos os bombardeios da 1.ª Guerra.
Sofria com o uso que fizeram da sua máquina que voava. Estava começando a
Revolução de 32 quando ele se matou. "Mais bombas", poderia ter pensado.
Foi para o quarto e se matou.
Mas é lá no quarto que talvez estivesse o seu grande problema. O Alberto
era homossexual e vivia com um garoto que dizia ser seu sobrinho. Talvez
até fosse. O rapazinho estava com ele na temporada, naquela autêntica
Morte em Veneza (lembra do filme?). O dândi era mesmo gay.
Talvez tenha sido por isso que ele seja quase esquecido por todos os
brasileiros e não exista nenhuma bibliografia das boas. Sim, o Brasil não
tem nenhum herói homossexual. O Brasil é um país de machos, de
cangaceiros.
Nosso mito é o Lampião, nossa heroína é a Maria Bonita, que usava belos
sapatões. Já reparou? A memória brasileira não tem espaço para quem vai
para uma praia com o jovem sobrinho.
Talvez tenha sido por isso, repito, que falta um grande livro sobre um dos
nossos maiores brasileiros.
Pensando bem, quando ainda não existia o avião, esse negócio de querer
voar devia mesmo ser coisa de bicha. Só uma bichinha mineira mesmo para
querer sair voando pelos ares, qual borboleta no cio. "Esquisito, o
Albertinho, fica pensando em voar. Esse menino tem problemas"... Sim, pois
aquele outro, aquele tal de Ícaro nunca me enganou. Era mais doido ainda,
queria voar até o Sol. Ai, meus sais!
Fica aqui um toque para os grandes historiadores do Brasil (Fernando
Morais, Eduardo Peninha Bueno, Ruy Castro e tantos outros que nunca
cursaram História e nem são homossexuais) para darem asas à imaginação e
pesquisa e debruçarem seus talentos no Alberto.
"Devido, talvez, à grande repressão que havia na época sobre os
homossexuais, Santos Dumont não era um praticante do homossexualismo. Mas
era um homossexual latente ou homossexual egodistônico, ou seja, aquele
que problematiza a sua tendência ao ponto de reprimi-la", diz Luiz Mott,
especialista em homossexuais. E vai mais longe: "Dumont era andrógino a
ponto de espantar damas da sociedade francesa. Ele não gostava de
aproximação a mulheres, o que revela uma certa misoginia."
Santos Dumont dá livro, dá filme. O maior inventor brasileiro de todos os
tempos não pode ficar esquecido só por causa de um sobrinho que talvez até
ainda esteja vivo para contar a verdade.