É natal. E todo mundo resolve mandar textos para mim, como se carente
estivesse deles. E, de ruins, bastam os meus. Não sei se são presente,
ou passados, assim-assados.
Creio que me julgam eminente e iminente crítico da arte e
ofício da escrita. A grande maioria desses textos envergonharia o Papai
Noel e o próprio pai e a mãe dos autores. Eu já pedi para você não me
mandar mais textos. Mas você insisti. Você gosta de sofrer. E de me
fazer sofrer. Antes de mandar um texto para um escritor, dê uma
olhadinha ao menos nas vírgulas, que são a respiração do leitor. Procure
saber direito como se escreve seje e se questã tem ou não trema. Menas
ousadia, pesso eu.
Mas um me chamou a atenção. Principalmente porque o autor,
um sujeito chamado Paulo von Kruger (como pseudônimo é ótimo) que já
desistiu da carreira - pelo que entendi - há muito tempo. Neste caso, o
tedesco errou. Devia continuar. Tem o mineral dom das coisas da terra.
Engenha bem o texto e seu jeitão é puro ouro branco. Autor de dois
profundos romances, tece, abaixo, dele próprio dígito, considerações
sobre os mesmos. Publico, na íntegra, suas duas obras e com seus
auto-comentários. O rapaz leva jeito. Veja:
"O casal diamante sequer suspeita que aquele rebento,
vindo à luz em 1942, o segundo, o Paulinho, EU, em pouco, deverá ser um
dos maiores escritores da literatura mundial, quiçá Prêmio Nobel de
Literatura, best-seller internacional, etc.
Minha primeira manifestação literária foi, com o fantasma
da minha iminente ida para o Grupo, ter polvilhado, com um caco de
tijolo, o terreiro lá de casa, com palavras e letras soltas, tentando
provar à mamãe que a minha ida para a escola era absolutamente
desnecessária. Já que eu era alfabetizado, freqüentar aulas , para quê?
Nesta época iniciei meu primeiro romance que, sem mais
delongas, comecei assim:
“Noite de 1928. Chovia”
Genial!!! De uma penada, eu situei a época e defini o
ambiente. Podia-se, facilmente, vislumbrar que seria um tema denso e
dramático, cercado de mistérios. Poucos são os literatos com esta
capacidade de síntese.
Como o livro já estava praticamente definido, foi-me
fácil antecipar o desfecho, que era de impacto e que eu escrevi,
textualmente, assim:
“FIM”
Exausto pelo esforço e
como já havia executado a maior parte do trabalho, (a trama entre o
início e o final do livro seria uma tarefa menor) interrompi
temporariamente a obra para um merecido descanso.
Mostrei os textos parciais para a mamãe, que apreciou
muitíssimo, mas não o suficiente para me liberar do Grupo Escolar D.
Pedro II , onde os temas muito infantis, não estavam à altura do meu
talento.
Sem desanimar, ataquei meu segundo romance.
Como o primeiro fora muito pesado, dramático, optei por um
tema mais leve. Este livro começava assim:
“Numa clara manhã de abril...”
Não foi nem necessário terminar a frase para dar a idéia
de leveza e descontração.
Trata-se ,
então, de
um
tema
ameno,
campestre,
onde o
enredo
fala de
sentimentos
nobres e
puros.
Naturalmente o
desfecho foi,
também,
cheio de
poesia:
“FIM”
Com
isto, ficou demonstrado
que o
meu
talento,
além de
excepcional e
precoce,
era diversificado.
Acho que isto impressionou a mamãe que finalmente se
sensibilizou : fui imediatamente transferido para uma instituição
escolar que levava o nome de um escritor, ou seja, um colega. Assim,
aos 8 anos, eu já estava alinhado com Homero, Alexandre Dumas, Brigitte
Bijou, Carlos Zéfiro, Mario Prata, William Thomas e outros.
Estas obras ainda não estão terminadas, o que está
privando o mundo de se deleitar com elas. Como todo escritor, lamento
isto, mas elas demandam um tempo que os leigos ignoram."
E eu, fico aqui neste espaço, aguardando mais obras de
Paulo von Kruger. Menos prolixas, é claro.
E para você, que respira toda quarta-feira as minhas
vírgulas, um Bom Natal e 2.000 vírgulas.