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Noite de 1928. Chovia.

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o estado de s. paulo

08/12/99

 


É natal. E todo mundo resolve mandar textos para mim, como se carente estivesse deles. E, de ruins, bastam os meus. Não sei se são presente, ou passados, assim-assados.

Creio que me julgam eminente e iminente crítico da arte e ofício da escrita. A grande maioria desses textos envergonharia o Papai Noel e o próprio pai e a mãe dos autores. Eu já pedi para você não me mandar mais textos. Mas você insisti. Você gosta de sofrer. E de me fazer sofrer. Antes de mandar um texto para um escritor, dê uma olhadinha ao menos nas vírgulas, que são a respiração do leitor. Procure saber direito como se escreve seje e se questã tem ou não trema. Menas ousadia, pesso eu.

Mas um me chamou a atenção. Principalmente porque o autor, um sujeito chamado Paulo von Kruger (como pseudônimo é ótimo) que já desistiu da carreira - pelo que entendi - há muito tempo. Neste caso, o tedesco errou. Devia continuar. Tem o mineral dom das coisas da terra. Engenha bem o texto e seu jeitão é puro ouro branco. Autor de dois profundos romances, tece, abaixo, dele próprio dígito, considerações sobre os mesmos. Publico, na íntegra, suas duas obras e com seus auto-comentários. O rapaz leva jeito. Veja:

"O casal  diamante sequer suspeita que aquele rebento, vindo à luz em 1942, o segundo, o Paulinho, EU, em pouco, deverá ser um dos maiores escritores da literatura mundial, quiçá Prêmio Nobel de Literatura, best-seller  internacional, etc.

Minha primeira manifestação literária foi, com o fantasma da minha iminente ida para o Grupo, ter polvilhado, com um caco de tijolo, o terreiro lá de casa, com palavras e letras soltas, tentando provar à mamãe que a minha ida para a escola era absolutamente desnecessária. Já que eu  era alfabetizado, freqüentar aulas , para quê?

Nesta época iniciei meu primeiro romance que, sem mais delongas, comecei assim:

“Noite de 1928. Chovia”

Genial!!! De uma penada, eu situei a época e defini o ambiente. Podia-se, facilmente, vislumbrar que seria um tema denso e dramático, cercado de mistérios. Poucos são os literatos com esta capacidade de síntese.

Como o livro  já estava praticamente definido, foi-me fácil antecipar o desfecho, que era de impacto e que eu escrevi, textualmente, assim:

“FIM”

Exausto pelo esforço e como já havia executado a maior parte do trabalho, (a trama entre o início e o final do livro seria uma tarefa menor) interrompi temporariamente a obra para um merecido descanso.

Mostrei os textos parciais para  a mamãe, que apreciou muitíssimo, mas não o suficiente para me liberar do Grupo Escolar D. Pedro II , onde os temas muito infantis, não estavam à altura do meu talento.

Sem desanimar, ataquei meu segundo romance.

Como o primeiro fora muito pesado, dramático, optei por um tema mais leve. Este livro começava assim:

“Numa clara manhã de abril...”

Não foi nem necessário terminar a frase para dar  a idéia  de leveza e descontração.

Trata-se , então, de um tema ameno, campestre, onde o enredo fala de sentimentos nobres e puros. Naturalmente o desfecho foi, também, cheio de poesia:

FIM

Com isto, ficou demonstrado que o meu talento, além de  excepcional e precoce, era diversificado.

Acho que isto impressionou a mamãe que finalmente se sensibilizou : fui imediatamente transferido para uma instituição escolar que levava o  nome de um escritor, ou seja, um colega. Assim, aos 8 anos, eu já estava alinhado com Homero, Alexandre Dumas, Brigitte Bijou, Carlos Zéfiro, Mario Prata, William Thomas e outros.

Estas obras ainda não estão terminadas, o que está privando o mundo de se deleitar com elas. Como todo escritor, lamento isto, mas elas demandam um  tempo que os leigos ignoram."

E eu, fico aqui neste espaço, aguardando mais obras de Paulo von Kruger. Menos prolixas, é claro.

E para você, que respira toda quarta-feira as minhas vírgulas, um Bom Natal e 2.000 vírgulas.