Página anterior

No tempo da amizade colorida

Próxima crônica

Revista de Urologia

12/10/98

 


Foi quando tudo se deu. Literalmente.

Antonio e Maria, casados, entraram de cabeça. Amizade colorida para salvar o casamento. Coisa dos anos 80.

Depois de três meses de liberdade incondicional, uma das namoradas do Antonio liga, completamente careca.

- Tou com sífilis.

Sujou.

Antonio chamou o Fabio, médico dele e primo-irmão da Maria.

- A possibilidade de você estar infecctado é de noventa por cento. E não adianta fazer exame, porque pode aparecer só daqui a uns sete meses.

E dá-lhe benzentasil. E dói.

Mas a Maria já deveria estar infectada também, é claro. Como meter uma benzetasil na mulher, assim, sem mais nem menos? Fábio pediu uns exames. Disse que estava anêmica. Apesar de todos os resultados serem exemplares. Fabio insistiu para que ela tomasse a injeção.

Reclamou, xingou muito e, de tarde, lá estava ela de bunda virada.

Antonio está olhando para ela, que reclama, no sofá. Desenvolve o seguinte raciocínio, meio espiroqueta.

- Se eu andava transando, ela também andava transando. Então ela tem que dar para o cara também. A injeção.

Depois de três horas de mal disfarçado interrogatório, Antonio não só sabia que ela andava ótima, como o nome do cara. Pior, era conhecido. Como avisar o cara que ele tinha, que ele estava com sífilis e precisava tomar aquilo e avisar todas que ele tinha transado, etecétera, etecétera?

Mais raciocínio.

- Eu não tenho coragem de contar pra ela. Trair, tudo bem, mas pegar sífilis? E transmitir pra ela? E ela transmitir para o Sergio? Logo o Sérgio, meu Deus. Porisso que ela trouxe aquele quadro dele. Danada.

Resolveu que ele mesmo ia falar com o comborço. Afinal, somos todos modernos. Pode sair porrada, pensou. A gente nunca é tão moderno assim. Mas a enroscada estava armada. O Sergio tinha que tomar a injeção. Senão, o virus voltava para o Antonio e essa pirâmide nunca mais ia acabar.

- São Paulo vai ficar, inteirinha, sifilítica. E eu vou andar pelas ruas e, vendo todo mundo com sífilis, vou comentar comigo mesmo: fui eu que fiz! Fui eu que fiz isso!

Marcou um encontro. Levou os dois vidrinhos de benzetasil no bolso. Presente de corno, pensou.

Um ano depois, Antonio fez o exame. Não estava e nem nunca esteve com sífilis. Nem ele, nem a Maria, nem o Sergio. Nem ninguém.

Antonio e Sergio moram hoje, juntos e muito felizes, em Maresia.

Maria? Sei dela, não.