Uberaba Você já viu alguém ter uma convulsão na
sua frente? É mais ou menos primo de um ataque de epilepsia.
Meu pai, médico aposentado, aos 87 anos (mais novo que o
doutor Lídio Toledo, portanto), quando soube, aqui de Minas Gerais, que o Ronaldinho
entrara em campo cinco horas depois de uma convulsão, com ordem médica, disse, lúcido e
abismado:
No meu tempo de medicina isso dava cadeia!
Provavelmente o doutor Lídio (da, ou pertencente ou
relativo à Lídia, Ásia Menor, país a que se atribui a invenção da cunhagem da moeda)
não vai ser preso, mesmo porque ainda tem umas quatro ou cinco Copas pela frente. Nem o
Zagallos e muito menos o sogro dele, o senhor Ricardo Teixeira.
No dia seguinte à convulsão, eis que ele, o atleta, ainda
com cara de enjôo, reúne a imprensa e diz:
Perdi a Copa, mas ganhei a vida.
Pelo que eu entendi, o negócio deve ter sido grave, pois
ele achou que ia morrer. O que ninguém deve ter dito para ele é que ele poderia morrer
era lá, dentro do campo, diante do gandula zangado, o Zagallos.
O doutor Lídio disse ainda que foi o stress que levou o
garoto à convulsão. Não sei até que ponto o médico entende de convulsão, mas de Copa
entende bem, afinal é o médico da Seleção desde a Copa de 1930. Meu pai disse que no
tempo dele não tinha esse negócio de stress, não. Todo mundo era macho.
Não me interessa mais se foi mesmo uma convulsão, se ele
amarelou, se ele azulou, se ele vomitou, se ele tremeu, se ele rebolou, se ele se borrou,
se ele não dormiu, se ele chorou, se ele broxou, se ele comburçou, se ele desmaiou, se
ele nikeou. Parece que foi um pouco de cada coisa. O que interessa é que ele não jogou
futebol domingo passado (se é que vinha jogando). E o Zagallos não tinha reserva
para ele. Não levou. Achou que não precisava. Estava mais preocupado em se defender (em
todos os sentidos). Antes que eu me esqueça: você sabia que a nossa Seleção foi a mais
vazada do campeonato, com dez gols?
Voltemos ao Ronaldinho. Demorou para acontecer (seja lá o
que foi) o que aconteceu. Tente imaginar o seguinte:
era um garoto que, como eu, amava os Beatles e os
Rolling Stones e jogava pelada (quase pelado) num subúrbio do Rio.
era um garoto que, aos 16 anos, já fazia cinco gols
numa partida pelo Cruzeiro e começou a ganhar cruzeiros novos. Muitos. Colocou aparelho
nos dentes e comprou um carrão mesmo não tendo carta.
era um garoto que, com 17, foi para Amsterdã com
suas loiras maravilhosas e seus gols anarquizantes. E virou tetracampeão do mundo.
com 18, conquista a Espanha, qual Colombo.
com 20, invade a Itália.
com 21 não tem mais noção de quanto ganha por
minuto. Quando vai dormir, sabe que vai acordar mais rico, muito mais rico. Quanto será
que vale cada perna daquelas? O seguro para ele entrar em campo contra a França foi de
US$ 58 milhões. Vinte e nove em cada perna.
todas as loirinhas do mundo querendo dar para ele.
Ele procura, na medida do possível, driblar e golear o problema. Escolhe uma para noiva.
Boatos correm pelos bulevares franceses.
vende os pés e a alma para fabricantes de tênis
nem tão bons assim. Quem pensa na vida dele são dois empresários que nunca foram amigos
de infância.
é eleito, duas vezes seguidas, o melhor jogador do
mundo. Dando de goleada nos segundos colocados.
ele não pode mais sair à rua. Em nenhum lugar do
mundo. Agora pára de ler um pouquinho e pensa como deveria estar a cabeça dele ao chegar
a Paris. O doutor Lídio sempre se preocupou com o joelhinho dele. Com a cabeça, ninguém
teve cabeça para isso. Zagallo não deve nem saber que existe uma ciência chamada
psicologia. Para ele, militar agora na reserva, psicologia deve ser coisa de viado, algo
ligado a piço, pissirico.
Cinco horas antes de dele entrar em campo e ter que dar o
título para o Brasil, ter que mostrar por que é o melhor do mundo, o mais bonito, o mais
gostoso, o mais rico, ter que marcar dois gols para ser o artilheiro deste decadente fim
de século. Cinco horas antes, ele desmoronou, ruiu, implodiu sem levantar a poeira e dar
a volta olímpica por cima. Ele sabia, cinco horas antes, que 1,2 bilhão de pessoas, do
Oiapoque a Pequim, estava de olho nele.
Absolutamente natural, normal para um garoto de 21 anos
que, até então, nada tinha lhe subido à cabeça. De repente subiu, de uma só vez.
Queimou uma válvula e ele não tinha nenhuma outra válvula de escape.
"Parla!", perdão, "joga!"
E o presidente do Brasil recebe a todos de braços abertos,
em mais um passo na sua convulsão, perdão mais uma vez, compulsão para ser Luiz XIV.
Será que não vai pintar nenhuma guilhotina? Ou foi só a
cabeça do Ronaldô que rolou?
(em tempo: o Zagallos e o Zicartola sempre afirmaram
que o Ronaldo tem que estar em campo porque ele, sozinho, pode desequilibrar uma partida.
Eles, como sempre, estavam certos.)