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NEM TODOS VIRAM O NOSSO TETRA

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o estado de s. paulo

1994

 


Depois de passar 41 dias fora do Brasil a gente se assusta um pouco, na volta, com o que anda acontecendo aqui na terrinha. Cheguei cedo, dormi, liguei a televisão de noite nos noticiários.

- A Seleção que conquistou a Copa, sentiu-se no direito de trazer, na bagagem a Cozinha também. E deixaram, é claro. Acho que o Itamar perdeu uma boa oportunidade de não ficar calado.

- Um outro pretendente a vice, o Bisol, dizendo que "naquele tempo" podia. Acho que ele perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. E continua vice, não é mesmo? Será que vice pode?

- Quércia, tentando explicar, na porrada, a conta bancária e dizendo que está eleito.

- Nevou em Curitiba.

- Fiz o meu primeiro cheque para pagar a gasolina e escrevi vinte mil reais. Fui avisado a tempo.

- Três empresários foram presos. Mas já foram soltos, é claro.

- Dona Elma morreu. Pensei nos filhos deles, inocentes, talvez agora as únicas verdadeiras vítimas de toda a corrupção que assola este país há tantos anos. Será que só os dois serão punidos?

- O Enéas já tem 4 por cento em alguns Estados. E a barba dele está crescendo cada vez mais.

- Meu Deus, como o Cid Moreira envelheceu!

- Mataram o prefeito de São Roque.

- Mataram um publicitário, bestamente numa lanchonete.

- Itamar manda Menen pedir desculpas não sei do que. Não fiquei sabendo se pediu.

- Acidente na Dutra, como sempre, deixa vários mortos.

E, por falar em mortos, alguns brasileiros morreram durante a campanha do tetra e não receberam nem a copa nem a cozinha. Mas dois deles, em particular, me abalaram. Uma amiga e um amigo. E ambos gostavam do futebol e, mais do que isso, do Brasil. E de viver. Viver alegremente. Ambos, bons de copo, mesa e cama.

Minha amiga Miriam Batucada, por exemplo, foi achada morta. Diz a perícia que estava caída ao lado da cama há uns vinte dias. E não sabiam a causa da morte. Será que ela assistiu apenas os jogos eliminatórios? Será que foi o sofrimento do jogo contra os Estados Unidos? Até que ponto ela batucou sozinha no seu quarto junto com a ginga do Romário?

Quanto a causa da morte dela, senhores peritos, não será necessária nenhuma autópsia. Uma pessoa que fica morta durante vinte dias sem que ninguém descubra, é porque esta pessoa vivia na mais absoluta solidão. Uma solidão que foi sendo imposta a ela pouco a pouco por todos nós brasileiros que fomos nos esquecendo das alegrias que ela nos dava batucando com as mãos, desde o auge da Record, nos bons anos sessenta. Deixamos a Miriam sozinha, batucando no chuveiro e ela resolveu ir embora, batucar junto aos anjos, sem ao menos gritar tetracampeão. Mas ela foi uma campeã brasileira na sua arte. Provavelmente no mundo todo não exista uma mulher que tire um samba nas mãos como ela fazia.

Outro que não viu o tetra foi o Maurilo. Este vocês não conhecem. O pessoal de teatro talvez se lembre dele. Montou em 58, no Rio, o musical Peguei Um Ita no Norte. O fracasso - não por culpa dele, mas isso é outra história - fez com que ele voltasse para Uberaba para cuidar de um Cartório. Ele não fazia batucadas com a mão, mas sim com os dedos. Escrevia bem, o danado.

Maurilo morreu aos 70 anos, era jornalista, escritor e boêmio. Influenciado por ele, comecei a escrever ainda garoto. O Maurilo era meu tio, irmão da minha mãe.

Quando a Bulgária começou a fazer sucesso na Copa, alguns jornalistas, lá em São Francisco, se lembraram do Púcaro Búlgaro, antológico romance do pouco lembrado Campos de Carvalho, também meu tio, primo do Maurilo. E eu fiquei numa mesa, lá num boteco do cais, a falar dos parentes ilustres (Waltinho) Campos de Carvalho e Maurilo. Era domingo. Naquele momento, o Maurilo estava morrendo em Uberaba.

Deixou um testamento. Para mim, todos os seus livros, uma biblioteca interessante, especializada em teatro mundial. Tem muita coisa boa ali para ser lida.

Vou ficar por aqui, com o tetra na cabeça, lendo os livros do Maurilo, ouvindo as mãos pesadas e sensíveis da Miriam Batucada batucando nos meus ouvidos e no meu peito.