Depois de passar 41 dias fora do Brasil a gente se
assusta um pouco, na volta, com o que anda acontecendo aqui na terrinha. Cheguei cedo,
dormi, liguei a televisão de noite nos noticiários.
- A Seleção que conquistou a Copa, sentiu-se no
direito de trazer, na bagagem a Cozinha também. E deixaram, é claro. Acho que o Itamar
perdeu uma boa oportunidade de não ficar calado.
- Um outro pretendente a vice, o Bisol, dizendo que
"naquele tempo" podia. Acho que ele perdeu uma boa oportunidade de ficar calado.
E continua vice, não é mesmo? Será que vice pode?
- Quércia, tentando explicar, na porrada, a conta
bancária e dizendo que está eleito.
- Nevou em Curitiba.
- Fiz o meu primeiro cheque para pagar a gasolina e
escrevi vinte mil reais. Fui avisado a tempo.
- Três empresários foram presos. Mas já foram
soltos, é claro.
- Dona Elma morreu. Pensei nos filhos deles,
inocentes, talvez agora as únicas verdadeiras vítimas de toda a corrupção que assola
este país há tantos anos. Será que só os dois serão punidos?
- O Enéas já tem 4 por cento em alguns Estados. E
a barba dele está crescendo cada vez mais.
- Meu Deus, como o Cid Moreira envelheceu!
- Mataram o prefeito de São Roque.
- Mataram um publicitário, bestamente numa
lanchonete.
- Itamar manda Menen pedir desculpas não sei do
que. Não fiquei sabendo se pediu.
- Acidente na Dutra, como sempre, deixa vários
mortos.
E, por falar em mortos, alguns brasileiros morreram
durante a campanha do tetra e não receberam nem a copa nem a cozinha. Mas dois deles, em
particular, me abalaram. Uma amiga e um amigo. E ambos gostavam do futebol e, mais do que
isso, do Brasil. E de viver. Viver alegremente. Ambos, bons de copo, mesa e cama.
Minha amiga Miriam Batucada, por exemplo, foi achada
morta. Diz a perícia que estava caída ao lado da cama há uns vinte dias. E não sabiam
a causa da morte. Será que ela assistiu apenas os jogos eliminatórios? Será que foi o
sofrimento do jogo contra os Estados Unidos? Até que ponto ela batucou sozinha no seu
quarto junto com a ginga do Romário?
Quanto a causa da morte dela, senhores peritos, não
será necessária nenhuma autópsia. Uma pessoa que fica morta durante vinte dias sem que
ninguém descubra, é porque esta pessoa vivia na mais absoluta solidão. Uma solidão que
foi sendo imposta a ela pouco a pouco por todos nós brasileiros que fomos nos esquecendo
das alegrias que ela nos dava batucando com as mãos, desde o auge da Record, nos bons
anos sessenta. Deixamos a Miriam sozinha, batucando no chuveiro e ela resolveu ir embora,
batucar junto aos anjos, sem ao menos gritar tetracampeão. Mas ela foi uma campeã
brasileira na sua arte. Provavelmente no mundo todo não exista uma mulher que tire um
samba nas mãos como ela fazia.
Outro que não viu o tetra foi o Maurilo. Este
vocês não conhecem. O pessoal de teatro talvez se lembre dele. Montou em 58, no Rio, o
musical Peguei Um Ita no Norte. O fracasso - não por culpa dele, mas isso é outra
história - fez com que ele voltasse para Uberaba para cuidar de um Cartório. Ele não
fazia batucadas com a mão, mas sim com os dedos. Escrevia bem, o danado.
Maurilo morreu aos 70 anos, era jornalista, escritor
e boêmio. Influenciado por ele, comecei a escrever ainda garoto. O Maurilo era meu tio,
irmão da minha mãe.
Quando a Bulgária começou a fazer sucesso na Copa,
alguns jornalistas, lá em São Francisco, se lembraram do Púcaro Búlgaro, antológico
romance do pouco lembrado Campos de Carvalho, também meu tio, primo do Maurilo. E eu
fiquei numa mesa, lá num boteco do cais, a falar dos parentes ilustres (Waltinho) Campos
de Carvalho e Maurilo. Era domingo. Naquele momento, o Maurilo estava morrendo em Uberaba.
Deixou um testamento. Para mim, todos os seus
livros, uma biblioteca interessante, especializada em teatro mundial. Tem muita coisa boa
ali para ser lida.
Vou ficar por aqui, com o tetra na cabeça, lendo os
livros do Maurilo, ouvindo as mãos pesadas e sensíveis da Miriam Batucada batucando nos
meus ouvidos e no meu peito.