Meu
pai, doutor Prata para os pacientes e Bertinho para os familiares, tem uma memória
extraordinária, mesmo aos 85 anos.
Forte
com um touro, coração mole de mineiro ainda, ainda é capaz de citar de cor o
nome de toda a sua turma do Tiro de Guerra, feito em 1930. Pelo nome e pelo
apelido.
Mas
tem uma história que eu conto dele e ele sempre diz que eu inventei. Já
escrevi esta história na revista da Goodyear, quando liderada pelo meu querido
Geraldo Mayrink.
Meu
pai, a essa altura da crônica já deve estar me telefonando, para me desmentir.
Mas, no fundo, ele sabe que é verdade.
É
o seguinte: o papai era Delegado Regional de Saúde de Lins, nos anos cinquenta.
Durante um tempo ele acumulou o cargo, dirigindo também a Regional de Bauru. E
foi lá que tudo se deu.
Tinha
lá um contínuo simpático, forte, crioulo, com uns trinta e poucos anos.
Ex-jogador de futebol do BAC (Bauru Atlético Clube). Era o seu Dondinho que
servia cafezinho para o meu pai e visitantes. Ainda garoto, várias vezes fui
com o meu pai até Bauru. Cafezinho para o meu pai e água para mim.
A
história voltou à minha cabeça assim que ouviu, no rádio, da morte do
Dondinho que, aliás, trabalhou até se aposentar como funcionário da
Secretaria da Saúde, em Santos.
Pois
um dia o Dondinho, que adorava o meu pai e sempre pedia conselhos para ele,
chegou com a duvida:
-
Doutor Prata, o Waldemar de Brito quer levar o meu Edinho para treinar no
Palmeiras.
Edinho
seria, depois, o Pelé. Isso você já percebeu. Mas na hora o jovem Prata não
acreditava no poder do futebol.
-
Olha Dondinho, o menino ainda está com 14 anos. Deixa ele terminar pelo menos o
ginasial. Você sabe muito bem que futebol não dá camisa para ninguém.
Tenho
a impressão que o Dondinho, naquele dia, foi em dúvida para casa. Deve ter
conversado com a dona Celeste (que eu viria a conhecer três anos depois quando
Pelé voltou a Bauru, dezessete anos, campeão do mundo e já usando camisa
européia).
Entre
o conselho do chefe e a esperança do filho realizar o que ele não havia
conseguido por uma perna quebrada, ficou com a segunda intuição.
O
resto você (e o mundo inteiro) sabe o que aconteceu.
Nunca
deixei de imaginar como seria se Dondinho tivesse ouvido o seu chefe. Impossível
imaginar o futebol brasileiro (e o próprio brasileiro) sem o filho do seu
Dondinho, que fazia um café muito do gostoso. Até o mundo seria diferente.
Pare
um pouco e pense nisso. Tente imaginar o Brasil e o mundo sem o Atleta do Século.
Acho que nem a Xuxa existiria.
Fico
a imaginar se o chefe do pai do Papa o aconselhasse a não deixar o filho ir
para o seminário.
-
Vai acabar viranndo vigário de uma cidadezinha pobre da Polônia. Não vai
longe, não.
Fico
imaginando se o chefe do pai do Fidel Castro dissesse para ele:
-
Olha, o melhor mesmo é deixar o seu filho estudando Economia nos Estados
Unidos. Lá ele vai ter futuro.
E
por falar em futuro industrial, lá na Austria, temos uma outra Linz. É uma
cidade feia, cinzenta, cheia de operários.
-
Esse menino só pensa em raça ariana Herr Hitler. Melhor tirar ele do exército
que ele pode acabar fazendo alguma besteira.
E
se aqueles outros quatro chefes metalúgicos de Liverpool convencessem aqueles
quatro operários que tocar numa boate chamada Caverna não daria futuro para
ninguém?
-
Melhor colocar logo o menino na fábrica, mister Lennon. Cortar o cabelo dele,
tirar os piolhos e colocar no batente.
Estou
esperando o seu telefonema, Bertinho. E olha que hoje eu não contei nem a sua
história com o Mário Palmério, nem com o Assis Valente.
Fica
para outro dia.