- Esta edição será toda dedicada ao Natal. Então faça uma
crônica que fale de Natal, E de carro, naturalmente.
Era o Walter Arrudar, Chefe de Redação desta
revista que você acabou de ler, que estava do outro lado da linha, simpático mas
incisivo, pronto, direto, sem rodeios.
Juro que eu fiquei uns dias tentando bolar uma
crônica para você ler agora, que juntasse Natal e carro. Sobre Natal, várias idéias.
Sobre carros, infinitas Mas juntar as duas coisas... O único carro ligado ao Natal é o
trenó do Papai Noel com aquelas renas viadas. Mas isso o Walter não queria. Ligo para
ele, e ele insiste:
- Conta aquela história do cara que estava com a
sogra, a sogra morreu, ele colocou a sogra no porta-mala para levar para a cidade da
esposa e no caminho o carro foi roubado, levando a sogra.
- Mas onde é que entra o Natal?
- Fala era era Natal, ué!
Não gostei. Pensei mais uns dias, tinha outras
idéias:
- E se eu escrevesse uma crônica comentando os
carros importados na festa de Natal e 90 anos do Roberto Marinho? Talvez uma analogia com
a idade dele, os primeiros carros que chegaram no Brasil e os importados de hoje?
- Tu tá é a fim de levantar a bola da Globo. Pensa
noutra coisa. Até segunda, no máximo.
Maldade dele, para estragar o meu fim de semana.
Lembrei que tinha uma crônica de reserva com ele. Sobre o meu Renault Twingo que solta
pum.
- Vamos deixar essa para as férias. Não fica bem
falar em pum no Natal. Natal é alegria, confraternização.
- Sim, retruco eu, mas no Natal, com aquelas ceias
todas, todo mundo solta pum.
- Mario, essa revista é sobre carros e motos.
Problemas intestinais você escreva na revista da Unimed. Fala com a Cartaz Editorial.
Já estamos no domingo e nada. Ainda arroto a
feijoada de sábado, entalada em algum lugar do meu intestino. Não consigo deixar de
pensar em assuntos intestinais.
Carro e Natal. Não vai dar.
Agora já é segunda-feira, de manhã. Nada. Começo
a pensar besteiras: Papai Noel numa Ferrari disputando a Fórmula Um, num carro com 300
renas com capacetes e turbos. Ele não vai gostar. Ligo para ele:
- Tive uma idéia genial!
- Fala de Natal e carro?
Desligo.
Me lembro de uma história do Machado de Assis. Ele
havia acabado de escrever um conto e não tinha título. Estava a dizer isso para o
barbeiro dele. O barbeiro perguntou:
- Fala de violinos?
- Não.
- Fala de bandolim?
- Também não.
E o barbeiro, afiando a barba do velho Machado,
detonou:
- Então. Coloque o título "Nem violinos, nem
bandolins".
Dizem que o Machado adorou a idéia. Mas deve ser
mentira, porque não conheço nenhum conto, nem crônica dele, com esse título. Mas pode
ser uma solução.
Segunda-feira de tarde. Toca o telefone. Deve ser a
Simone, a secretária do Arruda, pedindo o fax com a crônica. Não atendo. Fico ouvindo a
secretária eletrônica. Mas a voz é de homem:
- Mário, aqui é do Posto Shell de Lins. Lembra
daqueles bônus para concorrer a um CARRO NO NATAL? Você ganhou o Logus, cara! Você tem
o comprovante, não tem?
Agora é segunda-feira de noite. E eu não acho o
comprovante. Onde foi que eu coloquei o comprovante, meu Deus? O telefone toca. Deve ser o
Walter Arruda.