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Nas curvas da estrada de Promissão

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o estado de s. paulo

 

 


O caso do litigiosíssimo desquite do doutor Mosca e da dona Santinha, lá de Lins, há uns 40 anos.

Naquele tempo, não havia motéis. Por sorte, a indústria automobilística chegou ao Brasil ao mesmo tempo da liberação sexual. Corriam os anos 50. Sim, os anos 50 e 60 corriam paralelamente aos Aero Willys e Simca Chambords. E a sexualidade do brasileiro começa a ser colocada, literalmente, para fora.

O carro era, naquele tempo, não apenas um meio de locomoção de um lado para outro. Outras locomoções eram praticadas quando as quatro rodas paravam. O carro era o motel! Até mesmo o velho Fusquinha servia. Colocavam-se os pés das incautas naquele negócio de segurar e colocar as mãos que ficavam pendurados dos dois lados internos do carrinho e as moças ficavam lá, feito frango de vitrine.

E foi por causa de um carro-motel que o doutor Mosca se deu mal. Formavam um casal exemplar na pequena Lins, os Moscas. Ele era até presidente do Rotary local. Já era avô, o doutor Mosca, quando o caso se deu. E deu no que deu.

O doutor Mosca gostava, vez ou outra, depois de deixar o seu estetoscópio de lado, de auscultar outros corações. Gostava de biscatear, como se dizia no interior. Biscates eram mocinhas (às vezes, nem tão mocinhas assim) que ficavam nas ruas da cidade à espera de alguém de carro para soturnos passeios noturnos. Já disse que não havia motéis naquele tempo. Pegavam-se as moças e ia-se para as estradas. E foi naquela noite que começou o pesadelo da família Mosca.

O doutor Mosca pegou a Lindeza (que biscateava junto com a irmã Beleza) e foi para a estrada asfaltada de Promissão. Lá, tinha uma quebrada de terra que todo mundo conhecia. Não levava a lugar algum, antes a uma espécie de arena no meio das árvores, ótima para esses tipos de devaneios.

O doutor Mosca chegou, desceu com a Lindeza, tiraram a roupa e estavam ali no bem-bom quando surge lá do outro lado, na estrada asfaltada, outro carro. O presidente do Rotary local vestiu correndo suas roupas, manobrou o carro debaixo da chuvinha leve que caía. Nisso, o carro que vinha entrando percebe que o quarto já estava ocupado, desiste e vai embora. O doutor Mosca manobra de novo, tira a roupa e faz o seu diagnóstico com a Lindeza. Isto posto, vestem-se de novo e ele vai para a sua casa, passando antes pelo Bar do Mário para uma última cerveja.

Chega em casa, dona Santinha já no décimo sono, penetra debaixo dos lençóis e dorme sonhando com as curvas da estrada de Promissão.

Manhã bem cedinho, ele é sobressaltadamente acordado pelo convulsivo choramingar da dona Santinha:

—Aonde foi que o senhor foi ontem à noite?

—No Bar do Mário, criatura...

—Ah, é? E como é que o senhor me explica isto aqui?

Foi então que o doutor Mosca abriu melhor os olhos e viu a prova do crime estendida nas mãos trêmulas da dedicada esposa: sua cueca, enorme e branca como deviam ser todas as cuecas, com a marca de um pneu. Inapelável.

Foi então que ele entendeu tudo. Na primeira vez que manobrara o carro, havia se esquecido de vestir a cueca que ficou no chão molhado e ele passou com o carro por cima dela. E agora ela estava ali, sob o testemunho do sol forte que penetrava pela janela, nítida e transversalmente assinalada com a marca da Fyrestone.