Pelo menos quando disse que "carro brasileiro
parece carroça", o Collor acertou.
Depois de viver dois anos na Europa, retornando e
acostumado com as máquinas européias, resolvi comprar um carro francês aqui. Escolhi o
mais barato, um Renault, aquele pequenininho que parece uma baratinha com olheiras, o
Twingo.
O carro é realmente maravilhoso. Econômico na
cidade e na estrada, imenso por dentro, por mais incrível que pareça. Silencioso como um
Rolls Royce. Um sucesso, o meu Twingo bordô.
Mas logo descobri, estupefato, o seu único defeito:
ele peida. O leitor me desculpe a palavra, gorda e sonora, mas só ela para expressar o
que o meu Twingo começou a fazer logo no primeiro dia. Peidar. E fedido. Muito fedido.
Não é sonoro o gás que ele solta, o que é muito pior. Ele peida em silêncio,
traiçoeiramente. E como fede. Um dia ele cometeu tal disparate na garagem do meu prédio
e o cheiro subiu pelos elevadores, comigo dentro. Como explicar que não tinha sido eu,
para a gorda do 202?
Fui até a revendedora, todo constrangido, como quem
leva um filho ao psicólogo, explicar o desarranjo intestinal do meu pequeno francês. O
funcionário me recebeu muito educadamente e eu nem sabia como colocar o problema para
ele. Mas tinha que fazê-lo:
- É o seguinte. O meu carro... sabe?, ele... ele...
- Peida!, disse o mecânico.
Pois é isso aí. Aí ele me explicou que era pela
ignição eletrônica. O problema era no catalizador. Todos os carros estavam com aquele
probleminha.
- Probleminha? Mas eu não posso andar aí pela
cidade com o carro a soltar pum toda vez que eu o desligo.
- Ele ainda está novinho. Com o tempo passa, o
senhor vai ver.
Coisa de criança mal educada, eu pensei.
A partir dai, eu tinha que explicar para todo mundo
que entrava no meu carro, que o problema, que aquele cheiro, era dele e não meu. Tinha
gente que não acreditava. As moças, principalmente. Minha filha, por exemplo, morria de
vergonha e logo ia explicando para as amigas, antes mesmo de eu dar a partida e a
situação constrangedora surgir.
Ele era sistemático. Tinha as horas certas para
soltar o mau cheiro. Era, principalmente, quando eu parava. Nos sinais, por exemplo. E, as
pessoas passavam por trás, olhando para a arrebitada traseira dele já com o dedo no
nariz. Vocês já perceberam como o brasileiro olha para o traseiro dos carros importados
como se olhassem para a bunda de uma mulher? Quase que têm orgasmos.
Pouco a pouco, eu fui me acostumando com os traques
do meu Twingo. Foi ficando normal, aquilo. Natural. Quando ele deixava de peidar, eu
sentia a falta do cheiro. Chegou um momento que eu quase pedia para ele fazer aquilo.
Foram os meus filhos que me chamaram a atenção: pai, ele não peida mais? Não. Só
muito raramente. E não é que agora ele parou de vez com as traquinagens? Agora eu não
tenho mais desculpas. Se não foi ele, fui eu.