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Não era nada disso

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o estado de s. paulo

11/07/2001

 


Imagine você que, na quinta-feira (da semana passada), eu recebo um e-mail da Glorinha do Estadão, me dizendo para mandar o assunto da próxima semana (hoje) na sexta, que agora ia ter ("além da carinha") uma ilustração.

Pensei logo em mandar dizer que o tema era "não era nada disso" para ver como o ilustrador iria se virar. Estou escrevendo isto sem saber quem é o ilustrador.

Estou dizendo isso tudo porque a moça me pegou de repente. Meu dia de pensar neste espaço aqui é sábado e domingo. Na quinta é muito antes e a idéia vai murchando.

Foi agora que eu olhei para fora e vi o pôr-do-sol. Roxo (a ilustração tem cores?), foi a primeira coisa que pensei. Porque este roxo aqui vai ser difícil.

Mas eu não queria falar sobre o meu fim de semana olhando para o mar. Por isso é que o título é "não era nada disso".

Mas não dá para não falar. Eu estava me segurando, numa boa. Mas me pedem a coisa assim em cima da hora e eu fui olhar pela janela.

É para você ficar roxo de inveja. Antes, passei num boteco chamado Box 32, num lugar chamado Mercado. Sim, porque nos outros lugares existem super e hipermercados. Mercado, como o de hoje onde eu tomei um vinho com a Luciana e o Joaquim, não tem mais. E, se os velhos botecos de antigamente tivessem evoluído no rumo certo, seriam todos como o 32 e os outros todos que têm no tal do Mercado.

A rodovia que me trás de lá para a minha casa, não tem nenhum buraco e nenhuma (o que é pior!) ondinha. E olha que são uns trinta quilômetros. Ou seja, uma rua como deveriam ser todas as ruas do Brasill, Marta.

Joguei uns gravetos numa fogueirinha que a Luciana estava fazendo com o Joaquim - na praia - e fiquei olhando para um casal de pescadores.

Estou dizendo isto porque estou pensando em ficar por aqui um tempo e importar amigos, amigas e família.

Não que eu esteja milionário. Nem rico. É que fiz um comercial para uma companhia aérea e ganhei umas passagens de ida e volta Floripa-São Paulo. E pretendo, no lugar de ir tantas vezes para São Paulo, trazer as pessoas para ver o pôr-do-sol roxo.

Debaixo do roxo, a montanha do continente. Debaixo da montanha, as nuvens (eu disse abaixo das montanhas). Perto das nuvens, a cidade. Saindo da cidade, o mar. Eu sempre achei que o mar sai das cidades. Aliás, sai, pois são os rios que enchem o mar e não o contrário. Jamais saberemos o momento exato em que a água fica salgada. Mas fica, é inevitável. E o roxo, batendo na água do mar, fica de um prateado - com está agora - lunar.

Acho que estou falando isso tudo para pirar de vez o ilustrador.

Meu medo é na terça (ontem) a Glorinha me ligar e dizer que não vai ter ilustração, portanto esta crônica não tem o menor sentido. E eu ter que fazer outra, correndo.

Mas eu ainda não falei do barulho do mar que entra aqui. Nunca a palavra acalento me sorriu tanto.

Mas nada disso é tão importante como comprar os jornais de São Paulo todo dia. E não ler. Quando soube que a Marta estava tendo alta pelos jornais, achei que era notícia velha. Já a daqui, da Ângela, pouco se fala, pois as coisas continuam rolando numa boa.

Agora estou a imaginar que o ilustrador pode fazer o trabalho dele em cima do rosto da nossa prefeita. E da Ângela. Só não vale colocar a ponte Hercílio Luz. Mesmo porque ela anda meio apagada à noite. Apesar de aqui não precisar de racionamento.

Outra coisa que não me contaram é o tamanho que a crônica agora tem de ter.

Agora já não sei se escrevi demais ou de menos.

Melhor parar, mesmo porque já escureceu e eu vou abrir uma garrafa de vinho com a Luciana e depois vamos comer carne no Churrasco ao Vivo.

Meu querido ilustrador: não vá me fazer uns espetos na grelha, por favor.