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Na terra da Priscila

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o estado de s. paulo

06/06/2001

 


Estou numa ilha. Daqui, eu vejo o Brasil a trinta quilômetros. Um pouquinho de um calmo mar nos separa.

João Gilberto está "cantando, eu mando a tristeza embora". O mar está verde e as ondas macias. Gaivotas rondando minha janela. O céu está de um azul gritante.

Mas a minha cabeça está em São Paulo. É domingo, a nossa prefeita está sendo operada neste momento. Penso nela. A Marta é a minha última esperança para a cidade onde eu moro há mais de trinta anos.

Aqui, nesta ilha de Santa Catarina, me lembro de São Paulo dos anos 60. O pensamento é até meio hippie. Quase uma viagem. Naquele tempo as ruas eram lisinhas, o centro da cidade era o máximo. Aqueles bares na calçada da Avenida São Luís. Aqueles cinemas enormes. Tinha um, no Largo Paissandu, onde havia até um pianista - ao vivo - entre uma sessão e outra. Não precisava dar gorjeta para ninguém cuidar do seu carro. Nem da sua vida.

As famílias, como aqui na ilha, ficavam nas portas das casas tricotando à noite. Tinha uns bailes, como ao que eu fui ontem com o Celso Nunes (morando aqui há sete anos) ver uma certa Priscila (qual Tiazinha, qual nada!) cantar música sertaneja local. Senhoras dançando com senhoras. Quer coisa mais pura do que isto?

Os jornais da ilha trazem poucos - muito poucos mesmo - crimes. Assaltos, roubos, quase nada. Como São Paulo, há trinta anos.

Se você acha que eu estou dizendo que a ilha está atrasada 30 anos, eu me expliquei mal. O que eu quero dizer é que aqui ninguém tem a mania desenfreada dos paulistanos de virar Primeiro Mundo. São Paulo não pode parar, dizia o pefeito de São Paulo há 40 anos. Deu no que deu. A cidade extrapolou-se.

O pior é que, morando em São Paulo, a gente fica com a errônea impressão de que o Brasil todo está esse caos daí. Sair de São Paulo hoje em dia é entrar no verdadeiro Brasil. Nos últimos anos tenho ido a Salvador, Goiânia, Londrina e acabei caindo na rede daqui. O Brasil vai bem, gente. O problema é aí com a nossa cidade.

Por isso estou aqui pensando na minha amiga (e ex-parceira teatral) prefeita. O que São Paulo está precisando é mesmo de uma dona de casa. Dona de casa e psicóloga. E honesta. Há quarenta anos nossos prefeitos sempre olharam para o próprio umbigo e para a conta (deles) no banco.

Aqui na ilha, na fila do supermercado ou do banco, as pessoas ficam conversando entre elas. Sorrindo. Sem pressa. Ah, a ilha pode parar. As pessoas não estão correndo atrás delas mesmas. Já se acharam. No trânsito ninguém buzina para o sinal vermelho.

As moças dos serviços de atendimento falam a nossa língua. Conversam como se fossem velhas amigas. Se preocupam, resolvem os nossos problemas. Nada é para daqui a cinco dias úteis.

E o corpo da Priscila, gente? E da Marcia? E da Silvia? Dão a impressão que foram criadas com leite de vaca mesmo. Umas coisas firmes, saudáveis. Não são mudernas. São modernas. Educadas e simples.

Tem uma gaivota me olhando de soslaio.

E tem - na ilha - uma prefeita também. Que é do PPB, mas, como disse o Fernando Morais que esteve aqui outro dia, ela é a prova definitiva de que existe vida inteligente no PPB fora do eixo Rio-São Paulo.

Nossa Marta, quando boa estiver - e que Deus a mantenha - petista da primeira linhagem, deveria deixar de lado as bases e vir até aqui ver como se planta um canteiro, como se cuida de uma rua e uma calçada. Mas vejo aqui que ela vai se enturmar com o Orestes. Sei não, Marta.

Confio em você e na Priscila, Marta. E em Deus que vai te dar a força e a persistência. E que os espíritos de porco de sempre, deixem de lado partidos e quebrados e sejam paulistanos pelo menos quatro anos em suas vidas.

Daqui da minha janela vejo o continente. O céu dele também está azul.

E Oscar Peterson está tocando Tea for Two, com Lester Young.

E eu vou para a praia. Limpa como estas duas prefeitas. Com ondas e curvas como a da cantora Priscila.

E não fique com inveja de mim, que eu fico com culpa.

PS. Agora a Internet me avisa que está tudo bem com a nossa Marta. Deus é brasileiro. Só podia ser um pouco mais paulistano. Só quatro anos, Deus! Segura essa, meu!