CALIFÓRNIA - Mario? É a Danuza.
Leão. Queria saber se eu ia na festa da
Brahma lá em Los Gatos. Eu não ia, devo confessar. Meu estômago e meu
intestino não estavam mais conversando um com o outro. Tinha tomado um remédio.
Mas a Danuza! Sempre quis conhecer a Danuza. Ela queria uma carona.
- Te pego em quinze minutos.
Conheço bem a Danuza. Nunca falei com ela.
Mas Samuel Wainer gostava de biografar a ex-mulher, a mãe dos seus filhos.
Tinha a maior curiosidade em conhecer. E ela devia me conhecer um pouco, através
da minha ex-mulher Marta, amiga dela, como confirmaria depois.
Fui buscá-la no hotel cheio de maneiras, e
logo de cara cometi a primeira gafe: perguntei se ela estava mandando a matéria
para o Globo de fax. Ela foi gentil, educada: JB.
Entramos na estrada, eu cheio de dedos,
fazendo esforço para dizer bobagens inteligentes, acender o cigarro dela e
outros maneirismos. E eis que a barriga dá uma pontada forte. O remédio
bateu, pensei. Mas eu seguro. Cinqüenta milhas, eu seguro.
Cabelos ao vento, lá vamos nós. Ela falando
do seu próximo livro (uma idéia genial) e eu olhando no rosto dela. Um pouco
de Pink aqui, uma saudade do Samuel ali. Não dava para ver se o joelho era
igual ao da irmã, a Nara. Mas devia ser.
A pontada agora foi maior. Tenho que parar.
Na estrada não pode. Tem que entrar em alguma cidade. Mas como é que eu vou
dizer para aquela mulher elegantérrima, cheia de maneiras gostosas, que eu
preciso fazer cocô? Penso que deve ter algum capítulo no livro dela onde se
trata disso: da indelicadeza de um homem avisar a uma mulher, a 80 milhas por
hora, que precisa ir lá. O meu intestino parecia que saía da barriga e
enforcava o meu pescoço.
Ela puxava assuntos interessantíssimos e eu
só no "sim, não, ah, é?", perdendo o papo da Danuza. Ela já
devia estar me achando um penta.
Explico que preciso ir ao banheiro, sem
maiores detalhes. Claro, ela me diz, aproveito para comprar cigarros. Entro
numa cidadezinha, paro num posto e sumo. E não faço. Volto sabendo que, mais
para a frente, a coisa vai piorar.
Andamos mais umas dez milhas e agora ela fala
do trabalho dela na televisão e eu não ouço mais nada. Nenhuma cidade à
vista.
Um deserto californiano. Eu devia estar
verde. Será que ela está reparando que eu estou suando? Deve ter um capítulo
no livro dela sobre homens que suam, fedem. Deve ter. Estico o pescoço,
nenhuma cidade.
Explico a situação para ela. Ela acha
normal, com estas comidas americanas horrorosas. Tem uma seta para uma cidade.
Eu entro. Mas a cidade era longe. Meu medo agora era não conseguir chegar a
lugar algum. Fazer ali mesmo, no carro, no banco, ao lado da Danuza Leão.
- Danuza, é o seguinte: eu estou mal mesmo.
Se não aparecer logo uma cidade, eu vou parar e fazer no mato. Você jura que
não conta pra ninguém?
Ela me olhou e deve ter pensado: ''como é
que esse cara vai se limpar?" Mas maneirou: ''fica tranqüilo".
Além de não ouvir mais, eu não falava. Não
podia gastar nenhuma energia. Qualquer esforço poderia ser fatal.
Um posto! Ela me espera no carro,
maravilhosa. E eu lá dentro, horroroso. Achei que estava com hemorragia
estomacal. Voltei e comuniquei a desgraça. ''Tenho que voltar para San
Francisco. Vamos achar um táxi para você. Ela quer voltar comigo, fica
preocupada realmente com o meu estado. Eu insisto, estão esperando ela em Los
Gatos. Estou com vontade de novo. Ela consegue chamar um táxi pelo telefone,
não sei de que maneira.
Vou embora rapidamente. Tenho que achar outro
posto. Olho pelo retrovisor e vejo Danuza Leão encostada num poste de
estrada, no interior da Califórnia, esperando o táxi, o sol batendo forte na
cara dela, o vento mexendo com seus cabelos loiros, linda. Parecia um anúncio
da Coca-Cola. Ao fundo, a poeira faz um rodamoinho e, lá dentro, eu vejo o
Mao Tsetung e o Samuel Wainer a me recriminar.
E eu, que nem perguntei se ela tinha dinheiro
para o táxi? Não disse nada...