Chego no Brasil, depois de 41 dias nos Estados
Unidos, e a confusão está armada. A seleção, tetra-campeã, chegou trazendo a Copa e a
Cozinha. Toda a imprensa brasileira, sem exceção, caindo de pau no excesso de bagagem
dos nossos campeões. E na impunidade alfandegária. Até o Osiris caiu. De pau e do pau.
Mas eu acho que o buraco da cozinha é mais embaixo.
Temos que procurar o verdadeiro ralo onde escoa a impunidade brasileira. Dizem que éramos
740 jornalistas brasileiros cobrindo o sucesso desta garotada. A primeira pergunta é a
seguinte: quem de nós não deu um jeitinho para entrar com os computadores e os celulares
comprados lá? Vi vários jornalistas conversando entre si, dividindo pacotes, para passar
pela anfândega no Brasil.
A segunda pergunta é a seguinte? Quem de nós
(incluindo eu e você, leitor) que não sonegamos imposto neste país?
Não quero aqui dizer que os jogadores poderiam
entrar com tudo aquilo sem pagar nada. Mas, a terceira pergunta é a seguinte: aquilo
tudo, 17 toneladas, era dos jogadores ou dos embriagados cartolas? Segui de perto o nosso
time lá nos Estados Unidos. Eles não teriam tempo para comprar tantos quilos. Mas segui
de perto também a nossa deslumbrada e torcedora classe média (alta) que foi torcer pelo
Brasil. E, sem o que fazer durante grande parte do tempo, saiam às ruas em desenfreadas
compras. Todas as noites chegavam no hotel com caixas e mais caixas. E eu ouvia dizer, nas
mesas ao lado, que cada um deles tinha um "tenente" que os iriam receber no
aeroporto.
Porque então esta cobrança diante dos nossos
craques? Porque eles deveriam arcar com a "nova honestidade eleitoreira" que
assola o país? Já disse que segui de perto o trabalho deles, jogadores. Foram dois meses
de trabalho árduo. Não tinha nenhum super craque neste time. Ganharam na marra, no
esforço. Mesmo o senhor Romário. Será que nenhum jornalista brasileiro vai ter a
coragem de dizer que ele foi o pior jogador do Brasil no jogo decisivo contra a Itália?
Será que estes coleguinhas da imprensa que, em sua grande maioria, não declararam o que
trouxeram, vão ficar agora malhando os meninos do alto de alguma impunidade que os
jornais lhe oferecem?
O Brasil ganhou a Copa sem nenhum time de craques.
Não era como a seleção de 58 e 62 onde tínhamos Pelé, Garrincha, Didi, Zito, Vavá,
Zagalo, Gilmar, Newton Santos, Mazzola e Orlando. Não, não era. Não era, muito menos,
como a de 70 com o mesmo Pelé, o Rivelino, o Gerson, o Tostão, o Jairzinho, o Clodoaldo
e o capitão - este sim, capitão - Carlos Alberto Torres. Eles ganharam num esforço
individual, quase sobrehumado. E, como todos brasileiros, achavam que dava para dar um
jeitinho na hora da chegada. E deram. E todo mundo caiu de pau. Um prato cheio para a
imprensa.
Acho tudo isso de uma hipocrisia desumana. Repito:
desumana! Quem é que me garante que o Itamar, ao ir ao dentista - coisa que ele mais faz
na vida - paga com recibo ou sem recibo?
Neste país onde a impunidade tributária é uma
vergonha, eu não consigo entender esta fúria contra os nossos heróicos jogadores. Tenho
certeza que, se forem verificar direitinho, setenta por cento daqueles quilos todos eram
dos nossos embrigados e mais do que necessários cartolas. Mas não é isso que eu estou
discutindo.
Um jornalista brasileiro, muito conhecido, veio no
meu vôo com dois aparelhos de CD-ROM completos, fora o que trazia na mala, morrendo de
medo dos impostos. E não é que ele chegou, todo amedrontado, e o fiscal o reconheceu e
perguntou: só isso, fulano? Pode passar! Viva o Brasil!
Tenho certeza também que nós todos - estimados em
40 mil brasileiros - que fomos para os Estados Unidos, todos nós sonegamos, mentimos,
inventamos e talvez até tenhamos tentado subornar, na nossa chegada, os fiscais. Porque
os jogadores foram motivos de capas de revistas e manchetes de jornais? Será que não
está na hora do governo admitir que todos nós sonegamos e que os funcionários da
receita federal, quase todos eles, fazem média?
Vamos deixar de hipocrisia, colegas da imprensa. Eu,
da minha parte, declaro que entrei com uma impressora e um celular e não paguei nada. E
vocês, que foram torcer e agora se dizem envergonhados com o governo brasileiro por
facilitar a entrada dos nossos craques e dos nossos cartolas? Quanto foi que cada um de
vocês deixou de pagar? E você, colega jornalista, quanto foi que você sonegou desta
vez?
Ninguém nunca trabalhou tanto na vida como estes
vinte e dois meninos que nos deram a alegria do tetra e elevaram (sei que parece lugar
comum) o nome do Brasil no mundo e, principalmente, nos Estados Unidos. Quanto vale isso
em termos de marquetim internacional? Porque eles são as vítimas e não eu e você? Ou
vai me dizer que você leitor, quando vai ao médico paga o imposto direitinho? Pra cima
de mim, não, que eu sonego desde que nasci. Igual a você e ao seu vizinho.
Vamos mudar o Brasil e não os nossos mais que
esforçados craques que ganharam a Copa, apesar dos sempre defensivos e opacos técnicos e
dos sempre embriagados e deslumbrados cartolas.
Desta vez, não são os jogadores que têm um pé na
cozinha. Mas todos nós. Está na hora de assumirmos a nossa vergonhosa impunidade. Dentro
e fora do campo.
Infeliz o país que precisa de vinte e dois bandidos
e não de vinte e dois heróis...
PS - Esta crônica é o resultado de um bate-boca
com o brasilianista Matthew Shirts que, como eu, acha que o Brasil pode dar certo. E não
ser apenas um país penta.